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—Foi o procurador Ekström.

—Ah, é?

—Sim. Claro. Mesmo que ele jamais admita. Ele está tentando aumentar o interesse no caso, porque lhe convém. Mas desta vez é diferente. Um jornalista chamado Tony Scala falou com um policial que lhe passou uma série de informações sobre a Miriam Wu. Entre outras coisas, detalhes do que foi dito no interrogatório de ontem. Coisas que a gente tinha decidido não divulgar. Com essa, o Ekström ficou furibundo.

—Que droga.

—O jornalista não cita nomes. A fonte é descrita como alguém que ocupa “uma posição central na investigação”.

—Puta merda - disse Sonja Modig.

—A certa altura da matéria, entende-se que se trata de uma mulher. Sonja Modig ficou em silêncio uns vinte segundos, tempo para assimilar a informação. Ela era a única mulher da equipe.

—Bublanski... eu não disse uma palavra sequer para jornalista nenhum. Não conversei sobre essa investigação com ninguém fora aqui do corredor. Nem com o meu marido.

—Acredito em você. Em nenhum momento achei que você fosse a responsável pelo vazamento. Mas, infelizmente, é o que o procurador Ekström está achando. E o Hans Faste, que é quem ficou de plantão neste fim de semana, está, é claro, aproveitando para aumentar a história com suas insinuações.

Sonja Modig sentiu-se, de repente, completamente arrebentada.

—E agora, o que vai acontecer?

—O Ekström vai exigir que você seja afastada da investigação enquanto analisam a acusação.

—Isso é loucura. Como é que eu vou provar...

—Você não vai ter que provar nada. O investigador é que vai ter que provar.

—Eu sei, mas... que droga. Essa investigação vai levar quanto tempo?

—Ela já aconteceu.

—O quê?

—Eu lhe fiz uma pergunta. Você respondeu que não deixou vazar nenhuma informação. Isso significa que a investigação está concluída e que só preciso escrever meu relatório. Nos vemos segunda, às nove, na sala do Ekström para avaliar isso tudo.

—Obrigada, Bublanski.

—De nada.

—Só tem um problema.

—Eu sei.

—Se não fui eu, outro membro da equipe deixou vazar a informação.

—Quem você sugere?

—Num primeiro impulso, fico tentada a achar que é o Faste... mas sem acreditar de fato.

—Concordo com você. Mas ele também sabe ser um completo idiota, e ontem estava simplesmente irado.

Bublanski gostava de caminhar, dependendo de como estava o tempo e do tempo de que dispunha. Era um dos poucos exercícios físicos que ele se concedia. Morava na Katarina Bangata, em Södermalm, não muito longe da redação da Millennium nem da Milton Security, onde Lisbeth Salander trabalhara, e não muito longe também da Lundagatan, onde ela tinha morado. Além disso, podia ir a pé à sinagoga da Sankt Paulsgatan. Na tarde de sábado, saiu para caminhar e passou por todos esses lugares.

No início do passeio, sua mulher, Agnes, o acompanhou. Estavam casados havia vinte e três anos e ele tinha sido fiel sem o mínimo desvio durante todos aqueles anos.

Fizeram uma parada na sinagoga e conversaram com o rabino. Bublanski era judeu polonês, ao passo que a família de Agnes - amplamente dizimada em Auschwitz - era originária da Hungria.

Depois disso, se separaram - Agnes tinha umas compras para fazer e seu marido preferia continuar o passeio. Precisava ficar sozinho e caminhar para refletir sobre aquela difícil investigação. Reavaliou as medidas que havia tomado desde que ela fora parar na sua mesa na manhã da Quinta-feira Santa, ou seja, fazia nove dias, e não percebeu grandes falhas.

A não ser pelo erro de não ter imediatamente mandado alguém até a redação da Millennium para revistar a sala de Dag Svensson. Quando afinal resolvera fazê-lo - ele próprio efetuara a verificação -, Mikael Blomkvist já tinha feito a faxina e tirado sabe Deus o quê.

Outro erro foi a investigação ter passado ao largo do carro que Lisbeth Salander havia comprado. Jerker Holmberg, no entanto, relatara que o carro não continha nada de interessante. Tirando esse carro esquecido, porém, a investigação estava tão correta como seria de se esperar.

Parou em frente a um quiosque de jornais na Zinkensdamm e contemplou pensativo, uma manchete. A foto de Lisbeth Salander estava reduzida ao tamanho de uma vinheta, pequena mas reconhecível, no canto superior, e a ênfase estava nas notícias mais frescas.

A POLÍCIA INVESTIGA UMA TURMA DE LÉSBICAS SATÂNICAS

Comprou o jornal e o folheou até a página em que se via a foto de cinco garotas no final da adolescência, vestidas de preto, jaquetas de couro com ilhoses, jeans rasgados e camisetas supercolantes. Uma das meninas brandia uma bandeira com um pentagrama e outra fazia um gesto com o indicador e o dedo mínimo. Leu a legenda. Lisbeth Salander frequentava um grupo de death metal que tocava em pequenos clubes. Em 1996, o grupo homenageava a Church of Satan e seu grande sucesso era uma música intitulada “Etiquette of Evil”.

O nome das Evil Fingers não era citado e os rostos estavam desfocados. No entanto, quem conhecesse os membros do grupo de rock não teria dificuldade em reconhecer as meninas.

As duas páginas seguintes se concentravam em Miriam Wu e vinham ilustradas com a fotografia de um show no Berns do qual ela participara. Na foto, Miriam estava com os seios à mostra e usando uma boina de oficial russo. A foto tinha sido tirada de baixo para cima. Como o das meninas do Evil Fingers, seu rosto estava desfocado. Era citada como “a mulher de trinta e um anos”.

A amiga de Salander, autora de textos sobre lésbicas e sadomasoquismo, é conhecida nos bares descolados de Estocolmo. Não procurou esconder que flertava com mulheres e gostava de dominar sua parceira.

O repórter tinha inclusive achado uma tal de Sara, que, segundo ele, tinha sido paquerada pela amiga de Salander. O namorado de Sara tinha ficado “perturbado” pela tentativa. A matéria esclarecia que o grupo era uma variante feminista suspeita e elitista da periferia do movimento gay e que se expressava, entre outras coisas, num “bondage workshop” durante a Gay Pride. De resto, o texto fundamentava-se em citações de um artigo de Miriam Wu de seis anos antes que poderia eventualmente ser qualificado de provocador, publicado num fanzine feminista e desencavado por um repórter. Bublanski percorreu o texto e em seguida jogou o tabloide numa lixeira.

Refletiu algum tempo sobre Hans Faste e Sonja Modig. Dois investigadores competentes. Faste, porém, era um problema. Mexia com os nervos das pessoas. Bublanski percebeu que precisaria ter uma conversa com Faste, mas achava difícil acreditar que o vazamento de informações viera dele.

Ao erguer os olhos, percebeu que estava na Lundagatan, em frente ao prédio de Lisbeth Salander. Um ato irrefletido, porém revelador. Aquela mulher o deixava perplexo.

Subiu os degraus da passarela que conduzia ao alto da Lundagatan e ficou um bom tempo apoiado na balaustrada, pensando na história de Mikael Blomkvist sobre Lisbeth ter sido agredida. Era uma história que também não levava a coisa alguma. Ninguém tinha dado queixa, não havia nenhum nome nem uma descrição consistente. Blomkvist afirmava que não conseguira ver o número da placa do furgão que deixara o local.

Isso se a história tivesse realmente acontecido.

Ou seja, mais um impasse.

Bublanski contemplou o Honda cor de vinho que tinha ficado esse tempo todo estacionado na rua. De repente, viu Mikael Blomkvist caminhando em direção à porta do prédio.

Miriam Wu acordou tarde, toda enrolada nos lençóis, e quase entrou em pânico ao sentar-se na cama e se ver num quarto desconhecido.

Ela aproveitara o assédio da mídia como desculpa para ligar para uma amiga e pedir abrigo. Mas também tinha fugido, ela sentia isso muito bem, porque de repente teve medo que Lisbeth Salander fosse bater à sua porta.