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—Lisbeth, puta? Que baboseira. Não sei nada sobre o trabalho dela, mas não me surpreende nem um pouco ela ter trabalhado na Milton Security.

—Como é que ela ganha a vida?

—Não sei.

—Ela é lésbica?

—Não. A Lisbeth transa comigo, mas isso não quer dizer que seja homossexual. Acho que ela nem está segura da sua orientação sexual. Eu diria que ela é bissexual.

—Vocês usam algemas e esse tipo de coisa... Lisbeth Salander tem alguma propensão ao sadismo, ou como é que você a descreveria?

—Acho que você entendeu tudo errado. A gente às vezes usa as algemas como encenação, não tem nada a ver com sadismo, violência ou abuso. É um jogo.

—Já aconteceu de ela ficar violenta com você?

—Não. Eu é que tendo a ser a dominadora nos nossos jogos. Miriam exibiu seu sorriso inocente.

A reunião da tarde, às quinze horas, se encerrou com o primeiro desentendimento sério daquela investigação. Bublanski resumiu a situação e em seguida explicou que sentia necessidade de ampliar as pesquisas.

—Desde o primeiro dia, concentramos toda a nossa energia em encontrar Lisbeth Salander. Ela é altamente suspeita - e com bases objetivas -, mas a imagem que fazemos dela se choca com resistências por parte de todos que convivem com ela hoje em dia. Nem o Armanskij nem o Blomkvist, e agora nem Miriam Wu, vêem nela uma assassina psicopata. Por isso, eu gostaria que a gente ampliasse um pouco a maneira de ver as coisas e começasse a pensar em outros culpados em potencial, ou na possibilidade de Salander ter um cúmplice, ou de ela simplesmente ter estado presente quando foram disparados os tiros.

A colocação de Bublanski desencadeou uma discussão acirrada, na qual ele se deparou com a firme oposição de Hans Faste e Steve Bohman, da Milton Security. Ambos defendiam que a explicação mais simples costuma ser a melhor e que considerar um segundo culpado eqüivalia a aderir francamente à tese do grande complô.

—A Salander até podia não estar sozinha na hora dos tiros, mas não temos nenhum vestígio de um cúmplice.

—Pronto, agora só falta voltar para a pista policial do Blomkvist! - disse Hans Faste duramente.

Sonja Modig foi a única que apoiou Bublanski no debate. Curt Bolinder e Jerker Holmberg limitaram-se a fazer comentários vagos. Niklas Eriksson, da Milton Security, não disse uma palavra durante toda a discussão. Finalmente, o procurador Ekström levantou a mão.

—Bublanski, imagino que você também não pretende riscar a Salander da investigação.

—Não, é evidente que não. Temos as impressões digitais dela. Mas até agora procuramos exaustivamente um motivo e não achamos. Eu queria que a gente raciocinasse sobre outras eventuais pistas. Será que mais pessoas poderiam estar envolvidas? Será que existe afinal alguma relação com o livro sobre comércio sexual que o Dag Svensson estava escrevendo? O Blomkvist tem razão quando diz que muitas pessoas mencionadas no livro teriam motivos para matar.

—E o que você está pensando em fazer? - perguntou Ekström.

—Queria que dois de vocês se dedicassem a descobrir assassinos alternativos. Sonja... e você, Niklas, trabalhem juntos nisso.

—Eu? - perguntou Niklas Eriksson, surpreso.

Bublanski o escolhera por ser o mais jovem e, talvez, o mais capaz de um raciocínio não ortodoxo.

—Você vai trabalhar com a Modig. Revejam tudo o que a gente já sabe e tentem descobrir o que deixamos passar. Faste, você, o Curt Bolinder e o Bohman, continuem procurando a Salander. É a prioridade absoluta.

—O que eu devo fazer? - perguntou Jerker Holmberg.

—Você vai se focar no doutor Bjurman. Examine o apartamento dele mais uma vez. Veja se não deixamos escapar alguma coisa. Perguntas?

Ninguém tinha nenhuma pergunta.

—Muito bem. Vamos ser discretos sobre o aparecimento da Miriam Wu. Ela pode ter mais coisa para nos contar e não quero que a mídia se jogue em cima dela.

O procurador Ekström aprovou o plano de Bublanski.

—Bem - disse Niklas Eriksson, fitando Sonja Modig. —Você é que é da polícia, então você é que decide o que vamos fazer.

Estavam no corredor em frente à sala de reuniões.

—Acho que vamos começar conversando mais uma vez com o Mikael Blomkvist - disse ela. —Mas antes tenho que dar uma palavrinha com o Bublanski. Como hoje é sexta à tarde, e eu não trabalho sábado e domingo, vamos começar só na segunda-feira. Aproveite o fim de semana para refletir sobre o que já temos.

Deram-se até-logo. Sonja Modig entrou na sala de Bublanski no momento em que ele se despedia do procurador Ekström.

—Você teria um minuto?

—Sente-se.

—Faste me deixou tão furiosa que me descontrolei.

—Ele me disse que você o agrediu. Acho que sei o que aconteceu. Foi por isso que entrei na sala para apresentar minhas desculpas a Miriam.

—Ele disse que eu queria ficar a sós com a Miriam porque ela me excitava.

—Prefiro que a gente não entre em detalhes. Mas isso preenche todos os quesitos de assédio sexual. Acho. Você quer dar queixa?

—Enfiei a mão na cara dele. É suficiente.

—Está certo. Se entendi bem, ele te fez perder a paciência.

—Exatamente.

—O Hans Faste tem um problema com mulheres de personalidade forte.

—É, eu percebi.

—Você é uma mulher de personalidade forte e uma excelente policial.

—Obrigada.

—Eu agradeceria se você parasse de espancar o pessoal da equipe.

—Isso não vai se repetir. Não tive tempo para examinar a sala do Dag Svensson na Millennium hoje.

—A gente já estava mesmo atrasado nessa parte. Vá para casa e aproveite o fim de semana. Na segunda-feira você recomeça com energia renovada.

Niklas Eriksson parou na estação central para tomar um café no bar do George. Sentia-se estranhamente desmoralizado. Estivera a semana inteira esperando que Lisbeth Salander fosse detida a qualquer momento. Caso ela opusesse resistência à prisão, com alguma sorte um policial compassivo poderia inclusive enchê-la de balas.

E ele gostava dessa fantasia.

O problema é que Salander continuava à solta. Como se não bastasse, Bublanski agora ainda começava a especular sobre culpados alternativos. A situação não estava avançando na direção certa.

Ele já achava insuportável estar subordinado a Steve Bohman - era o sujeito mais chato e mais destituído de imaginação que havia na Milton -, e não é que agora, ainda por cima, via-se subordinado a Sonja Modig?

Era ela quem mais questionava a pista Salander e, provavelmente, quem azia Bublanski hesitar. Ele se perguntou se esse cara que chamavam de Bubolha não teria um caso com aquela cretina. Não seria surpresa. Ela faz o que quer com ele. De todos os tiras envolvidos na investigação, Faste era o único que tinha peito de falar o que pensava.

Niklas Eriksson refletiu.

De manhã, ele e Bohman tinham tido uma rápida conversa com Armanskij e Frãklund, na Milton. Uma semana de investigação não trouxera nenhum resultado e Armanskij estava frustrado por ninguém ter achado uma explicação para os assassinatos. Frãklund insinuara que a Milton Security precisava se questionar sobre a utilidade da missão - Bohman e Eriksson teriam mais a fazer do que ficar oferecendo colaboração gratuita às forças da ordem.

Armanskij refletira um momento e então decidira que Bohman e Eriksson prosseguiriam por mais uma semana. Se não houvesse resultado, interromperiam o projeto.

Em outras palavras, Niklas Eriksson tinha um prazo de uma semana antes que a porta da investigação se fechasse. Estava em dúvida sobre seus próximos passos.

Instantes depois pegou o celular e ligou para Tony Scala, um jornalista freelancer que escrevia bobagens numa revista masculina e com quem Niklas Eriksson já cruzara várias vezes. Trocados os cumprimentos, declarou que tinha informações sobre os assassinatos de Enskede. Explicou de que maneira se vira de repente no meio da investigação policial mais espinhosa dos últimos anos. Como previsto, Scala mordeu a isca, já que isso podia significar uns frilas para um jornal mais importante. Marcaram encontro para dali uma hora no café Aveny, na Kungsgatan.