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Frãklund - antigo colega do pai de Eriksson - sugeriu que Armanskij lhe desse uma chance. Como estivesse abrindo uma vaga na unidade de intervenção, Armanskij aceitou contratá-lo. Nunca se arrependeu. Eriksson estava na Milton havia cinco anos. Ele não tinha a mesma familiaridade com o terreno que a maioria dos funcionários, em compensação, destacava-se pela perspicácia de seus recursos intelectuais.

—Bom dia a todos, sentem-se e para começar leiam isto aqui - disse Armanskij.

Distribuiu três pastas que continham umas cinquenta cópias de recortes de jornal relatando a caçada a Lisbeth Salander, além de um resumo de três páginas sobre seu passado. Armanskij passara a segunda-feira depois da Páscoa redigindo o documento. Eriksson foi o primeiro a terminar a leitura e largar a pasta. Armanskij esperou que Bohman e Frãklund também terminassem.

—Imagino que nenhum de vocês deixou de ver as manchetes dos tabloides durante o feriado - disse Dragan Armanskij.

—Lisbeth Salander - disse Frãklund com voz neutra. Steve Bohman balançou a cabeça.

Niklas Eriksson olhou para o nada com uma expressão impenetrável, esboçando um sorriso triste.

Dragan Armanskij encarou o trio com um olhar perscrutador.

—Uma de nossas funcionárias - disse ele. —Vocês chegaram a conhecê-la nos anos em que ela esteve conosco?

—Tentei brincar com ela uma vez - disse Niklas Eriksson com ar constrangido. —Não deu muito certo. Pensei que ela fosse me decapitar. Era uma desmancha-prazeres, acho que nunca troquei mais de umas dez frases com ela.

—Ela era um tanto especial - disse Frãklund. Bohman deu de ombros.

—Era completamente doida, uma verdadeira peste para se conviver. Eu sabia que ela era maluca, mas não perturbada a esse ponto.

—Ela era uma figura estranha nesta empresa - reforçou Frãklund. —Eu nunca fui próximo dela, não dá para dizer que a gente alguma vez teve um contato caloroso.

Dragan Armanskij assentiu com a cabeça.

—Ela seguia seus próprios caminhos - disse. —Não era uma pessoa fácil de lidar. Mas eu a contratei porque era a melhor investigadora que já conheci. Sempre chegava a resultados fora do comum.

—Está aí uma coisa que eu nunca entendi - disse Frãklund. —Nunca saquei como ela podia ser tão incrivelmente competente e ao mesmo tempo tão antissocial.

Os três concordaram com a cabeça. - É evidente que a explicação está no estado psíquico dela - disse Armanskij, mostrando uma das pastas. —Ela foi declarada incapaz.

—Eu não sabia disso — disse Eriksson. — Quer dizer, ela não andava com um cartaz nas costas anunciando que estava sob tutela. E você nunca comentou nada.

—Não - reconheceu Armanskij. —Nunca comentei nada porque achava que ela não precisava ser ainda mais estigmatizada do que já era. Acho que todo mundo merece uma chance.

—Dá para ver, pelo resultado dessa experiência em Enskede - disse Bohman.

—Quem sabe.

Armanskij hesitou um instante. Não queria revelar sua fraqueza por Lisbeth Salander aos três profissionais que o contemplavam, olhos repletos de expectativa. O tom deles fora bastante neutro durante a conversa, mas Armanskij também sabia que Lisbeth Salander era abertamente detestada pelos três, bem como por todos os funcionários da Milton Security. Ele não podia se mostrar frágil ou desconcertado. Era fundamental, portanto, apresentar a situação de modo a criar uma certa dose de entusiasmo e profissionalismo.

—Pela primeiríssima vez, decidi usar parte dos recursos da Milton para cuidarmos de um caso estritamente interno - disse. —Não podemos chegar a quantias astronômicas, mas pretendo afastar vocês dois, Bohman e Eriksson, do trabalho do dia a dia. A missão de vocês será, para usar uma expressão curinga, “estabelecer a verdade” sobre Lisbeth Salander.

Bohman e Eriksson dirigiram um olhar cético para Armanskij.

—Quero que você, Frãklund, assuma as rédeas da investigação. Quero saber o que aconteceu e o que levou Lisbeth Salander a matar seu tutor e o casal de Enskede. Deve, necessariamente, haver uma explicação plausível.

—Desculpe, mas isso está parecendo uma verdadeira investigação policial - objetou Frãklund.

—Sem dúvida - Armanskij retrucou imediatamente. —Mas temos certa vantagem em relação à polícia. Conhecemos Lisbeth Salander e temos uma idéia de como ela funciona.

—Hmm - disse Bohman com um tom cético. —Não acredito que alguém nesta empresa conheça a Salander ou tenha a mais vaga idéia do que se passa na cabeça dela.

—Não faz mal - respondeu Armanskij. —Ela trabalhava para a Milton Security. Considero nossa responsabilidade estabelecer a verdade.

—A Salander não trabalha com a gente desde... quanto tempo faz? Quase dois anos - disse Frãklund. —Não acho que a gente seja tão responsável assim pelo que ela faz. E não acho que a polícia ia gostar que a gente se metesse na investigação deles.

—Pelo contrário - disse Armanskij.

Ele estava jogando seu trunfo e tinha que jogar com habilidade.

—Como assim? - perguntou Bohman.

—Ontem eu tive uma longa conversa com o chefe do inquérito preliminar, o procurador Ekström, e com o inspetor que está conduzindo a investigação, Bublanski. O Ekström está sendo pressionado. Não se trata de um acerto de contas qualquer entre gângsteres, e sim de um acontecimento com imenso potencial midiático - foram executados um advogado, uma criminologista e um jornalista. Expliquei a eles que, considerando-se que a principal suspeita é uma ex-funcionária da Milton Security, tínhamos decidido iniciar uma investigação própria sobre o caso.

Armanskij fez uma pausa antes de prosseguir.

—O Ekström e eu concordamos que o importante no momento é que a Lisbeth Salander seja detida o quanto antes, para não ter tempo de fazer mais estragos, a si mesma ou aos outros - disse. —Já que, como pessoa, a conhecemos mais que a polícia, podemos contribuir. O Ekström e eu decidimos então que vocês dois - apontou para Bohman e Eriksson - vão se mudar para a delegacia central e se juntar à equipe de Bublanski.

Os três lançaram a Armanskij um olhar perplexo.

—Desculpe uma pergunta idiota... mas nós somos civis - disse Bohman. —A polícia vai nos abrir as portas de uma investigação de assassinato como esta, sem mais nem menos?

—Vocês vão trabalhar sob o comando do Bublanski, mas também vão me manter informado. Vão ter livre acesso à investigação. Todo o material que nós já temos e o que vocês descobrirem será passado ao Bublanski. Para a polícia, isso significa que a equipe do Bublanski simplesmente vai ganhar um reforço extra. E nenhum de vocês foi civil a vida inteira. Frãklund e Bohman, vocês trabalharam muitos anos como policiais antes de vir para cá, e você, Eriksson, cursou a escola da polícia.

—Mas isso é contra os princípios...

—De jeito nenhum. A polícia recorre frequentemente a consultores civis em diversas investigações. Podem ser psicólogos nas investigações sobre crimes sexuais ou intérpretes nas investigações que envolvam estrangeiros. Vocês vão simplesmente intervir enquanto consultores civis que têm algum conhecimento a mais do principal suspeito.

Frãklund meneou a cabeça devagar.

—Certo. A Milton se junta à investigação da polícia e procura contribuir para a prisão da Salander. Mais alguma coisa?

—Uma só: a missão de vocês, no que diz respeito à Milton, é estabelecer a verdade. Mais nada. Quanto a mim, quero saber se a Salander matou mesmo essas três pessoas, e nesse caso por quê.

—Então ainda existe alguma dúvida quanto à culpa dela? - perguntou Eriksson.

—Os indícios de que a polícia dispõe são muito comprometedores para ela. Mas quero saber se existe outra dimensão para essa história, se existe um cúmplice que desconhecemos e que talvez tenha empunhado a arma do crime, ou se há circunstâncias que ignoramos.

—Acho difícil encontrar circunstâncias atenuantes para um triplo assassinato - disse Frãklund. —Teríamos que partir do princípio de que existe uma chance de ela ser inocente. E eu não acredito nisso.