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O interrogatório da polícia e as matérias nos jornais a tinham abalado mais do que ela teria imaginado. É claro que ela tomara a decisão de não julgar Lisbeth antes que esta pudesse explicar o que tinha acontecido, mas ainda assim começava a acreditar que ela era culpada.

Deu uma olhada em Viktoria Viktorsson, trinta e sete anos, apelido Dobrevê, que era cem por cento lésbica. Estava deitada de bruços e resmungava dormindo. Miriam Wu se esgueirou até o banheiro e tomou um banho. Em seguida foi comprar pão. Só que no caixa da loja próxima ao café Cinnamon, na Verkstadsgatan, seu olhar bateu nas manchetes dos jornais. Voltou correndo para se refugiar no apartamento de Dobrevê.

Mikael Blomkvist passou pelo Honda cor de vinho e parou diante do prédio de Lisbeth Salander, digitou o código e entrou. Ficou dois minutos lá dentro e depois saiu. Ninguém em casa? Blomkvist olhou para os dois lados da rua, aparentemente indeciso. Bublanski o observava, pensativo.

O que o preocupava era que, caso Blomkvist tivesse mentido sobre a agressão na Lundagatan, era de se pensar que estava fazendo um jogo que, na pior das hipóteses, poderia significar que ele, de algum modo, era cúmplice dos assassinatos. Mas caso tivesse falado a verdade - e não havia nenhum motivo para duvidar de sua palavra - significava que havia uma equação oculta naquela tragédia. O que significava que havia outros protagonistas além dos que estavam visíveis, e que o assassinato poderia se revelar algo muito mais complicado do que o simples gesto de uma garota mentalmente desequilibrada em surto de loucura.

Quando Blomkvist começou a andar em direção a Zinkensdamm, Bublanski o chamou. Ele parou, avistou o policial e foi ao seu encontro. Apertaram-se as mãos embaixo da escada.

—Olá, Blomkvist. Procurando a Lisbeth Salander?

—Não. Estou procurando a Miriam Wu.

—Ela não está. A imprensa foi informada, não sei por quem, que ela reapareceu.

—O que ela tinha para contar?

Bublanski fitou atentamente Mikael Blomkvist. O Super-Blomkvist.

—Vamos caminhar um pouco? - propôs Bublanski. —Preciso de um café.

Passaram em frente à igreja de Högalid em silêncio. Bublanski o levou ao café Lillasyster, na ponte de Liljeholmen, e pediu um espresso duplo com uma colher de leite frio, ao passo que Mikael pediu um caffè latte. Sentaram-se na área de fumantes.

-—Fazia tempo que eu não pegava um caso tão frustrante - disse Bublanski. —Posso conversar com você sem acabar lendo metade do que vou dizer no Expressen de amanhã de manhã?

—Eu não trabalho para o Expressen.

—Você sabe o que eu quero dizer.

—Bublanski, não acredito que a Lisbeth seja culpada.

—E está investigando por conta própria? É por isso que chamam você de Super-Blomkvist?

Mikael sorriu.

—E me parece que chamam você de inspetor Bubolha. Bublanski deu um sorriso amarelo.

—Por que não acredita que a Salander seja culpada?

—Não sei nada sobre esse tutor, mas ela simplesmente não tinha motivo para matar o Dag e a Mia. Principalmente a Mia. A Lisbeth detesta homens que odeiam mulheres, e a Mia estava justamente acuando uma grande quantidade de clientes sexuais. O que a Mia estava fazendo tinha tudo a ver com os interesses da Lisbeth. A Lisbeth tem ética.

—Eu não consegui formar uma opinião sobre ela. Um caso psiquiátrico pesado ou uma investigadora competente?

—A Lisbeth é diferente. É tremendamente antissocial, mas não há nada de errado com a cabeça dela. Pelo contrário. Eu diria que ela é muito mais inteligente que nós dois juntos.

Bublanski suspirou. Mikael Blomkvist estava falando igual à Miriam Wu.

—Seja como for, ela tem que ser detida. Não posso entrar em detalhes, mas temos provas técnicas de que ela estava no local do crime, e ela está diretamente ligada à arma do crime.

Mikael assentiu com a cabeça.

—Imagino que isso signifique que vocês encontraram as digitais dela. Mas não significa que ela atirou.

Bublanski balançou a cabeça.

—O Dragan Armanskij também tem suas dúvidas. É cauteloso demais para dizer isso claramente, mas ele também está tentando provar a inocência dela.

—E você? O que acha?

—Eu sou tira. Prendo as pessoas e as interrogo. No momento, a situação da Lisbeth Salander me parece bastante complicada. Assassinos já foram condenados com provas muito mais frágeis.

—Você não respondeu à minha pergunta.

—Não sei. Se ela for inocente... quem, na sua opinião, teria interesse em matar tanto o tutor como os seus amigos?

Mikael pegou um maço de cigarros e o estendeu a Bublanski, que balançou a cabeça. Não queria mentir para a polícia e supunha que deveria mencionar suas reflexões sobre o homem chamado Zala. Também deveria falar sobre o delegado Gunnar Björck, da Säpo.

Mas Bublanski e seus colegas também tinham acesso ao material de Dag Svensson contendo o arquivo [ZALA]. Só precisavam lê-lo. Em vez disso, avançavam feito um tanque de guerra, revelando toda a intimidade de Lisbeth Salander para a mídia.

Ele tinha uma idéia, mas não sabia no que ia dar. Não queria mencionar Björck antes de ter certeza. Zalachenko. Era esse o elo, tanto com Bjurman como com Dag e Mia. O único problema era que Björck não tinha falado nada.

—Deixe eu fuçar mais um pouco, e aí te apresento uma teoria alternativa.

—Que não seja uma pista que aponte para a polícia. Mikael sorriu.

—Não. Ainda não. O que a Miriam Wu disse?

—Mais ou menos o mesmo que você. Elas tinham um caso. Ele espreitou a reação de Mikael.

—Isso não me diz respeito - disse Mikael.

—A Miriam Wu e a Salander se frequentaram durante três anos. A Miriam não sabe nada do passado de Salander nem sabe onde ela trabalha. Difícil de engolir. Mas acho que ela falou a verdade.

—A Lisbeth é extremamente fechada - disse Mikael. Ficaram um instante em silêncio.

—Você tem o telefone da Miriam Wu?

—Tenho.

—Pode me passar?

—Não.

—Por quê?

—Mikael, trata-se de uma investigação policial. Não precisamos de investigadores particulares com teorias bizarras.

—Ainda não tenho nenhuma teoria. Mas acredito que a solução do enigma está no material do Dag Svensson.

—Você provavelmente não vai ter dificuldade em obter o telefone da Miriam Wu se se esforçar um pouco.

—Provavelmente. Mas é mais simples perguntar a quem já sabe. Bublanski suspirou. Mikael sentiu-se, de súbito, profundamente irritado com ele.

—Será que os policiais são mais inteligentes que as pessoas comuns que você chama de investigadores particulares? - perguntou.

—Não, acho que não. Mas a polícia tem uma formação, e sua missão é investigar os crimes.

—As pessoas comuns também têm uma formação - disse Mikael, devagar. —E pode acontecer de um investigador particular ser muito mais competente que um policial para investigar um crime.

—Isso é você quem diz.

—Estou convencido disso. Veja o caso de Joy Rahman. Os policiais ficaram cinco anos sentados de olhos fechados, enquanto Rahman, que era inocente, estava preso pelo assassinato de uma idosa. Ainda estaria preso se uma professora não tivesse passado anos fazendo uma investigação séria. E ela fez isso sem todos os recursos de que você dispõe. Não só provou que ele era inocente como também apontou um indivíduo que, ao que tudo levava a crer, era o verdadeiro assassino.

—O caso Rahman acabou virando uma questão de prestígio. O procurador se negava a escutar os fatos.

Mikael Blomkvist contemplou demoradamente Bublanski.

—Bublanski... Vou te dizer uma coisa. Neste exato momento, o caso Salander também já virou uma questão de prestígio. Eu afirmo que ela não matou o Dag e a Mia. E vou provar. Vou descobrir um assassino alternativo e quando isso acontecer, vou escrever uma matéria que você e seus colegas vão achar superdoída de ler.