Выбрать главу

—O que é a Recent Trash Records? Ela parecia mortalmente entediada.

—É um selo que produz novos grupos de jovens.

—Qual é a sua função?

—Técnica de som. Faste olhou para ela.

—Você tem formação para isso?

—Não. Aprendi na prática.

—Dá para viver disso?

—A resposta é mesmo importante?

—Eu só queria saber. Imagino que você tenha lido as matérias sobre Lisbeth Salander nesses últimos tempos.

Ela fez que sim com a cabeça.

—Disseram que você a conhece. É verdade?

—Pode ser.

—Sim ou não?

—Depende do que quer saber.

—Quero encontrar uma destrambelhada suspeita de três assassinatos. Quero informações sobre Lisbeth Salander.

—Não tenho notícias da Lisbeth desde o ano passado.

—Quando esteve com ela pela última vez?

—No outono, há dois anos. No Moulin. Ela ia lá de vez em quando, depois não soubemos mais dela.

—Você tentou entrar em contato com ela?

—Liguei algumas vezes para o celular. O número não existe mais.

—E você sabe onde eu poderia encontrada?

—Não.

—O que é o Evil Fingers?

Cilla Norén mostrou uma expressão divertida.

—O senhor não lê os jornais?

—Por quê?

—Todos eles escreveram que somos um grupo satanista.

—Isso é verdade?

—Eu tenho cara de satanista?

—Não sei que cara tem uma satanista.

—Escute, não sei quem está mais biruta, se a polícia ou os jornais.

—Escute aqui, senhorita, essa é uma pergunta séria.

—Se a gente é satanista?

—Responda às minhas perguntas, em vez de ficar enrolando.

—E qual é a sua pergunta?

Hans Faste fechou os olhos por um segundo e pensou na visita profissional que fizera, na Grécia, durante suas férias alguns anos antes. Na Grécia, apesar de todos os problemas, a polícia tinha uma enorme vantagem em relação à polícia sueca. Lá, se Cilla Norén adotasse a mesma atitude, ele a teria algemado e nocauteado com o cassetete. Olhou para ela.

—A Lisbeth Salander fazia parte do Evil Fingers?

—Acho que não.

—O que quer dizer?

—A Lisbeth talvez seja a pessoa mais hermética em relação a música que eu já conheci.

—Hermética em relação a música?

—Ela sabe distinguir um trompete de uma bateria, mas seu talento musical acaba mais ou menos por aí.

—Eu quis dizer: ela pertencia ao grupo Evil Fingers?

—Acabo de responder à pergunta. O que o senhor acha que era o Evil Fingers?

—Me conte.

—Está conduzindo uma investigação policial lendo as matérias de uns jornais idiotas.

—Responda à pergunta.

—Evil Fingers era um grupo de rock. A gente era um grupo de garotas que, em meados dos anos 1990, gostava de hard rock e tocava para se divertir. Para ficarmos conhecidas, a gente chamava a atenção com pentagramas e um pouco de sympathy for the Devil. Depois, paramos de tocar e eu sou a única que continuou trabalhando com música.

—E a Lisbeth Salander não fazia parte do grupo?

—É o que acabo de dizer.

—Por que as nossas fontes afirmam que a Salander fazia parte do grupo?

—Porque as suas fontes são quase tão idiotas quanto os jornais.

—Explique-se.

—Nós éramos cinco meninas, e continuamos nos encontrando de vez em quando. Antes, a gente se encontrava no Moulin uma vez por semana. Agora, é mais ou menos uma vez por mês. A gente mantém contato.

—E o que vocês fazem quando se encontram?

—O que é que as pessoas fazem no Moulin? Hans Faste suspirou.

—Quer dizer que vocês se encontram para beber.

— A gente toma uma cervejinha. Fala besteira. E o senhor, faz o que quando encontra com os amigos?

—E a Lisbeth Salander entra onde nesta história?

—Eu conheci Lisbeth na komvux quando eu tinha dezoito anos. Ela ia até o Moulin de vez em quando se juntar ao grupo e tomar uma cerveja com a gente.

—O Evil Fingers não poderia ser visto como uma organização? Cilla Norén o encarou como se ele viesse de outro planeta.

—Vocês são lésbicas?

—Quer levar um tabefe?

—Responda à pergunta.

—O que a gente é ou deixa de ser não lhe diz respeito.

—Calminha. Você não vai conseguir me tirar do sério.

—Alô... alô?... A polícia diz que Lisbeth Salander assassinou três pessoas e aí vem me fazer perguntas sobre as minhas preferências sexuais. Ah, vá se catar.

—Epa... eu posso te pôr no xadrez.

—Com que motivo? Aliás, esqueci de mencionar que estou no terceiro ano de direito e que o meu pai é o Ulf Norén, do escritório Norén & Knape. A gente se vê no tribunal?

—Pensei que você trabalhasse com música.

—Faço isso porque é legal. Ou você acha que eu conseguiria viver disso?

—Não faço idéia do que você vive.

—Não é de nenhuma atividade satanista e lésbica, se é isso que está pensando. Se essa é a premissa da polícia para procurar a Lisbeth Salander, entendo que vocês não consigam prendê-la.

—Você sabe onde ela está?

Cilla Norén começou a balançar o corpo, erguendo as mãos à sua frente.

—Eu sinto que ela está muito perto... espere, vou me conectar por telepatia.

—Pare com essa bobagem.

—Eu já disse que não sei dela há quase dois anos. Não faço idéia de onde ela está. Mais alguma coisa?

Sonja Modig ligou o computador de Dag Svensson e passou o final da tarde inventariando o conteúdo do disco rígido e dos ZIP. Ficou até as dez e meia da noite lendo o livro de Dag Svensson.

Ela se deu conta de duas coisas. Primeiro, descobriu que Dag Svensson era um escritor brilhante, cuja prosa era de uma objetividade fascinante quando descrevia os mecanismos do comércio do sexo. Gostaria que ele tivesse dado uma palestra na escola de polícia - seus conhecimentos seriam uma bem-vinda complementação ao curso. Hans Faste, por exemplo, era um que poderia se beneficiar dos conhecimentos de Svensson.

Em segundo lugar, ela compreendeu, de repente, o ponto de vista de Mikael Blomkvist, que achava que a investigação de Dag poderia constituir um motivo para os assassinatos. A denúncia dos clientes sexuais que Dag Svensson planejava fazer não iria prejudicar só um punhado de pessoas. Era uma denúncia brutal. Algumas figuras mais conhecidas, que já haviam sido condenadas em processos contra a moral e os bons costumes, ou que tinham participado de debates públicos sobre o tema, seriam totalmente aniquiladas. Mikael Blomkvist estava certo. O livro era um motivo para matar.

O único problema era que, mesmo que um cliente perigando ser denunciado tivesse resolvido matar Dag Svensson, não havia nenhum elo com o Dr. Nils Bjurman. Ele nem sequer constava no material de Dag Svensson, o que não só limitava consideravelmente o peso dos argumentos de Blomkvist como reforçava a imagem de Lisbeth Salander como única suspeita possível.

Embora o motivo fosse pouco claro no tocante aos assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman, Lisbeth Salander estava associada ao local e à arma do crime. Indícios técnicos tão evidentes dificilmente poderiam ser mal interpretados. Indicavam que Salander era mesmo a pessoa que disparara os tiros mortais no apartamento de Enskede.

A arma significava, além disso, um elo direto com o assassinato do Dr. Bjurman. E, no caso de Bjurman, existia incontestavelmente um vínculo pessoal e um motivo possível - a julgar pela decoração artística na barriga dele, podia se tratar de algum tipo de abuso sexual ou, em todo caso, de uma relação sadomasoquista entre eles. Era difícil imaginar que Bjurman tivesse permitido se deixar tatuar daquela forma estranha, o que levaria a supor que ele experimentava uma espécie de gozo na humilhação, ou então que Salander - se era mesmo ela quem tinha feito a tatuagem - o reduzira a uma condição de impotência. Modig não tinha vontade de especular sobre como ela teria feito aquilo.