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Nos últimos quinze anos, Lisbeth nunca mais pensara em Miââs ou em Gustavsson. Anotou mentalmente que assim que tivesse um tempinho precisava verificar qual era a ocupação atual dos dois.

* * *

Tudo o que se escrevia sobre Lisbeth Salander a transformava numa celebridade nacional. Seu passado era examinado e esquadrinhado, publicado nos mínimos detalhes, desde as crises da escola primária até a internação na clínica de psiquiatria infantil de Sankt Stefan, perto de Uppsala, onde ficara por mais de dois anos.

Atentou o ouvido quando o médico-chefe Peter Teleborian foi entrevistado na tevê. Estava oito anos mais velho desde a última vez em que Lisbeth o vira, na época das deliberações no tribunal de instâncias que a declarara incapaz. Tinha vincos acentuados na testa e coçou o cavanhaquezinho ao virar-se para o repórter e explicar, muito preocupado, que estava preso ao sigilo profissional e não podia, portanto, falar especificamente sobre uma paciente. Só o que ele podia dizer é que Lisbeth Salander era um caso bastante complexo que exigia tratamento especializado e que o tribunal decidira, contra a sua recomendação, colocá-la sob tutela e inseri-la na sociedade em vez de oferecer-lhe o tratamento de que ela precisava numa instituição. Foi escandaloso, afirmou Teleborian. Lamentou que três pessoas tivessem morrido em virtude daquele erro de avaliação e aproveitou para denunciar de passagem os cortes no orçamento da psiquiatria que o governo aprovara à força nas últimas décadas.

Lisbeth observou que nenhum jornal revelava que a forma de tratamento mais comum, no serviço fechado de psiquiatria infantil coordenado pelo Dr. Teleborian, era colocar “os pacientes agitados e difíceis” numa sala qualificada como “destituída de estímulos”. A mobília da sala era constituída apenas de uma cama com correias. A justificativa científica era que crianças agitadas não deviam receber “estímulos” passíveis de desencadear alguma crise.

Mais velha, descobrira que existia outro termo para isso. Privação sensorial. Expor prisioneiros a uma privação sensorial era considerado desumano pela convenção de Genebra. Era um elemento recorrente das experiências de lavagem cerebral realizadas periodicamente por diferentes ditaduras. Existiam documentos demonstrando que os prisioneiros políticos que confessaram toda sorte de crimes fantasiosos nos processos de Moscou dos anos 1930 haviam recebido esse tipo de tratamento.

Quando viu o rosto de Peter Teleborian na tevê, o coração de Lisbeth virou um cubo de gelo. Perguntou-se se ele ainda usava a mesma loção pós-barba nojenta. Ele fora o responsável pelo que se definira como terapia. Ela nunca entendera o que esperavam dela, a não ser que de algum modo ela estava recebendo um tratamento e que se tornaria consciente de seus atos. Lisbeth compreendera rapidamente que uma “paciente agitada e difícil” eqüivalia a uma paciente que questionava o raciocínio e o saber de Teleborian.

Na mesma época, Lisbeth Salander descobriu que o método terapêutico mais difundido para o combate da doença mental no século XVI ainda era aplicado no Sankt Stefan no limiar do século XXI.

Passara mais ou menos metade do seu período no Sankt Stefan deitada na cama da sala “destituída de estímulos”. Ao que parecia, tinha sido uma espécie de recorde.

Teleborian nunca a tocara sexualmente. Nunca a tocara senão em contextos absolutamente inocentes. Só uma vez pusera a mão em seu ombro para repreendê-la quando ela se encontrava amarrada no isolamento.

Ela se perguntou se as marcas de seus dentes ainda estariam visíveis na falange do dedo mínimo de Teleborian.

A situação assumira ares de um duelo no qual Teleborian detinha todas as cartas. A estratégia de Lisbeth fora entrincheirar-se e desconhecer totalmente sua presença na sala.

Tinha doze anos quando duas policiais femininas a levaram para Sankt Stefan. Fora poucas semanas depois que Todo o Mal acontecera. Lembrava-se de tudo nos mínimos detalhes. Primeiro, pensara que as coisas iam se acertar de um jeito ou de outro. Tentara explicar sua versão aos policiais, aos assistentes sociais, aos funcionários do hospital, enfermeiras, médicos, psicólogos, e até a um pastor que queria que ela rezasse com ele. Quando ia sentada na traseira da viatura policial e passaram pelo Wenner-Gren Center a caminho de Uppsala, ainda não sabia para onde a levavam. Ninguém tinha lhe informado. Foi então que começou a desconfiar que nada ia se ajeitar.

Tinha tentado explicar a Peter Teleborian.

O resultado de tanto esforço foi que na noite de seus treze anos ela se achava amarrada em cima de uma cama.

Peter Teleborian era sem dúvida o sádico mais nojento e mais abjeto que Lisbeth Salander tinha conhecido na vida. A seu ver, ele superava Bjurman em vários aspectos. Bjurman era um perverso brutal que ela conseguira controlar. Já Peter Teleborian se protegia atrás de uma cortina de documentos, avaliações, méritos universitários e jargões psiquiátricos. Absolutamente nenhum de seus atos jamais podia ser denunciado e contestado.

O Estado o incumbira da missão de amarrar menininhas desobedientes com correias.

E toda vez que Lisbeth Salander era amarrada de costas e ele apertava o arreio e cruzava o olhar com o seu, ela podia ver sua excitação. Ela sabia. Ele sabia que ela sabia. A mensagem tinha sido dada.

Na noite de seus treze anos, ela resolveu nunca mais trocar uma palavra sequer com Peter Teleborian nem com nenhum outro psiquiatra ou médico da cabeça. Era o presente que ela se dava de aniversário. E mantivera a promessa. Sabia que isso frustrara Peter Teleborian, e decerto contribuíra mais que qualquer outra coisa para que noite após noite ela fosse amarrada com o arreio. Ela estava disposta a pagar o preço.

Aprendeu tudo sobre autocontrole. Não tinha mais crises e não jogava mais objetos à sua volta nos dias em que a tiravam do isolamento.

Mas não falava com os médicos.

Em compensação, falava educadamente e sem restrições com as enfermeiras, funcionários da cantina e faxineiras. Isso não passou despercebido. Uma enfermeira simpática chamada Carolina, a quem Lisbeth se afeiçoara até certo ponto, perguntou-lhe um dia por que ela agia daquele modo.

Por que você não fala com os médicos?

Porque eles não escutam o que eu digo.

Essa resposta não era nada impulsiva. Era sua maneira de se comunicar com os médicos apesar dos pesares. Sabia perfeitamente que todo comentário seu era registrado em seu dossiê, e assim ela atestava que seu silêncio era fruto de uma decisão racional.

No último ano em Sankt Stefan, Lisbeth fora deixada com cada vez menos freqüência na cela de isolamento. E quando isso acontecia era sempre porque de algum modo ela havia irritado Peter Teleborian, o que ela sempre conseguia fazer assim que ele punha os olhos nela. Ele tentava constantemente romper o silêncio obstinado de Lisbeth e forçada a reconhecer a existência dele.

Um dia, Teleborin resolveu lhe administrar um tipo de tranqüilizante que a deixava com dificuldade para respirar e para pensar, o que, por sua vez, lhe causava angústia. Ela então se negara a tomar o remédio, donde a decisão de obrigá-la a engolir os comprimidos à força três vezes ao dia.

Sua resistência fora tão violenta que os funcionários tiveram de segurada, abrir sua boca e forçá-la a engolir. Na primeira vez, Lisbeth enfiou imediatamente os dedos na garganta e vomitou o almoço na enfermeira mais próxima. 0 resultado foi que passaram a amarrá-la para que tomasse os comprimidos. A resposta de Lisbeth foi aprender a vomitar sem precisar enfiar os dedos na garganta. A violência de sua recusa e o trabalho extra que isso implicava para os funcionários resultaram na interrupção do experimento.