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A caminho de casa, Bublanski sentiu necessidade de debater o assunto com Deus, mas, em vez de ir à sinagoga, foi à igreja católica da Folkungagatan. Escolheu um banco lá no fundo e ficou ali sentado tranqüilo por mais de uma hora. Como judeu, teoricamente não tinha nada a fazer numa igreja, mas era um lugar sereno onde ele volta e meia aparecia quando precisava organizar os pensamentos. Achava que a igreja era um lugar como outro qualquer para refletir, e tinha certeza que Deus não se incomodava. Além disso, nesse aspecto havia uma grande diferença entre o catolicismo e o judaísmo. Ele ia à sinagoga para buscar a companhia de outras pessoas. Os católicos iam à igreja porque queriam ficar em paz com Deus. A igreja convidava ao silêncio e exigia que os visitantes fossem deixados em paz.

Ele pensou sobre Lisbeth Salander e Miriam Wu. E pensou sobre o que Erika Berger e Mikael Blomkvist estariam ocultando. Estava convencido de que eles sabiam alguma coisa sobre Salander que não tinham contado. Perguntou-se que tipo de “pesquisa” Lisbeth Salander fizera para Mikael Blomkvist. Em dado momento, ponderou que Salander havia trabalhado com Blomkvist pouco antes de ele trazer o caso Wennerström à luz, mas acabou eliminando essa possibilidade. Lisbeth Salander não tinha simplesmente nenhuma ligação com aquele tipo de drama e parecia fora de cogitação que tivesse contribuído de algum modo. Por maior que sua competência fosse investigar pessoas.

Bublanski estava preocupado.

Não gostava daquela certeza absoluta que Mikael Blomkvist tinha da inocência de Salander. Que ele próprio, como policial, tivesse alguma dúvida, era uma coisa - duvidar era a sua função. Coisa bem diferente era Mikael Blomkvist lançar um desafio como investigador particular.

Não gostava de investigadores particulares. Em geral eles vinham com teorias conspiratórias, excelentes para alimentar manchetes de jornais, mas que, no mais das vezes, acabavam redundando num trabalho extra e totalmente inútil para os policiais.

Esta investigação por assassinato já se tornara a mais maluca que ele já tinha realizado. Sentia que, de algum modo, estava perdendo as estribeiras. Uma investigação de assassinato deve seguir uma linha de conclusões lógicas.

Quando um jovem de dezessete anos é encontrado apunhalado na Mariatorget, há que identificar as turmas de skinheads ou as gangues de adolescentes que estavam nos arredores da praça e da Sõdra Station uma hora antes. Existem amigos, conhecidos, testemunhas e, rapidamente, suspeitos.

Quando um homem de quarenta e dois anos é apagado com três tiros de pistola num bar de Skàrholmen e descobre-se que ele era um faz-tudo da máfia iugoslava, há que tentar descobrir qual dos jovens novatos está tentando assumir o controle do contrabando de cigarros.

Quando uma mulher de vinte e seis anos, de um ambiente respeitável e de vida pacata, é encontrada estrangulada em seu apartamento, há que tentar descobrir quem era o seu namorado ou a última pessoa com quem ela conversou no café na noite da véspera.

Bublanski chefiara tantas investigações desse tipo que poderia realizá-las até dormindo.

A investigação atual até havia começado muito bem. Tinham achado um principal suspeito já nas primeiras horas. Lisbeth Salander era perfeita para o papel - um caso psiquiátrico comprovado com incontroláveis surtos de violência a vida inteira. Concretamente, só faltava pegá-la, obter uma confissão ou, dependendo das circunstâncias, mandá-la para uma sala acolchoada. Mas então tudo desandara.

Salander não morava em seu endereço. Tinha amigos como Dragan Armanskij e Mikael Blomkvist. Mantinha uma relação com uma lésbica declarada adepta do sexo com algemas e que desencadeava o entusiasmo da mídia numa situação já suficientemente inflamada. Tinha dois milhões e meio de coroas na sua conta bancária e nenhum emprego conhecido. E agora Blomkvist ainda vinha com teorias sobre tráfico de mulheres e outras conspirações - e ele, na condição de jornalista famoso, tinha realmente condições de criar um caos completo na investigação por meio de um único artigo bem colocado.

E, sobretudo, a principal suspeita revelava-se impossível de achar, embora fosse uma tampinha, com um aspecto físico peculiar e tatuagens no corpo inteiro. Os assassinatos já completavam duas semanas e eles ainda não tinham a menor sombra de uma pista de onde ela poderia estar.

* * *

Gunnar Björck, em licença médica por causa de uma hérnia de disco, chefe-adjunto da Säpo, passara vinte e quatro miseráveis horas depois que Mikael Blomkvist atravessara sua porta. Uma dor surda e permanente instalara-se em suas costas. Ficara andando pela casa que tinham lhe emprestado, incapaz de relaxar ou de tomar qualquer iniciativa. Tentava raciocinar, mas as peças do quebra-cabeça teimavam em não se encaixar.

Ele não conseguia entender os meandros daquela história.

Quando tivera notícia do assassinato de Nils Bjurman, no dia seguinte à descoberta do corpo do advogado, tinha ficado atônito. Mas não ficara surpreso quando Lisbeth Salander fora apontada, quase de imediato, como a principal suspeita e começaram a caçá-la. Escutou com atenção cada palavra do que foi dito na tevê e saiu para comprar todos os jornais que conseguisse encontrar, lendo conscienciosamente cada palavra das diversas reportagens.

Não duvidava nem por um instante que Lisbeth Salander fosse uma desequilibrada mental capaz de matar. Não tinha nenhum motivo para questionar sua culpabilidade ou as conclusões do inquérito policial; pelo contrário, tudo o que sabia sobre Lisbeth Salander sugeria que ela era uma psicopata. Ele quase tinha dado um telefonema a fim de colaborar na investigação com conselhos apropriados, ou pelo menos para verificar se estava sendo conduzida de forma correta, mas depois concluíra que o caso não lhe dizia mais respeito. Já não era da sua alçada, e havia gente competente para administrá-lo. Sem falar que um telefonema seu poderia despertar a indesejável atenção que ele justamente queria evitar. Resolvera relaxar e seguir acompanhando as notícias de modo mais distante.

A visita de Mikael Blomkvist viera transtornar por completo a sua tranqüilidade. Jamais lhe passara pela cabeça que a orgia assassina de Salander pudesse envolvê-lo pessoalmente - que uma das vítimas fosse um cretino de um jornalista prestes a denunciar a Suécia inteira.

E muito menos imaginara que o nome de Zala poderia ressurgir como uma granada sem pino no meio da história, e menos ainda que Mikael Blomkvist conhecia esse nome. Era tão incrível que ultrapassava qualquer tentativa de entendimento.

No dia seguinte à visita de Mikael, pegara o telefone e ligara para o seu ex-chefe, setenta e oito anos e residente em Laholm. Precisava dar um jeito de tentar entender a história sem dar a perceber que estava ligando por motivos outros que não mera curiosidade e preocupação profissional. A conversa foi relativamente breve.

—É o Björck. Imagino que você tenha lido os jornais.

—De fato. Ela voltou.

—E não mudou muito.

—Isso já não nos diz respeito.

—Então você não acha que...

—Não, não acho. Isso tudo está morto e enterrado. Ninguém vai fazer a relação.

—Mas é que se trata de Bjurman, e não de um qualquer. Imagino que ele não se tornou tutor dela por acaso.

Houve um silêncio do outro lado da linha.

—Não, não foi por acaso. Há três anos, parecia uma boa idéia. Quem poderia prever o que está acontecendo?

—O que o Bjurman sabia?

O chefe, de repente, deu uma risadinha.

—Você sabe como ele era. Não era exatamente um ator nato.

—Quero dizer... ele sabia da ligação? Existe alguma coisa nos documentos dele que poderia levar a...

—Não, claro que não. Entendo o que você quer saber, mas não precisa se preocupar. Salander sempre foi um fator incontrolável nessa história. Demos um jeito de o Bjurman conseguir esse cargo, mas foi só porque nos convinha ter um tutor no qual a gente pudesse ficar de olho. Era melhor que um sujeito desconhecido. Se ela tivesse começado a falar, ele teria procurado a gente. Agora está tudo acabando da melhor maneira possível.