CAÇADA A LISBETH SALANDER
Seu olhar passou para a segunda manchete.
EXCLUSIVO! PSICOPATA PROCURADA POR TRIPLO ASSASSINATO
Indeciso, entrou na revistaria e comprou os jornais vespertinos, também os matutinos, e dirigiu-se a uma lanchonete. Leu com uma sensação de irrealidade.
Ao chegar a seu apartamento da Bellmansgatan por volta das onze da noite, na quinta-feira, Mikael Blomkvist estava cansado e deprimido. Planejava ir dormir cedo e tentar recuperar um pouco do sono atrasado, mas não resistiu à tentação de se conectar a internet e dar uma olhada na sua caixa postal.
Não recebera nada de muito interessante, mas por desencargo de consciência abriu a pasta [LISBETH SALANDER]. Seu coração disparou quando encontrou um arquivo novo, intitulado [MB2]. Clicou duas vezes.
[O procurador E. está despejando informações na mídia. Pergunte a ele por que não repassou o antigo relatório policial.]
Mikael contemplou estupefato, a misteriosa mensagem. O que ela queria dizer com isso? Que antigo relatório policial? Não entendia o que ela estava sugerindo. Que menina danada de complicada! Por que ela sempre tinha que redigir as mensagens em forma de charada? Um instante depois, ele criou um novo documento, que chamou de [Críptica].
[Olá, Sally. Estou supercansado, não parei quieto desde os assassinatos. Estou sem ânimo para brincar de adivinha. Pode ser que você não esteja nem aí, ou que não leve a situação a sério, mas eu quero saber quem matou os meus amigos. M]
Esperou em frente à tela. A resposta [Críptica 2] chegou no minuto seguinte.
[O que você faria no meu lugar?] Ele respondeu com [Críptica 3].
[Lisbeth, se você pirou de vez, só o Peter Teleborian, na certa, pode te ajudar. Mas não acredito que você tenha matado o Dag e a Mia. Espero não estar enganado.
O Dag e a Mia pretendiam denunciar o comércio do sexo. Minha hipótese é que isso de alguma forma motivou os crimes. Mas não tenho nada para fundamentar essa hipótese.
Não sei o que deu errado entre nós, mas um dia conversamos sobre amizade. Eu te disse que a amizade se baseia em duas coisas - respeito e confiança. Mesmo que você não goste de mim, pode confiar em mim totalmente. Nunca revelei seus segredos. Nem mesmo o que aconteceu com os bilhões de Wennerström. Confie em mim. Não sou seu inimigo. M.]
A resposta demorou tanto que Mikael já tinha perdido a esperança. Mas uns cinquenta minutos depois apareceu, de repente, o [Críptica 4].
[Vou pensar no assunto.]
Mikael enfim respirou aliviado. Vislumbrou, de súbito, um pequeno clarão de esperança. A resposta significava exatamente isso. Ela ia pensar no assunto. Era a primeira vez, desde que sumira repentinamente da sua vida, que ela aceitava se comunicar com ele. Ela estar disposta a pensar no assunto significava que ia pesar os prós e os contras antes de falar com ele. Ele escreveu [Críptica 5].
[Está bem, eu espero. Mas não demore demais.]
O inspetor Hans Faste atendeu a ligação no celular quando rodava pela Lângholmsgatan em direção à ponte de Vãsterbron para ir trabalhar na sexta-feira de manhã. A polícia não tinha verba suficiente para vigiar ininterruptamente o apartamento da Lundagatan. Tinham combinado com um vizinho de porta, um policial aposentado, que ficasse de olho no apartamento.
—A china acabou de chegar - disse o vizinho.
Hans Faste não poderia estar num lugar mais propício. Fez um retorno proibido diante do ponto de ônibus da Heleneborgsgatan, em frente à ponte, e dirigiu-se para a Lundagatan via Högalidsgatan. Estacionou menos de dois minutos depois do telefonema, atravessou a rua a passo acelerado e entrou no prédio pela entrada dos carros.
Miriam Wu ainda estava em frente à porta do apartamento, olhando para a fechadura arrombada e as fitas adesivas, quando ouviu passos na escada. Virou-se e viu um homem forte, de porte atlético e olhar intenso se aproximar. Sentiu-o como alguém hostil, largou a mala no chão e preparou-se para uma demonstração de boxe tailandês, se necessário.
—Miriam Wu? - ele perguntou.
Para sua imensa surpresa, o homem apresentou uma insígnia policial.
—Sim - respondeu Mimmi. —Do que se trata?
—Onde você esteve na semana passada?
—Viajando. O que aconteceu? Fui assaltada? Faste olhou para ela.
—Vou ter de lhe pedir que me acompanhe até Kungsholmen - disse, pondo uma mão no ombro de Miriam Wu.
Bublanski e Modig viram uma Miriam Wu razoavelmente irritada sendo escoltada por Faste até a sala de interrogatório.
—Sente-se. Sou o inspetor criminal Jan Bublanski e essa é minha colega Sonja Modig. Lamento termos sido obrigados a trazê-la aqui desta maneira, mas temos umas perguntas para lhe fazer.
—Ah, é? Por quê? O seu colega ali não é de falar muito. Mimmi apontou o polegar na direção de Faste.
—Faz mais de uma semana que estamos procurando você. Pode me dizer por onde andava?
—Sim, claro. Mas não estou com vontade e, até onde eu sei, isso não lhe diz respeito.
Bublanski ergueu uma sobrancelha.
—Chego em casa, dou com a porta arrombada e lacrada pela polícia, e aí um macho entupido de anabolizantes me arrasta até aqui. Não tenho direito a alguma explicação?
—Você não gosta de machos? - perguntou Hans Faste.
Miriam Wu olhou para ele chocada. Bublanski e Modig o fitaram com olhos severos.
—Devo deduzir que você não leu os jornais na semana passada? Estava fora do país?
Abalada, Miriam Wu começava a se sentir insegura.
—Não, não li os jornais. Passei quinze dias em Paris, visitando meus pais. Acabo de chegar da estação.
—Veio de trem?
—Não gosto de avião.
—E não leu as manchetes dos jornais?
—Acabo de descer do trem noturno, fui para casa de metrô.
O inspetor Bubolha refletiu. Nem todos os jornais da manhã davam Lisbeth Salander nas manchetes. Levantou-se, saiu da sala e voltou um minuto depois com a edição de Páscoa do Aftonbladet, cuja primeira página estava tomada pela foto de Lisbeth Salander.
Miriam Wu por pouco não desmaiou.
Mikael Blomkvist seguiu as instruções fornecidas por Gunnar Björck, sessenta e dois anos, para chegar à casa de campo de Smàdalarõ. Estacionou o carro e constatou que a “casinha” era uma casa moderna e muito confortável, da qual se avistava um pedaço da angra de Jungfrufjãrden. Subiu uma trilha de cascalhos e tocou a campainha. Gunnar Björck era exatamente igual à sua foto da identidade que Dag Svensson tinha conseguido.
—Bom dia - disse Mikael.
—Bom dia, foi fácil de achar?
—Foi, sim.
—Entre. Vamos ficar na cozinha.
—Parece ótimo.
Gunnar Björck parecia estar bem de saúde, mas mancava ligeiramente.
—Estou de licença médica - disse ele.
—Nada grave, espero - disse Mikael.
—Estou aguardando uma cirurgia de hérnia de disco. Aceita um café?
—Não, obrigado - disse Mikael.
Sentou-se à mesa, abriu a sacola e tirou de dentro uma pasta. Björck sentou-se à sua frente.
—Tenho a impressão de que já o conheço. Já nos vimos em algum lugar?
—Não - disse Mikael.
—Seu rosto me parece realmente familiar.
—Talvez tenha me visto no jornal.
—Como é mesmo o seu nome?
—Mikael Blomkvist. Sou jornalista, trabalho na revista Millennium. Gunnar Björck pareceu intrigado. Então as peças do quebra-cabeça se encaixaram. Super-Blomkvist. O caso Wennerstróm. Mas ainda não entendia as implicações.