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E Peter Teleborian confirmara que a violência de Lisbeth Salander se dirigia a pessoas que, por motivos variados, ela considerava ameaçadoras ou que a teriam ofendido.

Sonja Modig refletiu um instante sobre o que Teleborian dissera sobre Lisbeth Salander. Ele parecera autenticamente preocupado em proteger sua ex-paciente e não queria que ela fosse machucada. Ao mesmo tempo, a investigação se fundamentava mais que nada na análise que ele apresentara - de uma desequilibrada social no limite da psicose.

Mas a teoria de Mikael Blomkvist era subjetivamente atraente.

Ela mordeu de leve o lábio inferior enquanto tentava visualizar outro cenário que não o de Lisbeth Salander como assassina solitária. Por fim, pegou uma caneta e escreveu hesitante, uma linha no bloco de anotações à sua frente.

Dois motivos totalmente distintos? Dois assassinos? Uma única arma do crime?

Uma idéia fugaz que ela não conseguia formular ficava passando por sua cabeça, uma pergunta que ela pretendia levantar na próxima reunião matinal de Bublanski. Não conseguia de fato explicar por que se sentia de repente tão pouco à vontade com a idéia de Lisbeth Salander no papel de única assassina.

Em seguida, decidiu que já tinha trabalhado o bastante, desligou resolutamente o computador e trancou os ZIP na gaveta da escrivaninha. Enfiou a jaqueta, apagou a luz e estava fechando a porta à chave quando ouviu um ruído no corredor, mais adiante. Franziu o cenho. Julgava estar sozinha àquela hora no escritório, e foi caminhando pelo corredor até chegar em frente à sala de Hans Faste. A porta estava entreaberta e ela o escutou falando ao telefone.

—Sem dúvida alguma, isso liga uma coisa à outra - escutou-o dizer. Ficou indecisa um instante, antes de inspirar fundo e bater na moldura da porta. Hans Faste ergueu dois olhos surpresos ao vê-la. Ela o cumprimentou levantando dois dedos no ar.

—Modig ainda está na casa - disse Faste ao telefone. Escutou e meneou a cabeça, sem tirar os olhos de Sonja Modig. —O.k. Eu falo para ela.

E desligou.

—Era o Bubolha - explicou. —O que você queria?

—O que é que liga uma coisa à outra? - ela inquiriu. Ele perscrutou-a.

—Anda ouvindo atrás da porta, é?

—Não, mas a porta estava aberta e você falou isso bem na hora em que eu ia bater.

Faste deu de ombros.

—Eu liguei para o Bubolha para dizer que o laboratório enfim forneceu algo aproveitável.

—Ah, é?

—O Dag Svensson tinha um celular com cartão Comviq. Finalmente conseguiram uma lista das chamadas. Foi confirmada a ligação dele para o Mikael Blomkvist às 20h 12. Blomkvist ainda estava na casa da irmã a essa hora.

—Muito bem. Mas não acho que o Blomkvist tenha qualquer relação com esses assassinatos.

—Nem eu. Mas Dag Svensson fez outra ligação naquela noite. Às 2lh34. A conversa durou três minutos.

—E?

—Foi uma ligação para o telefone fixo do Dr. Nils Bjurman. Em outras palavras, existe um elo entre os dois assassinatos.

Sonja Modig deixou-se cair lentamente na cadeira de visitantes de Hans Faste.

—Por favor. Sente-se. Ela ignorou a alfinetada.

—Certo. O que diz o cronograma? Pouco depois das oito da noite, Dag Svensson liga para Mikael Blomkvist e marca um encontro para mais tarde naquela noite. Às nove e meia, Svensson liga para Bjurman. Pouco antes das dez da noite, Salander compra cigarro na tabacaria de Enskede, que estava quase fechando. Pouco depois das onze, Mikael Blomkvist e a irmã chegam a Enskede e, as onze e onze, ele liga para o SOS - Brigada.

—Isso mesmo, Miss Marple.

—Mas não está batendo de jeito nenhum. Segundo o legista, Bjurman foi morto entre dez e onze da noite. Nessa hora, Salander já estava em Enskede. A gente sempre achou que primeiro ela tinha matado o Bjurman c depois o casal de Enskede.

—Isso não quer dizer nada. Eu falei com o legista. Só descobrimos o Bjurman na noite seguinte, quase vinte e quatro horas depois. O médico diz que a hora da morte pode variar em pelo menos uma hora.

—Mas o Bjurman tem que ser a primeira vítima, já que encontramos a arma dele em Enskede. Isso quer dizer que ela matou o Bjurman em algum momento após as 21h34, hora em que Svensson ligou para o Bjurman, e foi imediatamente para Enskede comprar cigarro na tabacaria. Dava tempo para ir de Odenplan até Enskede?

—Dava. Ela não pegou o transporte coletivo como a gente achava de início. Ela tinha um carro. Eu e o Steve Bohman fizemos o trajeto para conferir, e deu tempo de sobra.

—Mas ela ainda esperou meia hora antes de matar Dag Svensson e Mia Bergman. O que ela fez nesse meio-tempo?

—Tomou um café com eles. As digitais dela estão na xícara.

Ele lançou-lhe um olhar triunfante. Sonja Modig suspirou. Ficou em silêncio alguns minutos.

—Hans, para você este caso é um lance de prestígio. Você às vezes sabe ser um cretino e tira as pessoas do sério, mas acontece que vim bater à sua porta para pedir desculpas pela bofetada. Foi injustificada.

Ele a fitou demoradamente.

—Modig, você até pode achar que eu sou um cretino. Mas eu acho que você não é muito profissional e não tinha nada que estar na polícia. Pelo menos não neste nível.

Sonja Modig considerou diferentes respostas, mas acabou dando de ombros e se levantando.

—Certo. Assim fica claro como a gente se coloca um em relação ao outro - disse ela.

—Assim fica claro. E, pode crer, você não fica muito tempo por aqui. Sonja Modig fechou a porta atrás de si com mais força do que pretendia.

Não deixe esse escroto te tirar do sério. Desceu até a garagem para pegar o carro. Hans Faste sorria, satisfeito, do outro lado da porta.

Mikael Blomkvist acabava de chegar quando seu celular tocou.

—Oi. É a Malu. Você pode falar?

—Mas é claro.

—Ontem teve uma coisa que me chamou a atenção.

—Sei.

—Estava lendo os recortes sobre a caçada à Salander que estão lá na redação, e achei aquela matéria grande sobre o passado dela nos hospitais psiquiátricos.

—Sei.

—Eu até posso estar procurando pelo em ovo, mas fico pensando no porquê de uma lacuna tão grande na biografia dela.

—Lacuna?

—É. Existe uma profusão de detalhes sobre todas as histórias em que ela se envolveu na escola. Com os professores e os outros alunos, você sabe.

—Estou lembrado. Havia uma professora dizendo que tinha medo da Lisbeth no início do ginásio.

—A Birgitta Miáãs.

—Isso mesmo.

—Bem. E também há um bocado de detalhes sobre a Lisbeth na psiquiatria infantil. E um monte de outros detalhes sobre ela nas famílias adotivas em que ficou durante a adolescência, aquela agressão na Gamla Stan e tudo mais.

—Sei. Aonde você quer chegar?

—Ela foi internada na psiquiatria pouco antes de fazer treze anos.

—Sei.

—Mas não há uma só palavra explicando por que ela foi internada. Mikael ficou calado.

—Você quer dizer...

—Quero dizer que se uma menina de doze anos é internada na psiquiatria, é porque alguma coisa provocou isso. E no caso da Lisbeth deve ter sido uma coisa imensa, quer dizer, uma puta de uma crise, e isso deveria constar na biografia dela. Só que não há nenhuma explicação.

Mikael franziu o cenho.

—Malu, eu sei de fonte segura que existe um relatório policial sobre a Lisbeth, datado de fevereiro de 1991, quando ela tinha doze anos. Não está no cadastro. Eu ia mesmo te pedir para tentar encontrar esse relatório.

—Se existe um relatório, ele necessariamente tem que estar registrado no cadastro. Senão, é ilegal. Você verificou mesmo?

—Não, mas a minha fonte diz que o relatório não consta no cadastro. Por um momento, Malu não disse nada.

—E essa sua fonte é boa?

—Muito boa.