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O traço mais marcante de Tony Scala é que ele era gordo. Muito gordo.

—Se você quer que eu lhe repasse informações, tenho duas condições.

—Pode falar!

—Primeiro a Milton Security não pode ser mencionada no texto. O nosso papel é de meros consultores, e se a Milton for mencionada alguém poderia desconfiar que estou na origem do vazamento.

—Mas não deixa de ser um furo a Salander ter trabalhado na Milton.

—Só faxina e coisas do gênero - interrompeu Eriksson. —Não tem nada de furo.

—Certo.

—Segundo, você vai ter que redigir a matéria de modo que pareça que uma mulher é que está por trás do vazamento.

—Por quê?

—Para desviar as suspeitas de mim.

—Está bem. O que você pode me contar?

—A amiguinha lésbica da Salander acaba de aparecer.

—Uau! A tal que estava no contrato do apartamento da Lundagatan e andava sumida?

—A Miriam Wu. Isso vale alguma coisa?

—Se vale. Onde ela estava?

—No exterior. Garante que não tinha nem ouvido falar dos assassinatos.

—Ela é suspeita de alguma coisa?

—Por enquanto não. Foi interrogada hoje, deixaram ela ir embora há três horas.

—Ahã. Você acredita na história dela?

—Acho que é uma tremenda de uma enrolona. Ela sabe de alguma coisa.

—Estou anotando.

—Mas dê uma verificada no passado dela. Afinal, é uma mulher que pratica sexo sadomasô com a Salander.

—E você sabe disso, é?

—Ela confessou no interrogatório. Encontraram algemas, roupas de couro, chicotes e essa coisa toda durante as buscas.

Os chicotes já eram um pouco de exagero. Bem, era pura mentira, mas a safada da china na certa já tinha brincado com chicote também.

—Está brincando? - disse Tony Scala.

* * *

Paolo Roberto foi um dos últimos visitantes a sair da biblioteca na hora de ela fechar. Passara a tarde lendo exaustivamente tudo que se escrevera sobre a caçada a Lisbeth Salander.

Ao sair na Sveavãgen, sentiu-se desanimado e inquieto. E faminto. Entrou num McDonald’s, pediu um hambúrguer e sentou-se a um canto.

Lisbeth Salander tripla assassina. Não conseguia acreditar. Aquela menininha frágil e completamente doida. A questão era se ele deveria cuidar disso. E, nesse caso, fazendo o quê?

Miriam Wu pegou um táxi para voltar à Lundagatan e entrou no seu apartamento recentemente renovado para contemplar o desastre. Os armários, caixas e gavetas da cômoda tinham sido esvaziados, e seu conteúdo, separado. Havia pó de impressões digitais por todo o apartamento. Seus brinquedos sexuais particularmente íntimos estavam jogados numa pilha em cima da cama. Até onde conseguia avaliar, não faltava nada.

Sua primeira providência foi ligar para o SOS-chaveiro de Södermalm para mandar instalar uma fechadura nova. O chaveiro chegaria em menos de uma hora.

Ligou a cafeteira e sentou-se no meio do desastre balançando a cabeça. Lisbeth, Lisbeth, no que é que você foi se meter?

Pegou o celular e tentou ligar para o número de Lisbeth mas deparou com a mensagem de que o número estava indisponível. Ficou um bom tempo sentada à mesa da cozinha tentando organizar os pensamentos. A Lisbeth Salander que ela conhecia não era uma assassina mentalmente desequilibrada, contudo Miriam não a conhecia muito bem. Lisbeth era tórrida na cama, sem dúvida, mas também sabia se mostrar fria feito um peixe quando seu humor se alterava.

Ponderou que não decidiria no que acreditar antes de ver Lisbeth e ouvir uma explicação. Sentiu-se, de súbito, a ponto de começar a chorar e atirou-se, compulsiva, na faxina.

Às sete da noite, estava com uma fechadura nova e o apartamento já tinha readquirido seu aspecto habitual. Tomou um banho e acabava de se sentar na cozinha, vestindo um robe oriental de seda preta e dourada, quando tocaram a campainha. Foi abrir a porta e se viu diante de um homem excepcionalmente gordo, um tanto desalinhado e de barba malfeita.

—Olá, Miriam, eu sou Tony Scala, jornalista. Você poderia me responder umas perguntas?

Ele vinha acompanhado de um fotógrafo, que lhe desfechou um flash em pleno rosto.

Miriam Wu chegou a pensar num dropkick e um cotovelo no nariz, mas teve presença de espírito para perceber que só dariam fotos ainda mais saborosas.

—Você viajou com a Lisbeth Salander? Sabe onde ela está? Miriam Wu bateu a porta e trancou-a com a fechadura nova. Tony Scala ergueu a portinhola da correspondência e falou pela fresta.

—Miriam, mais cedo ou mais tarde você vai ter que falar com a imprensa. Eu posso te ajudar.

Ela cerrou o punho e bateu com força na portinhola. Tony Scala soltou um grito de dor. Então ela correu para o quarto e se deitou na cama, fechando os olhos. Lisbeth, quando eu puser as mãos em você, eu te estrangulo.

Depois da visita a Smädalarö, Mikael Blomkvist tinha passado a tarde na casa de outro cliente que Dag Svensson pretendia denunciar. Com isso, percorrera seis dos trinta e sete nomes no final da semana. O último citado era um juiz aposentado que morava em Tumba e que, em várias ocasiões, atuara em casos de prostituição. O canalha do juiz, e isso por um lado era reconfortante, não tinha negado os fatos, nem ameaçado, nem pedido compaixão. Pelo contrário, reconhecera sem rodeios que sim, claro, tinha comido as putas do Leste europeu. Não, não se arrependia. A prostituição era uma profissão honrada, e ele achava que tinha prestado um favor às garotas ao ser cliente delas.

Mikael estava passando por Liljeholmen quando Malu Eriksson ligou, por volta das dez da noite.

—Oi - disse Malu. —Você viu a edição on-line daquele tabloide sensacionalista?

—Não, o que foi?

—A amiga da Lisbeth Salander acaba de voltar.

—O quê? Quem?

—Miriam Wu, a lésbica que mora no apartamento da Lundagatan. Wu, pensou Mikael. Salander-Wu afixado na porta.

—Obrigado. Estou indo para lá.

Miriam Wu acabara desligando o telefone fixo e o celular. Às sete e meia, a notícia havia sido publicada nos sites de um dos jornais matutinos. Pouco depois, o Aftonblatet tinha ligado e, três minutos mais tarde, foi a vez do Expressen lhe pedir uma declaração. Na tevê, Aktuellt deu a notícia sem citar o nome de Miriam, mas às nove nada menos que dezesseis repórteres de diferentes mídias já tinham tentado entrevistá-la.

Em duas ocasiões, tinham tocado a campainha. Miriam Wu não abriu a porta e apagou as luzes do apartamento. Estava com ganas de quebrar o nariz do próximo jornalista que viesse perturbá-la. Por fim, ligou o celular e telefonou para uma amiga que morava em Hornstull, um trajeto que ela podia fazer a pé, e pediu para dormir na casa dela.

Transpôs a porta do prédio que dava na Lundagatan menos de cinco minutos antes de Mikael Blomkvist estacionar e tocar, em vão, a campainha de seu apartamento.

Bublanski ligou para Sonja Modig pouco depois das dez horas do sá­bado. Ela dormira até as nove e depois brincara um pouco com as crianças antes que o marido as levasse à loja do bairro para fazer as compras semanais de balas e chocolates.

—Já leu os jornais de hoje?

—Não. Faz só uma hora que acordei e fiquei cuidando das crianças. Aconteceu alguma coisa?

—Alguém da equipe está deixando vazar informações para a imprensa.

—A gente já sabia disso. Há alguns dias alguém entregou o relatório médico-legal de Salander.