—Mas então, qual é a doença dela? - perguntou Bublanski.
—Como acabei de dizer, não dispomos de fato de um diagnóstico. Eu diria que ela sofre de esquizofrenia e está sempre se equilibrando nas fronteiras da psicose. Carece de empatia e, por vários motivos, pode ser qualificada como uma sociopata. Confesso que me surpreende ela ter se saído tão bem depois da maioridade. Quer dizer que, mesmo sob tutela, ela se movimentou oito anos pela sociedade sem cometer nenhum ato que resultasse numa queixa ou detenção. Mas o prognóstico...
—O prognóstico?
—Nesse tempo todo, ela não recebeu tratamento. Eu seria capaz de apostar que a doença dela, que talvez pudéssemos ter amainado ou tratado há dez anos, agora já faz parte da sua personalidade. Meu prognóstico é que, uma vez detida, ela não será condenada à prisão. Terá de ser internada numa instituição.
—Então como se explica que o tribunal de instâncias decidiu conceder a ela um visto para a vida em sociedade? - resmungou Hans Faste.
—Isso na certa deve ser entendido como a conjunção de alguns fatores: um advogado bom de lábia, somado a restrições orçamentárias e à eterna liberalização. Em todo caso, foi uma decisão à qual eu me opus quando o serviço de medicina legal me consultou. Mas eu não tinha poder de decisão.
—Mas esse prognóstico de que o senhor fala se baseia necessariamente em suposições - sugeriu Sonja Modig. —Quero dizer, na verdade o senhor não sabe nada do que aconteceu com ela desde que ela atingiu a maioridade.
—É mais que uma suposição. É a minha experiência.
—Ela pode representar um perigo para si mesma? - perguntou Sonja Modig.
—Você quer dizer: se ela poderia cometer suicídio? Não, duvido muito. Ela é uma psicopata egomaníaca. O que conta é ela mesma. Todas as outras pessoas à sua volta não têm a menor importância.
—O senhor disse que a reação dela pode se traduzir em chegar às vias de fato - disse Hans Faste. —Ou seja, ela pode ser vista como uma pessoa perigosa.
Peter Teleborian o contemplou demoradamente. Então, inclinou a cabeça e coçou a testa antes de responder.
—Vocês não imaginam como é difícil afirmar com exatidão corno uma pessoa vai reagir. Eu não gostaria que Lisbeth Salander fosse ferida quando vocês a prenderem... mas digamos que, tratando-se dela, eu tomaria cuidado para que a detenção se desse com a máxima cautela. Se ela estiver armada, há um grande risco de ela usar a arma.
18 - TERÇA-FEIRA 29 DE MARÇO – QUARTA-FEIRA 30 DE MARÇO
Três investigações paralelas sobre os assassinatos de Enskede estavam, portanto, em andamento. A primeira era a do inspetor Bublanski, que tinha a vantagem de representar a autoridade do Estado. Tudo indicava que a solução estava bem ao alcance da mão; tinham uma suspeita e uma arma do crime associada a essa suspeita. Tinham uma ligação incontestável com a primeira vítima e uma possível ligação, através de Mikael Blomkvist, com as duas outras vítimas. Para Bublanski, praticamente só faltava encontrar Lisbeth Salander e enfiá-la numa cela da casa de detenção de Kronoberg.
A investigação de Dragan Armanskij estava formalmente subordinada à investigação oficial da polícia, mas Armanskij também tinha uma agenda própria. Sua intenção era, de certa forma, cuidar dos interesses de Lisbeth Salander - descobrir a verdade e, de preferência, uma verdade com circunstâncias atenuantes.
A investigação mais incômoda era a da Millennium. A revista careciatotalmente dos recursos de que dispunham tanto a polícia como a empresa de Armanskij. Ao contrário da polícia, Mikael Blomkvist não estava particularmente interessado em descobrir um motivo plausível que pudesse ter levado Lisbeth Salander a Enskede para matar seus dois amigos. Em dado momento, durante os feriados da Páscoa, ele concluíra que simplesmente não acreditava naquela história. Se Lisbeth Salander estava envolvida de alguma maneira nos assassinatos, era necessariamente por motivos bem diversos dos que a investigação oficial dava a entender. Outra pessoa tinha segurado a arma, ou então alguma coisa escapara do controle de Lisbeth Salander.
Niklas Eriksson permaneceu calado no trajeto de táxi entre Slussen e a delegacia central de Kungsholmen. Estava deslumbrado por se ver afinal, e sem aviso prévio, em meio a uma legítima investigação policial. Olhou de lado para Steve Bohman, que relia mais uma vez o resumo de Armanskij. Então sorriu de repente consigo mesmo.
Aquela missão lhe oferecia uma chance totalmente inesperada de viver uma ambição que nem Armanskij nem Steve Bohman conheciam ou sequer adivinhavam. Achava-se, de repente, em condições de apanhar Lisbeth Salander. Esperava poder contribuir para sua detenção. Esperava que ela fosse condenada à prisão perpétua.
Todo mundo sabia que Lisbeth Salander não era muito popular na Milton Security. A maioria dos colaboradores que tinham lidado com ela a consideravam uma chave de cadeia. Mas nem Bohman nem Armanskij desconfiavam até que ponto Niklas Eriksson odiava Lisbeth Salander.
A vida havia sido injusta com Niklas Eriksson. Ele era um sujeito bonito. Um homem na flor da idade. Além disso, era inteligente. Ainda assim, estava excluída para sempre qualquer possibilidade de ele vir a ser o que sempre sonhara, ou seja, um policial. Seu problema era um sopro no coração, causado por uma lesão microscópica de uma válvula. Ele fora operado e o defeito, corrigido, mas, pelo fato de ter tido um problema cardíaco, fora definitivamente desclassificado e julgado um ser humano de categoria inferior.
Quando lhe propuseram trabalhar na Milton Security, ele aceitou. Mas foi sem o menor entusiasmo. Considerava a Milton uma lixeira de indivíduos inúteis - tiras aposentados e que já não estavam à altura. E ele era um desses rejeitados, sem ser responsável por isso.
Quando começou a trabalhar na Milton, uma de suas primeiras missões foi auxiliar a unidade de intervenção. Ele tinha que fazer uma análise de segurança para a proteção pessoal de uma cantora mundialmente famosa, e já não tão jovem, que vinha sofrendo ameaças de um admirador demasiado afoito, que além disso era um paciente psiquiátrico foragido. A cantora morava sozinha numa mansão em Södertörn, onde a Milton havia instalado um sistema de vigilância e um alarme, e deixado um guarda-costas de plantão. Certa noite, já bem tarde, o admirador afoito tentou entrar arrombando a casa. O guarda-costas neutralizou rapidamente o sujeito, que foi depois condenado por ameaças e arrombamento, e despachado de volta para o asilo.
Por duas semanas, Niklas Eriksson fora várias vezes à mansão de Södertörn, acompanhando outros funcionários da Milton. Achava que a cantora madurona tinha um ar altivo de megera esnobe, e olhara espantada para ele quando ele bancou o sedutor. Ela deveria era se dar por feliz de um admirador ainda se lembrar dela.
Desprezava a maneira como o pessoal da Milton lambia as botas daquela mulher. Mas, evidentemente, não expressara sua opinião.
Certa tarde, pouco antes da prisão do admirador, a cantora e mais dois funcionários da Milton achavam-se à beira de uma pequena piscina nos fundos da casa, enquanto ele próprio estava lá dentro tirando fotos das portas e janelas que precisariam eventualmente ser reforçadas. Andara de um cômodo a outro até chegar ao quarto da mulher, e de repente não resistira à tentação de abrir uma cômoda. Encontrara uma dúzia de álbuns fotográficos datando da sua época de glória, nos anos 1970 e 1980, quando ela e sua orquestra faziam turnês pelo mundo inteiro. Encontrara também uma caixa com fotos muito pessoais da cantora. Fotos relativamente inocentes, mas que, com alguma imaginação, poderiam ser vistas como “ensaios eróticos”. Meu Deus, que mocreia! Ele roubara cinco das fotos mais ousadas, aparentemente tiradas por algum amante e decerto guardadas como recordação.