Выбрать главу

Ela acabava de completar quinze anos quando a trouxeram de volta a Estocolmo, para uma família adotiva. A mudança a pegou de surpresa. Nessa época, Peter Teleborian ainda não era o médico-chefe de Sankt Stefan e Lisbeth Salander estava convencida de que esse era o único motivo de sua súbita libertação. Se Teleborian pudesse decidir sozinho, ela ainda estaria amarrada na cama do isolamento.

E eis que agora ela tornava a vê-lo na tevê. Perguntou-se se ele ainda esperava tê-la de novo como paciente, ou se ela agora já estava muito velha para satisfazer os seus fantasmas. Sua contestação à decisão do tribunal de não interná-la mostrou-se eficaz e despertou a indignação também da repórter que o entrevistava, que aparentemente não tinha a menor idéia do que deveria estar lhe perguntando. Ninguém podia se permitir contradizer Peter Teleborian. O médico-chefe anterior de Sankt Stefan já havia morrido. O juiz do tribunal de instâncias que presidira o caso Salander, e que agora deveria, em parte, assumir o papel do malvado da tragédia, estava aposentado. Negava-se a prestar declarações à imprensa.

Lisbeth descobriu um dos textos mais desnorteantes no site de um jornal local do centro da Suécia. Leu-o três vezes antes de desligar o computador e acender um cigarro. Sentou-se na almofada do vão da janela e contemplou a iluminação pública noturna com um sentimento de resignação.

ELA É BISSEXUAL”, DIZ UMA AMIGA DE INFÂNCIA

A mulher de vinte e seis anos que está sendo procurada por três assassinatos é descrita como uma pessoa solitária e fechada, com grandes dificuldades de adaptação escolar. Apesar das várias tentativas no sentido de socializá-la, sempre se manteve à margem.

“Ela manifestamente tinha algum problema grande de identidade sexual, recorda Johanna, uma de suas raras amigas na escola. Desde cedo ficou muito claro que ela era diferente e bissexual. Estamos preocupados com ela.”

O texto continuava descrevendo alguns episódios de que Johanna se recordava. Lisbeth franziu o cenho. Não se lembrava daqueles episódios nem de que tinha tido uma amiga próxima chamada Johanna. Aliás, não conseguia se lembrar de ter tido alguma vez alguém que se pudesse qualificar de amigo próximo e tivesse tentado integrá-la à sociedade nos tempos de escola.

O texto era vago em relação à época em que os episódios teriam ocorrido, mas, concretamente, ela saíra da escola aos doze anos. Isso significava que sua preocupada colega de infância teria descoberto a bissexualidade de Lisbeth no primeiro ano do ginásio!

Em meio ao tsunami enlouquecido de textos delirantes durante a semana, a entrevista de Johanna foi a que mais a atingiu. Tinha obviamente sido forjada. Ou o repórter topara com uma completa mitômana, ou ele próprio inventara tudo aquilo. Memorizou o nome dele e o acrescentou à lista de objetos futuros de pesquisa.

Nem mesmo as reportagens mais compassivas, temperadas com uma pontinha de crítica ao sistema, que exibiam manchetes como “Uma falha da sociedade” ou “Ela nunca recebeu a ajuda de que precisava”, conseguiam minorar seu papel de inimigo público número um - uma assassina que, num acesso de loucura, executara três respeitáveis cidadãos.

Lisbeth leu as interpretações de sua vida com certo fascínio e observou uma evidente lacuna naquilo que o público estava conhecendo. Apesar do acesso aparentemente ilimitado aos detalhes mais íntimos de sua vida lacrados com o selo confidencial, a mídia passara totalmente ao largo de Todo o Mal, que ocorrera pouco antes de seus treze anos. O que sabiam de sua vida ia da pré-escola até por volta dos onze anos e, depois, a partir dos quinze anos, quando tivera alta da clínica de psiquiatria infantil e fora encaminhada para uma família adotiva.

Aparentemente, alguém da investigação policial estava fornecendo informações à mídia mas, por razões que Lisbeth Salander ignorava, resolvera omitir Todo o Mal. Isso a intrigava. Se a polícia fazia tanta questão de enfatizar sua tendência à violência extrema, essa investigação constituiria a acusação mais pesada de seu dossiê, sendo muito mais séria que todas as bobagens do recreio da escola. Estava na origem de sua transferência para Uppsala e da internação no Sankt Stefan.

No domingo de Páscoa, Lisbeth começou a ter um panorama razoável da investigação policial. As informações da imprensa lhe proporcionaram uma boa visão dos participantes. Notou que o procurador Ekström coordenava o inquérito preliminar e era, em geral, quem se pronunciava nas coletivas de imprensa. A investigação de campo estava sendo chefiada pelo inspetor criminal Jan Bublanski, homem dotado de ligeiro excesso de peso, que usava um paletó mal cortado e assistia Ekström em algumas coletivas.

Dias depois, identificou Sonja Modig, a única mulher da equipe, que descobrira o corpo de Bjurman. Anotou o nome de Hans Faste e de Curt Bolinder, mas deixou passar o de Jerker Holmberg, que não aparecia em nenhuma reportagem. Criou uma pasta no computador para cada um deles e começou a alimentá-las com dados.

As informações sobre o andamento da investigação policial encontravam-se, evidentemente, nos computadores dos investigadores, cuja base de dados achava-se armazenada no servidor da delegacia. Lisbeth Salander sabia que era extremamente difícil piratear a rede interna da polícia, mas não impossível. Já fizera isso uma vez.

Por ocasião de um trabalho para Dragan Armanskij, quatro anos antes, ela mapeara a estrutura da rede da polícia e avaliara as possibilidades de entrar no registro das fichas criminais para efetuar suas próprias pesquisas. Lamentavelmente, fracassara em suas tentativas de invasão ilegal - os firewall da polícia eram demasiado sofisticados, e minados por todo tipo de armadilhas capazes de dar o alerta.

A rede interna da polícia era estruturada conforme as regras da arte, com cabos próprios, separados de qualquer cabeamento externo e de internet. Ou seja, para fazer uma pesquisa através dela, Lisbeth precisaria de um tira autorizado a usar a rede ou, segunda possibilidade, que a rede interna da polícia pensasse que ela era uma pessoa autorizada. Nesse aspecto, os especialistas em segurança da polícia felizmente haviam deixado aberta uma imensa porta dos fundos. Inúmeras delegacias do país estavam conectadas à rede central, sendo que muitas não passavam de pequenas unidades locais que fechavam à noite e não contavam com alarme ou vigilância. A delegacia próxima a Lângvik, nos arredores de Vàsterâs, era uma delas. Ocupava cento e trinta metros quadrados no mesmo prédio da biblioteca municipal e da Previdência Social e, durante o dia, o plantão era feito por três policiais.

Na época, Lisbeth Salander não conseguira entrar na rede para a investigação que estava realizando, mas pensou que valia a pena dedicar algum tempo e energia procurando um acesso, visando investigações futuras. Examinara as possibilidades que se ofereciam e então entrara com um pedido de emprego temporário de verão como faxineira na biblioteca de Lángvik. Paralelamente ao manejo de baldes e esfregões, gastou cerca de dez minutos nas dependências do Urbanismo Municipal para obter as plantas detalhadas do local. Pegara as chaves do prédio, mas não das dependências da polícia. Em compensação, descobrira que podia, sem muita dificuldade, penetrar no local por uma janela de banheiro do primeiro andar, que ficava entreaberta à noite no verão, por causa do calor. A delegacia era vigiada apenas por um guarda da Securitas que passava por ali duas ou três vezes por noite. Ridículo.

Demorou uns cinco minutos para descobrir o login e a senha, escondidos no risque-rabisque do oficial de polícia local, e levou cerca de uma noite fazendo experimentos a fim de entender a estrutura da rede e identificar que tipo de acesso essa pessoa dispunha e que tipo de acesso era proibido àquela equipe. De quebra, obteve também os login e as senhas de mais dois policiais. Um deles era Maria Ottosson, de trinta e dois anos. Em seu computador. Lisbeth descobriu que ela solicitara, e obtivera um cargo de investigadora na brigada de fraudes da polícia de Estocolmo. Lisbeth tirou a sorte grande com Ottosson: a inocente Maria deixara seu computador portátil, um Dell, numa gaveta destrancada! Maria Ottosson era, portanto, uma policial que usava seu computador pessoal no trabalho. Sublime! Lisbeth iniciou o computador e inseriu seu CD com o programa Asphyxia 1.0, a primeiríssima versão do seu programa de espionagem. Instalou-o em dois lugares: como parte ativa e integrada do Microsoft Explorer e como backup do caderno de endereços de Maria Ottosson. Lisbeth imaginou que se Ottosson comprasse um computador novo, iria transferir seu caderno de endereços, e também era grande a possibilidade de transferi-lo para seu computador de trabalho na brigada de fraudes de Estocolmo, quando assumisse seu cargo dali a algumas semanas.