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—Imagino que o Samir deve ter adorado.

—Nem me diga, falaram nessa história durante meses. O Samir simplesmente tomou uma surra. Ela ganhou nos pontos. Se tivesse mais força física, teria machucado o cara. Depois de um tempo, o Samir estava tão frustrado que passou a bater com toda a força. Fiquei com medo que ele acabasse com ela, a gente ia ter que chamar uma ambulância. Ela ficou com hematomas tentando se proteger com os ombros uma ou outra vez, e ele conseguiu jogar ela nas cordas porque ela não aguentava o peso dos golpes. Mas ele estava a dez mil léguas de atingir ela para valer.

—Caramba. Eu queria ter visto isso.

—A partir desse dia, os caras do clube começaram a respeitar a Salander. Principalmente o Samir. E eu acabei colocando ela como sparring-partner dos caras bem maiores e mais pesados. Ela era a minha arma secreta, e foram uns supertreinos aqueles. A gente preparava sessões em que a Lisbeth tinha por objetivo atingir cinco partes diferentes do corpo... o queixo, a testa, a barriga, e assim por diante. E os caras que ela enfrentava tinham que se defender e proteger aquelas partes. No fim, virou uma glória ter lutado com a Lisbeth Salander. Era um pouco como lutar contra um vespão. Aliás, o apelido dela era vespa, e ela se tornou uma espécie de mascote do clube. Acho que ela gostava, porque um dia apareceu com uma vespa tatuada no pescoço.

Mikael sorriu. Lembrava-se perfeitamente da vespa. Estava até incluída na descrição dos avisos de busca.

—Quanto tempo durou isso?

— Uma noite por semana por quase três anos. Eu assumi em tempo integral só no verão, depois ficou mais esporádico. O treino da Salander ficou com o Putte Karlsson, o treinador júnior. Depois ela começou a trabalhar e já não tinha como ir tão seguido, mas até o ano passado ela ainda aparecia por lá uma vez por mês. Estive com ela umas quatro, cinco vezes no ano para fazer aula. Muito legal, só para treinar, e garanto que a gente suava para valer Ela quase não falava com ninguém. Quando estava sem parceiro, era capaz de ficar duas horas batendo no saco de areia como se fosse um inimigo mortal.

23 - DOMINGO 3 DE ABRIL – SEGUNDA-FEIRA 4 DE ABRIL

Mikael preparou mais dois espressos. Desculpou-se ao acender um cigarro. Paolo Roberto deu de ombros. Mikael fitou-o pensativo.

Paolo Roberto tinha fama de ser um garganta que falava tudo que lhe vinha à cabeça. Mikael logo percebeu que também era garganta no trato pessoal, mas que era um homem inteligente e, no fundo, humilde. Lembrou que Paolo Roberto apostara numa carreira política como candidato ao Parlamento pelos socialdemocratas. Aparecia cada vez mais como um homem com alguma coisa na cabeça. Mikael flagrou-se gostando da figura.

—Por que você está me trazendo essa história?

—A Salander está na maior encrenca. Não sei o que dá para fazer, só acho que ela precisa de um amigo.

Mikael meneou a cabeça.

—O que te fez pensar que ela é inocente? - perguntou Paolo Roberto. —É difícil de explicar. A Lisbeth é uma pessoa superintransigente, mas simplesmente não acredito nessa história de ela ter matado o Dag e a Mia. Principalmente a Mia. Por um lado, ela não tinha motivo nenhum... —Nenhum que a gente saiba.

—Certo, a Lisbeth não teria escrúpulo em recorrer à violência com alguém que merecesse. Mas não sei. Desafiei o Bublanski, o tira que está conduzindo a investigação. Acho que existe um motivo por trás do assassinato do Dag e da Mia. E acho que esse motivo está na reportagem em que o Dag vinha trabalhando.

—Se você estiver certo, a Salander não só precisa de um amigo para segurar a mão dela quando for presa; precisa de ajuda da artilharia pesada.

—Concordo.

Um brilho perigoso cintilou nos olhos de Paolo Roberto.

—Se ela for inocente, terá sido vítima de um dos piores escândalos judiciários da história. Foi apontada como assassina pela mídia e pela polícia, e toda essa porcariada que escreveram...

—Também concordo.

—Então, o que a gente pode fazer? Será que posso ser útil de alguma forma?

Mikael refletiu.

—A melhor ajuda que podemos oferecer, claro, é apresentar outro culpado. Estou trabalhando nisso. Além do mais, para ajudá-la temos que pegada de qualquer jeito, antes que um tira acabe com ela. A Lisbeth não é bem do tipo que vai se entregar de boa vontade.

Paolo meneou a cabeça.

—E como a gente faz para encontrá-la?

—Não sei. Mas tem uma coisa que você poderia fazer. Uma coisa prática, se você tiver tempo e vontade.

—A minha mulher não está, vou estar solteiro na semana que vem. Com tempo e disposição.

—Certo, eu estava pensando no fato de você ser boxeador...

—Sim?

—A Lisbeth tem uma amiga, a Miriam Wu, os jornais falaram sobre ela.

—Apresentada como uma sapatão sadomasô... É, os jornais falaram nela.

—Tenho o celular dela e tentei entrar em contato. Mas ela desliga assim que vê que quem está falando é um jornalista.

—Dá para entender.

—Não estou com tempo para ir atrás da Miriam Wu. Mas li em algum lugar que ela pratica boxe tailandês. Fiquei pensando que se um boxeador conhecido ligar...

—Entendi. E você espera que ela possa nos levar até a Salander.

—Quando a polícia a interrogou, ela disse que ignorava totalmente o paradeiro da Lisbeth. Mas vale a pena tentar.

—Me dê o número. Acho ela para você.

Mikael passou o celular e o endereço na Lundagatan.

Gunnar Björck tinha passado o fim de semana analisando a situação. Seu futuro estava por um fio tênue e ele precisava jogar suas escassas cartas com sutileza.

Mikael Blomkvist era um canalha de primeira. A questão era saber se dava para convencê-lo a calar... o fato de ele ter recorrido aos serviços daquelas piranhas. O que ele fizera era passível de processo e não tinha dúvida de que, caso fosse divulgado, ele seria despedido. Os jornais fariam picadinho dele. Um agente da Säpo abusa de prostitutas adolescentes... se pelo menos aquelas malditas não fossem tão jovens.

Mas ficar sem fazer nada eqüivalia a selar sua sorte. Tivera o bom senso de não falar nada para Mikael Blomkvist. Decifrara a fisionomia de Blomkvist e registrara sua reação. Blomkvist estava preocupado. Queria informações. Mas teria de pagar. O preço era o seu silêncio. Era a única saída.

Zala alterava a equação de toda a investigação.

Dag Svensson tinha andado atrás de Zala.

Bjurman tinha procurado Zala.

E o delegado Gunnar Björck era o único, a saber, que existia um elo entre Zala e Bjurman, o que significava que Zala era um elo entre Enskede e Odenplan.

Isso colocava outro problema dramático para o futuro bem-estar de Gunnar Björck. Ele é quem passara a Bjurman a informação sobre Zalachenko - na maior amizade, esquecendo que essa informação ainda era mantida em segredo. Parecia pouco, mas isso na verdade o tornava culpado de um delito.

Além disso, desde a visita de Mikael Blomkvist, na sexta-feira, tornara-se culpado de outro delito. Ele era tira e, se detinha uma informação relacionada com uma investigação por homicídio, era seu dever alertar imediatamente a polícia. Só que, se passasse a informação para Bublanski ou o procurador Ekström, estaria automaticamente denunciando a si mesmo. Tudo viria a público. Nem tanto as putas, mas todo o caso Zalachenko.