—Quanto vale?
—Quanto vale o quê?
—Se eu te levar até o Zala... você consideraria esquecer de mim nessa reportagem?
Mikael sentou-se devagar. Depois de Hedestad, ele tinha decidido nunca mais negociar uma matéria jornalística. Não pretendia negociar com Björck e, o que quer que acontecesse, iria denunciá-lo. Por outro lado, Mikael sabia que era suficientemente desprovido de escrúpulos para fazer jogo duplo e fazer um acordo com Björck. Não sentia nenhuma dor na consciência. Björck era um canalha. Se ele sabia o nome de um possível assassino, sua obrigação era intervir - e não usar a informação para negociar em proveito próprio. Mikael não tinha o menor problema em deixar Björck na esperança de que se safaria numa troca de informações sobre um outro canalha. Pôs a mão no bolso do paletó e ligou o ditafone que havia desligado ao se levantar da mesa.
—Pode falar - disse.
Sonja Modig estava furiosa com Hans Faste, mas nada em seu semblante revelava o que pensava dele. O interrogatório de Miriam Wu, depois que Bublanski deixara a sala, estava sendo tudo menos rigoroso, e Faste ignorava solenemente todos os seus olhares enfurecidos.
Modig também estava surpresa. Nunca gostara de Hans Faste e do seu lado machão, mas considerava-o um policial competente. Hoje, não se via nada dessa competência. Era óbvio que Faste se sentia provocado por uma mulher bonita, inteligente e assumidamente lésbica. Também era óbvio que Miriam Wu percebia a irritação de Faste e a alimentava sem dó nem piedade.
—Quer dizer que você achou o pênis artificial na minha cômoda? Que tipo de fantasia ele te despertou? - perguntou Miriam Wu com um sorrisinho de curiosidade.
Faste quase explodiu.
—Cala a boca e responde minha pergunta - disse.
—Você perguntou se eu uso esse pênis para trepar com a Lisbeth Salander. E eu respondo que não lhe interessa.
Sonja Modig levantou a mão.
—Pausa no interrogatório de Miriam Wu para um rápido intervalo às llhl2.
Modig desligou o gravador.
—Miriam, fique aqui, por favor, quero trocar uma palavrinha com você.
Miriam Wu sorriu com ar inocente quando Faste lhe desfechou um olhar furibundo e seguiu Modig até o corredor. Modig se virou e pôs o nariz a dois centímetros do nariz de Faste.
—Bublanski me pediu para continuar o interrogatório. A sua contribuição é zero.
—Qual é? Essa vadia é pior que uma enguia.
—Essa metáfora é algum tipo de simbologia freudiana?
—O quê?
- Nada. Vá procurar o Curt Bolinder e lance um desafio bem macho para ele, ou então vá gastar energia no estande de tiro, ou seja, lá o que for. Mas fique longe desse interrogatório.
—Modig, por que você está desse jeito?
—Você está sabotando o meu interrogatório.
—Ela te deixa tão excitada que você quer interrogá-la a sós?
A mão de Sonja Modig foi tão rápida que ela não teve tempo de se conter. Tascou uma bofetada em Hans Faste. No mesmo instante, arrependeu-se do gesto, mas já era tarde. Olhou de relance para os dois lados do corredor e constatou que, felizmente, não havia testemunhas.
Hans Faste de início pareceu surpreso. Depois deu uma risadinha de escárnio, jogou a jaqueta no ombro e saiu. Sonja Modig ia chamá-lo para se desculpar, mas resolveu ficar quieta. Esperou um minuto até se acalmar, e então foi pegar dois cafés na máquina e voltou para junto de Miriam Wu.
Não disseram nada durante algum tempo. Por fim, Modig encarou Miriam Wu.
—Me desculpe. Este provavelmente é um dos piores interrogatórios da história desta delegacia.
—Esse cara deve ser uma simpatia de colega. Se eu entendi bem, ele é um hétero divorciado que fica contando piada de bicha perto da máquina de café.
—Ele é... uma espécie de relíquia de algum lugar. É só o que posso dizer.
—E não é o seu caso?
—Digamos que não sou homofóbica.
—Certo.
—Miriam, eu... faz dez dias que estamos todos esgotados, vinte e quatro horas por dia. Estamos cansados e tensos. Estamos tentando solucionar um duplo assassinato assustador em Enskede e um assassinato igualmente assustador num apartamento de Odenplan. A sua amiga está ligada aos dois locais do crime. Temos provas técnicas disso, e ela está sendo procurada em todo o território nacional. Você precisa entender que queremos encontrá-la a qualquer custo antes que ela faça mal a alguém ou a si mesma.
—Eu conheço a Lisbeth Salander... Não consigo acreditar que ela tenha matado alguém.
—Você não consegue ou não quer acreditar? Miriam, a gente não lança um alerta de busca nacional sem bons motivos para isso. Mas posso te dizer que o meu chefe, o inspetor Bublanski, também não está totalmente convencido da culpa dela. Estamos cogitando a possibilidade de ela ter um cúmplice ou de ter sido envolvida nisso tudo de outra maneira. Mesmo assim precisamos encontrá-la. Você acha que ela é inocente, Miriam, mas o que vai acontecer se estiver enganada? Você mesma diz que não sabe quase nada sobre a Lisbeth Salander.
—Não sei no que acreditar.
—Então ajude a gente a descobrir a verdade.
—Eu estou sendo acusada de alguma coisa?
—Não.
—Então posso sair daqui quando eu quiser?
—Teoricamente, sim.
—E sem ser teoricamente?
—Para nós, você vai ficar sendo um ponto de interrogação. Miriam Wu refletiu sobre essas palavras.
—Está bem. Vá lá, faça as perguntas. Se elas me incomodarem, não vou responder.
Sonja Modig tornou a ligar o gravador.
20 - SEXTA-FEIRA 1° DE ABRIL – DOMINGO 3 DE ABRIL
Miriam Wu ficou uma hora com Sonja Modig. Já no final do interrogatório, Bublanski retornou à sala e sentou-se, escutando calado. Miriam Wu o cumprimentou educadamente, mas continuou a falar com Sonja.
Por fim, Modig olhou para Bublanski e perguntou se ele tinha alguma pergunta a acrescentar. Bublanski balançou a cabeça.
—Então declaro encerrado o interrogatório de Miriam Wu. São 13h09. Desligou o gravador.
—Ouvi dizer que houve um problema com o inspetor Faste - disse Bublanski.
—Ele estava meio desconcentrado - explicou Sonja Modig com voz neutra.
—Ele é um idiota - disse Miriam Wu.
—O inspetor Faste tem muitos méritos, mas não é, sem dúvida, o mais indicado para interrogar uma moça - disse Bublanski, olhando nos olhos de Miriam Wu. —É óbvio que eu não deveria ter deixado isso para ele. Peço que me desculpe.
Miriam Wu pareceu surpresa.
—Desculpas aceitas. Eu também fui meio difícil no começo.
Bublanski fez um gesto descartando suas palavras. Olhou para ela.
—Posso agora fazer umas perguntas fora do protocolo? Sem o gravador. —Mas é claro.
—Quanto mais escuto falar na Lisbeth Salander, mais perplexo fico. A imagem que me passam as pessoas que a conhecem é incompatível com a imagem transmitida pelos papéis e documentos médico-legais do Serviço Social.
—Ah, é?
—Seria bacana se você conseguisse responder de forma objetiva, sem rodeios.
—Vamos lá.
—O laudo psiquiátrico feito quando Lisbeth Salander completou dezoito anos dá a entender que ela é mentalmente retardada e deficiente.
—Bobagem. A Lisbeth deve ser mais inteligente que nós dois juntos.
—Ela não terminou a escola, não há nenhum boletim que mostre que ela sabe ler e escrever.
—A Lisbeth Salander lê e escreve muito melhor que eu. Ela às vezes se distrai rabiscando umas fórmulas matemáticas. Álgebra pura. Complicado demais para mim.
—Matemática?
—É uma espécie de hobby dela. Bublanski e Modig ficaram quietos.
—Hobby? - perguntou Bublanski depois de alguns instantes.
—Acho que são equações. Nem sei o que significam aqueles símbolos. Bublanski suspirou.
—O Serviço Social fez um relatório depois que ela foi detida no parque de Tantolunden na companhia de um homem de idade, quando ela tinha dezessete anos. Ficou subentendido que ela se prostituía.