—Millennium. Não sabia que vocês faziam pesquisa de mercado.
—Só excepcionalmente. Eu queria que o senhor desse uma olhada nessas três fotos e me dissesse que modelo prefere.
Mikael espalhou sobre a mesa as fotos de três mulheres. Uma das fotos tinha sido baixada de um site pornô da internet e impressa na impressora. As outras duas eram ampliações de fotos coloridas de carteira de identidade.
Gunnar Björck ficou lívido.
—Não estou entendendo.
—Não? Esta é Lidia Komarova, dezesseis anos, de Minsk, na Bielo-Rússia. Ao lado dela, Myang So Chin, também conhecida como Jo-Jo, da Tailândia. Vinte e cinco anos. Por fim, Yelena Barasowa, dezenove anos, de Tallinn. Você comprou serviços sexuais dessas três mulheres e eu gostaria de saber de qual gostou mais. Pode considerar como uma pesquisa de mercado.
Bublanski encarou Miriam Wu com um olhar cético e ela devolveu-lhe o olhar.
—Resumindo, você afirma que conhece Lisbeth Salander há pouco mais de três anos. Sem nenhuma contrapartida, ela a incluiu no contrato do apartamento agora na primavera, e foi morar em outro lugar. Vocês se encontram na cama uma vez ou outra, quando ela dá sinal de vida, mas você não sabe onde ela mora nem no que ela trabalha ou como ganha a vida. E quer que eu acredite nisso?
—Estou me lixando se acredita ou não. Não cometi nenhum crime, e minha opção de vida e parceiros sexuais não lhe dizem respeito, nem a mais ninguém.
Bublanski suspirou. Tinha recebido a notícia do aparecimento de Miriam Wu com uma sensação de libertação. Enfim, uma abertura. As respostas que ela lhe oferecia, porém, eram tudo menos esclarecedoras. Para dizer a verdade, eram até mesmo estranhas. O problema é que ele acreditava nela. Miriam Wu respondia com precisão e sem hesitar. Sabia dizer com precisão em que lugares e em que ocasiões tinha encontrado com Lisbeth Salander, e descreveu com tantos detalhes as circunstâncias que a fizeram se mudar para a Lundagatan que tanto Bublanski como Modig concluíram que uma história tão esquisita só podia ser verídica.
Hans Faste assistira ao interrogatório de Miriam Wu com uma crescente sensação de irritação, mas conseguira manter a boca fechada. Achava que Bublanski estava sendo mole demais com a china. Aquela cachorra arrogante ficava aumentando as explicações para evitar responder à única pergunta que interessava, ou seja, onde, porra, a puta safada da Lisbeth Salander estava escondida.
Mas Miriam Wu não sabia onde Lisbeth Salander estava. Não tinha a menor idéia de qual era o trabalho de Lisbeth Salander. Nunca ouvira falar na Milton Security. Nunca ouvira falar em Dag Svensson ou em Mia Bergman, e tampouco sabia responder a uma única pergunta interessante. Ignorava totalmente que Salander estava sob tutela, que havia sido internada na adolescência e que tinha laudos psiquiátricos eloquentes no currículo.
Em compensação, confirmou que ela e Lisbeth tinham estado no Moulin, que haviam se beijado, voltado em seguida para a Lundagatan, e se despedido na manhã seguinte. Poucos dias depois, Miriam Wu pegara o trem para Paris e deixara de ver todas as manchetes dos jornais suecos. A não ser por uma rápida aparição de Lisbeth para deixar as chaves do carro, não a via desde a noite no Moulin.
—Chaves do carro? - perguntou Bublanski. — Salander não tem carro.
Miram Wu explicou que ela tinha comprado um Honda cor de vinho que estava estacionado na frente do prédio. Bublanski se levantou e olhou para Sonja Modig.
—Você pode continuar o interrogatório? - perguntou, saindo da sala. Precisava encontrar Jerker Holmberg e pedir um exame técnico no Honda cor de vinho. Precisava, antes de mais nada, ficar sozinho para pensar.
Na sua cozinha com uma bela vista para o mar, Gunnar Björck, em licença médica, chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros na Säpo, tinha adquirido a cor de um fantasma. Mikael o contemplava com olhos neutros e pacientes. Agora estava convencido de que Björck nada tinha a ver com os assassinatos de Enskede. Dag Svensson não tinha tido tempo de se encontrar com ele, Björck ignorava totalmente que em breve seu nome e sua foto estariam numa reportagem que revelaria muita coisa sobre os clientes do comércio do sexo.
A contribuição de Björck limitava-se a um único detalhe interessante. Ele era amigo pessoal do dr. Nils Bjurman. Tinham se conhecido no clube de tiro da polícia, do qual Björck era membro ativo há vinte e seis anos. Em certa época, inclusive, participara da diretoria do conselho administrativo junto com Bjurman. Não era uma amizade profunda, mas haviam saído duas ou três vezes para jantar.
Não, fazia vários meses que não via Bjurman. Até onde era capaz de lembrar, a última vez remontava ao verão anterior, quando tinham tomado uma cerveja na esplanada de um café. Lamentava que Bjurman tivesse sido morto por aquela psicopata, mas não pretendia ir ao enterro.
Mikael achou curiosa essa coincidência, mas acabou deixando para lá. Bjurman devia ter conhecido centenas de pessoas na sua vida profissional e associativa. Não era improvável nem estatisticamente estranho ele conhecer uma pessoa que constava nos registros de Dag Svensson. Mikael descobrira que ele próprio conhecia um jornalista que também constava.
Precisava acabar com aquilo. Björck já tinha passado por todas as etapas de praxe. Primeiro a negação, depois - quando Mikael mostrara parte da documentação - raiva, ameaças, tentativa de suborno e, por fim, súplicas. Mikael ignorara pacientemente todos as investidas.
—Percebe que vai destruir a minha vida se publicar isso? — disse Björck afinal.
—Percebo - respondeu Mikael.
—Mas vai publicar assim mesmo.
—Sem pensar duas vezes.
—Por quê? Podia ter um pouco de compaixão. Estou doente.
—Interessante você evocar a compaixão como argumento.
—O que custa ter um pouco de humanidade?
—Também acho, meu chapa. Você está aí se lamentando porque estou destruindo a sua vida, mas não hesitou em destruir a vida de muitas garotas, e transgredindo a lei. Temos provas no caso de três meninas. Sabe lá quantas outras passaram pelas suas mãos. Onde estava a sua caridade humana nessa hora?
Ele se levantou, juntou os documentos e guardou-os na bolsa do computador.
—Sei onde é a saída.
Encaminhou-se para a porta, então deteve-se e virou-se novamente para Björck.
—A propósito, você por acaso já ouviu falar num indivíduo chamado Zala? — perguntou.
Björck olhou fixamente para ele. Ainda estava tão abalado que mal ouviu as palavras de Mikael. O nome Zala pouco lhe importava. Então, seus olhos se arregalaram. Zala!
Não é possível.
Bjurman!
Será mesmo possível?
Mikael percebeu a alteração e se reaproximou da mesa da cozinha.
—Por que está me falando em Zala? - perguntou Björck. Ele parecia ter tomado um choque.
—Porque esse cara me interessa - disse Mikael.
Um silêncio denso tomou conta da cozinha. Mikael podia ver, literalmente, as engrenagens girando na cabeça de Björck. Por fim, Björck pegou um maço de cigarros no peitoril da janela. Era o primeiro cigarro que ele acendia desde a chegada de Mikael.
—Se eu sei alguma coisa sobre Zala... quanto vale isso para você? - perguntou, de repente mais seguro.
—Depende do que você sabe.
Björck refletiu. Os pensamentos se atropelavam em sua cabeça. Como é que o Blomkvíst pode saber sobre o Zalachenko?
—Fazia muito tempo que eu não escutava esse nome - disse Björck por fim.
—Então você sabe quem ele é - disse Mikael.
—Eu não disse isso. O que está procurando? Mikael hesitou um instante.
—É um dos nomes da minha lista de pessoas que estavam na mira de Dag Svensson.