—Se acreditarmos no que dizem os jornais...
—Não dá para acreditar no que dizem os jornais. É simplista demais. Ela deu a palavra dela que não ia trair você. Acho que vai cumpri-la pelo resto da vida. Pelo que percebi, ela tem princípios.
—E se ela não cumprir?
—Não sei, Harriet. Vou fazer de tudo para descobrir o que realmente aconteceu.
—Está bem.
—Não se preocupe.
—Não estou preocupada. Só quero estar preparada para o pior. Como você está, Mikael?
—Não muito bem. Estamos em pé de guerra com esses assassinatos. Harriet Vanger calou-se um instante.
—... Nesse momento, estou aqui em Estocolmo. Pego o avião para a Austrália amanhã e vou ficar um mês fora.
—Ah, é?
—Estou hospedada no mesmo hotel.
—Não sei bem o que dizer. Estou me sentindo um caco. Tenho que trabalhar esta noite e não vou ser uma companhia muito agradável.
—Você não precisa ser uma companhia agradável. Venha só relaxar um pouco.
Mikael voltou para casa por volta da uma da manhã. Estava cansado e chegou a pensar em deixar tudo para lá e ir dormir, mas mesmo assim ligou o iBook e checou a caixa postal. Não havia nada de interessante.
Abriu a pasta [LISBETH SALANDER] e encontrou um arquivo recente. Intitulava-se [Para MikBlom] e estava bem junto do documento intitulado [Para Sally].
Foi quase um choque deparar de repente com aquele arquivo em seu computador. Ela está aqui. Lisbeth Salander entrou no meu computador. Talvez ainda esteja aí. Clicou duas vezes.
Não saberia dizer o que esperava. Uma carta. Uma resposta. Protestos de inocência. Uma explicação. A resposta de Lisbeth Salander a Mikael Blomkvist era frustrante, de tão breve. A mensagem consistia numa única palavra. Quatro letras.
[Zala.]
Mikael fitou aquele nome.
Dag Svensson tinha falado em Zala ao telefone, duas horas antes de ser morto.
O que ela está tentando dizer? Será que Zala é o elo entre o Bjurman, o Dag e a Mia? Como? Por quê? Quem é ele? E como é que a Lisbeth sabe? De que modo está envolvida nisso?
Abriu as propriedades do arquivo e viu que o texto tinha sido criado havia menos de quinze minutos. Então abriu um sorriso. O arquivo mostrava Mikael Blomkvist como autor. Ela criara o arquivo no próprio computador dele, e com o seu programa. Era melhor que um e-mail, não deixava pistas nem um IP que pudesse ser rastreado, embora Mikael tivesse quase certeza de que Lisbeth Salander jamais poderia ser rastreada pela rede. E isso simplesmente provava que ela tinha operado um hostile takeover - era assim que ela chamava - do seu computador.
Aproximou-se da janela e olhou para o prédio da prefeitura. Não conseguia se livrar da sensação de estar sendo observado por Lisbeth naquele momento, era quase como se ela estivesse ali na sala contemplando-o através da tela do iBook. Concretamente, ela podia estar em qualquer lugar do mundo, mas ele suspeitava que ela estava muito mais perto. Em algum lugar no centro de Estocolmo. Num raio de um quilômetro de onde ele se achava.
Refletiu alguns instantes, em seguida sentou-se e criou um novo arquivo Word que intitulou [Sally-2] e salvou-o na área de trabalho. Escreveu uma mensagem veemente.
[Lisbeth,
Que diacho de menina complicada você está me saindo... Quem é esse Zala? Ele é que é o elo? Você sabe quem matou Dag & Mia? Se sabe, me diga, para a gente conseguir desfazer este nó e ir para casa dormir. Mikael.]
Ela estava dentro do iBook de Mikael Blomkvist. A resposta chegou menos de um minuto depois. Um novo arquivo se materializou na sua área de trabalho, desta vez intitulado [Super-Blomkvist].
[O jornalista é você. Trate de descobrir.]
As sobrancelhas de Mikael se contraíram. Ela estava de gozação com ele, e ainda usando aquele apelido que, ela sabia muito bem, ele detestava. E não fornecia um indício sequer. Ele digitou o arquivo [Sally-3] e o salvou na área de trabalho.
[Lisbeth,
Um jornalista descobre as coisas perguntando às pessoas que sabem. E eu te pergunto: você sabe por que o Dag e a Mia foram mortos e quem os matou? Se souber, me diga. Dê-me uma pista para que eu possa avançar. Mikael.]
Foi desanimando enquanto esperava, horas a fio, por uma resposta. Eram mais de quatro da manhã quando desistiu e foi se deitar.
19 - QUARTA-FEIRA 30 DE MARÇO – SEXTA-FEIRA 1º DE ABRIL
Na quarta-feira, não aconteceu nada de particularmente interessante. Mikael gastou o dia passando um pente-fino no material de Dag Svensson para achar todas as referências ao nome de Zala. Como fizera Lisbeth Salander, procurou a pasta [ZALA] no computador de Dag Svensson e leu os três arquivos, [Irene P.], [Sandström] e [Zala], e, assim como Lisbeth, percebeu que Dag Svensson tivera uma fonte na polícia que atendia pelo nome de Gulbrandsen. Conseguiu localizá-lo na Criminal de Södertãlje, mas quando ligou disseram que Gulbrandsen estava viajando a trabalho e só voltaria na segunda-feira.
Observou que Dag Svensson dedicara muito tempo a Irene P. Leu o relatório da autópsia e descobriu que a mulher fora morta lentamente, de maneira brutal. O assassinato ocorrera no final de fevereiro. A polícia não tinha nenhuma pista do assassino, mas partia do princípio de que, sendo Irene uma prostituta, o assassino devia ser um de seus clientes.
Mikael se perguntou por que Dag Svensson teria guardado o arquivo sobre Irene P. na pasta [ZALA]. Isso indicava uma ligação entre Zala e Irene P., mas o texto não fazia nenhuma referência a isso. Ou seja, Dag Svensson estabelecera a ligação só na sua cabeça.
O arquivo [Zala] era tão sucinto que lembrava anotações de trabalho provisórias. Mikael concluiu que Zala (supondo que ele de fato existisse) aparecia como uma espécie de fantasma no mundo do crime. Aquilo não parecia ser muito realista e o texto não remetia a nenhuma fonte.
Fechou o arquivo e coçou a cabeça. Desvendar o assassinato de Dag e Mia era uma tarefa muito mais complicada do que ele tinha imaginado. E, sem querer, sentia-se o tempo todo com uma dúvida. O problema é que, na verdade, ele não dispunha de nenhum indício apontando claramente que Lisbeth não tinha ligação com os assassinatos. Ele apenas se fundamentava no absurdo que era ela ter ido até Enskede para matar dois amigos dele.
Sabia que recursos financeiros não lhe faltavam; ela usara seus talentos como hacker para surrupiar uma quantia fabulosa de vários bilhões de coroas. Nem Lisbeth sabia que ele sabia. Exceto ele ter sido obrigado (com a autorização de Lisbeth) a contar dos seus talentos em computação para Erika Berger, jamais revelara os segredos dela para ninguém.
Negava-se a acreditar que Lisbeth Salander fosse culpada dos assassinatos. Tinha para com ela uma dívida que jamais poderia pagar. Ela não só lhe salvara a vida quando Martin Vanger estava prestes a matá-lo, como também salvara sua carreira e, provavelmente, a revista Millennium, ao entregar a cabeça daquele financista corrupto que era o Wennerstrôm.
Essas são coisas que vinculam. Sentia uma imensa lealdade em relação a Lisbeth Salander. Fosse ela culpada ou não, pretendia fazer de tudo para ajudá-la quando, mais cedo ou mais tarde, ela fosse detida.
Mas tinha de admitir que não sabia coisa alguma a seu respeito. Os vários laudos psiquiátricos, o fato de ela ter sido internada numa das instituições mais respeitadas do país, sendo inclusive declarada incapaz, indicavam claramente que a cabeça dela não funcionava muito bem. A mídia dera muito espaço ao médico-chefe Peter Teleborian, da clínica psiquiátrica Sankt Stefan, em Uppsala. Por discrição, ele não se pronunciara especificamente sobre Lisbeth Salander, no entanto não perdera a oportunidade de bater na sua tecla da decadência do tratamento dos doentes mentais. Teleborian era uma autoridade respeitada não só na Suécia como no mundo inteiro, enquanto eminente especialista em doenças psíquicas. Tinha sido muito convincente e conseguira expressar sua simpatia pelas vítimas e por suas famílias, e ao mesmo tempo dar a entender que se preocupava imensamente com o bem-estar de Lisbeth.