Ele era bom em adivinhações e dono de uma teimosia incomparável. Ela descobrira isso em Hedestad. Quando encasquetava com alguma coisa, aguentava firme, mesmo levando um tombo. Quanta ingenuidade! Só que ele tinha liberdade de movimentos, enquanto ela era obrigada a permanecer invisível. Poderia usá-lo até que pudesse deixar o país tranqüilamente. E imaginava que muito em breve seria obrigada a fazê-lo.
Infelizmente, Mikael Blomkvist era ingovernável. Ele próprio tinha de querer. E precisava de um pretexto moral para agir.
Em outras palavras, era bastante previsível. Refletiu alguns instantes e então criou um novo arquivo, que chamou [Para MikBlom], e escreveu uma única palavra.
[Zala.]
Já lhe daria no que pensar.
Ela ainda estava matutando quando percebeu que Mikael Blomkvist acabava de ligar o computador. A resposta veio pouco depois de ele ler a resposta dela.
[Lisbeth,
Que diacho de menina complicada você está me saindo... Quem é esse Zala? Ele é que é o elo? Você sabe quem matou Dag & Mia? Se sabe, me diga, para a gente conseguir desfazer este nó e ir para casa dormir. Mikael]
O.k. Hora de fisgá-lo.
Criou mais um documento e o intitulou [Super-Blomkvist]. Sabia que isso iria irritá-lo. E escreveu uma mensagem breve.
[O jornalista é você. Trate de descobrir.]
Como previsto, ele respondeu no ato pedindo-lhe para ser mais conciliadora, e mais explícita. Ela sorriu e fechou o disco rígido de Mikael.
* * *
Já que havia chegado a esse ponto em suas invasões, resolveu continuar e abriu o disco rígido de Dragan Armanskij. Leu pensativa o relatório que ele fizera sobre ela na segunda-feira após a Páscoa. O destinatário do relatório - pra mencionado, mas ela refletiu que a única possibilidade era Armanskij estar colaborando com os tiras para prendê-la.
Passou algum tempo percorrendo a correspondência eletrônica de Armanskij, sem encontrar, porém, nada de interessante. Estava prestes a sair do disco rígido quando deparou com o e-mail endereçado ao responsável técnico da Milton Security. Armanskij solicitava a instalação de uma câmera de vigilância oculta em sua sala.
Epa! Epa!
Conferiu a data e percebeu que o e-mail tinha sido enviado apenas uma hora depois de sua visita de cortesia no final de janeiro.
Isso significava que ela precisaria reajustar certos processos do sistema automático de vigilância antes de empreender novas visitas à sala de Armanskij.
22 - TERÇA-FEIRA 29 DE MARÇO – DOMINGO 3 DE ABRIL
Na manhã de terça-feira, Lisbeth Salander entrou nos arquivos da Cri minai Nacional e efetuou uma busca sobre Alexander Zalachenko. Ele não constava na lista, o que não era grande surpresa, já que, até onde ela sabia, nunca fora condenado na Suécia e sequer constava nos registros civis.
Para entrar nos arquivos, assumira a identidade do delegado Douglas Skiõld, de cinquenta e cinco anos, do distrito policial de Malmõ. Sobressaltou-se quando seu computador emitiu um barulhinho e um ícone do menu começou a piscar, alertando que alguém procurava por ela no chat do ICQ-
Teve um momento de hesitação. Seu primeiro impulso foi desconectar-se. Então raciocinou. Skiõld não tinha ICQ no seu computador. Poucas pessoas de mais idade tinham esse programa, que antes de mais nada era um software usado por jovens e usuários experientes afeitos aos chat.
Isso queria dizer que alguém estava tentando entrar em contato com ela. E nesse caso as possibilidades não eram muitas. Abriu o ICQ e escreveu:
[O que foi, Praga?]
[Olá, Wasp. Difícil te achar. Você nunca lê seus e-mails?] [Como você conseguiu?]
[Skiõld. Também tenho essa lista. Imaginei que você fosse usar uma das identidades com direito a acesso máximo.] [O que você quer?]
[Quem é esse Zalachenko que você está procurando?] [NTI.]
[?]
[Não Te Interessa.]
[O que está acontecendo?]
[Praga, vá se...]
[Eu achava que eu tinha uma deficiência de socialização, como você sempre diz. Mas, se eu for acreditar na imprensa, perto de você eu sou absolutamente normal.]
[??]
[Uma banana para você também. Está precisando de ajuda?]
Lisbeth hesitou um segundo. Primeiro Blomkvist, agora Praga. Aquilo não tinha fim, era uma multidão acorrendo em seu auxílio! O problema, com Praga, é que ele era um solitário de cento e sessenta quilos que só se comunicava com o mundo pela internet, fazendo Lisbeth Salander parecer um milagre de competência social. Como ela não respondia, Praga teclou mais uma linha.
[Você ainda está aí? Precisa de ajuda para sair do país?] [Não.]
[Por que você apagou os caras?] [Vá se...]
[Você pretende apagar mais gente? E nesse caso tenho que me preocupar? Acho que sou o único capaz de te rastrear.]
[Vá cuidar da sua vida, assim não vai precisar se preocupar.]
[Não estou preocupado. Me contate pelo hotmail se precisar de alguma coisa. Arma? PasSäporte novo?]
[Você é um sociopata.]
[Comparado com você?]
Lisbeth saiu do ICQ e se sentou no sofá para pensar. Passados dez minutos, voltou para o computador e mandou uma mensagem para o endereço hotmail de Praga.
[O procurador Rickard Ekström, que está conduzindo o inquérito preliminar, reside em Tãby. É casado, dois filhos, e tem cabo em casa. Eu preciso ter acesso ao laptop e/ou computador pessoal de mesa dele. Preciso lê-lo em tempo real. Hostile takeover com espelhamento do disco rígido.]
Sabia que Praga raramente saía de seu apartamento em Sundbyberg e esperava que ele pudesse contar com algum adolescente espinhento para fazer o trabalho de campo. Não assinou o e-mail, seria supérfluo. Quinze minutos depois, ele a chamou pelo ICQ.
(Quanto você está pagando?]
[10000 na sua conta + despesas e 5000 para o seu colaborador.] [Volto a entrar em contato.]
Na quinta-feira de manhã, recebeu um e-mail de Praga. Continha apenas um endereço ftp. Lisbeth ficou pasma. Não esperava um resultado antes de duas semanas, no mínimo. Montar um hostile takeover, mesmo com os programas geniais de Praga e seus softwares sob medida, era um procedimento laborioso que implicava pequenos fragmentos de informação serem injetados num computador, kilobyte por kilobyte, até que se criasse um programa simples. O tempo necessário dependia da freqüência com que o computador era utilizado. Depois, ainda eram precisos alguns dias para transferir toda a informação para um disco rígido espelhado. Fazer tudo isso em quarenta e oito horas não apenas era incrível como teoricamente impossível. Lisbeth ficou impressionada. Chamou-o pelo ICQ.
[Como você conseguiu?]
[São quatro pessoas com PC na casa. Nem te conto sobre a falta de firewall Segurança zero. Foi só entrar no cabo e carregar. Deu seis mil coroas de despesas. Não é demais para você?]
[Tá beleza. Mais um bônus pela rapidez.]
Hesitou um instante, então transferiu trinta mil coroas para a conta de Praga via internet. Não queria brindá-lo com quantias exageradas. Depois, instalou-se confortavelmente e abriu o laptop do chefe do inquérito preliminar, o procurador Ekström.
Uma hora depois, já tinha lido todos os relatórios que o inspetor Jan Bublanski lhe enviara. Lisbeth ponderou que, de acordo com o regulamento, relatórios desse tipo não deveriam sair da delegacia, e que Ekström estava simplesmente passando por cima do regulamento ao levar trabalho para casa por meio de uma conexão de internet particular e sem firewall.
Isso só vinha provar mais uma vez que nenhum sistema de segurança é melhor que o mais idiota dos colaboradores. Graças ao computador de Ekström, encontrou vários elementos indispensáveis de informação.
Primeiro, descobriu que Dragan Armanskij destacara dois colaboradores para juntar-se gratuitamente ao grupo de investigação de Bublanski, o que na prática significava que a Milton Security estava patrocinando a busca dos tiras para apanhá-la. A tarefa deles era contribuir de todas as formas possíveis para a captura de Lisbeth Salander. Muito obrigada, Armanskij. Não vou me esquecer disso. Ficou preocupada ao descobrir quem eram os colaboradores. Embora achasse Bohman meio rígido, ele sempre tivera um comportamento correto com ela. Niklas Eriksson era um torpe miserável que se aproveitara de sua posição na Milton Security para extorquir uma cliente da empresa.