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—Você sabe quem eu sou? Faça um sinal com a cabeça. Per-Ake Sandström meneou a cabeça.

—Você é um porco sádico, um canalha estuprador. Ele não se moveu.

—Faça um sinal com a cabeça.

Ele meneou a cabeça. Súbito, seus olhos se encheram de lágrimas.

—Vamos estabelecer as regras - disse Lisbeth Salander. —Na minha opinião, você deveria ser executado imediatamente. Você sair vivo ou não daqui esta noite, para mim dá no mesmo. Entendeu?

Ele meneou a cabeça.

—A esta altura, você necessariamente já sabe que eu sou louca e adoro matar gente. Sobretudo homens.

Ela apontou para os jornais vespertinos dos últimos dias, que ele tinha guardado numa pilha em cima da mesa.

—Vou tirar a fita adesiva da sua boca. Se você gritar ou erguer a voz, zapeio você com isso aqui.

Brandiu um cassetete elétrico.

— Esta coisa feia manda ver setenta e cinco mil volts. E depois, mais ou menos uns sessenta mil, se eu já usei uma vez e não recarreguei. Entendido?

Ele pareceu hesitar.

—Isso significa que os seus músculos param de funcionar. Foi o que você sentiu ali na porta, quando entrou.

Ela sorriu.

—Isso significa que as suas pernas não vão mais te aguentar e você vai enforcar a si próprio. E depois de acabar com você, eu vou me levantar e sair do apartamento, é simples.

Ele meneou a cabeça. Oh, meu Deus, ela é louca, uma legítima assassina. De repente, à sua revelia, lágrimas começaram a escorrer incontrolavelmente pelas suas faces. Ele fungou.

Ela se levantou e arrancou a fita adesiva. Seu rosto grotesco ficou a apenas poucos centímetros do seu.

—Fique quieto - disse ela. —Nem uma palavra. Se falar sem ser convidado, acabo com você.

Ela esperou até ele parar de fungar e olhar para ela.

—Você só tem uma chance de sair vivo daqui esta noite - disse ela. —Uma chance, não duas. Vou fazer uma série de perguntas. Se você responder, te deixo viver. Se me entendeu, faça que sim com a cabeça.

Ele fez que sim com a cabeça.

—Se você se negar a responder a uma pergunta, eu te aniquilo. Entendeu?

Ele meneou a cabeça.

—Se mentir ou responder com evasivas, eu te aniquilo. Ele meneou a cabeça.

—Não vou negociar com você. Não vou te dar uma segunda chance. Ou você responde imediatamente às minhas perguntas, ou morre. Se eu ficar satisfeita com as suas respostas, você sai vivo daqui. É simples assim.

Ele meneou a cabeça. Acreditava nela. Não tinha escolha.

—Por favor - disse. —Eu não quero morrer... Ela o fitou com gravidade.

—Você decide se vai viver ou morrer. Mas acaba de transgredir a primeira regra, que é: você não tem o direito de falar sem a minha autorização.

Ele apertou os lábios. Caramba, ela é completamente doente.

Mikael Blomkvist se sentia a tal ponto frustrado e febril que já não sabia o que fazer. Por fim, vestiu o casaco e um cachecol, andou ao acaso até Sõdra Station, passou em frente do prédio da Bofill, e acabou na redação da Millennium, na Götgatan. Estava tudo apagado e calmo. Não acendeu nenhuma luz, mas ligou a cafeteira, quedou-se em frente à janela olhando para a rua lá embaixo enquanto esperava a água escorrer pelo filtro. Tentava colocar ordem nas suas idéias. Até onde ele percebia, a investigação sobre os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman era um mosaico quebrado, e alguns pedaços eram discerníveis ao passo que outros faltavam totalmente.

Em algum ponto desse mosaico, havia um desenho. Dava para adivinhá-lo, mas não para ver. Faltavam pedaços demais.

Foi assaltado pela dúvida. Ela não é uma louca assassina, pensou, como um tipo de lembrete. Ela escrevera que não havia matado Dag e Mia. E ele acreditava. Mas mesmo assim, de algum modo incompreensível, ela estava intimamente ligada ao enigma dos assassinatos.

Pôs-se lentamente a revisar a teoria que vinha defendendo desde o dia em que entrara no apartamento de Enskede. Para ele era óbvio que a reportagem de Dag Svensson sobre tráfico de mulheres era o único motivo plausível para os assassinatos de Dag e Mia. Agora, tardiamente, começava a aceitar a afirmação de Bublanski de que isso não explicava o assassinato de Bjurman.

Salander tinha escrito para ele deixar os clientes sexuais para lá e se concentrar em Zala. Como? O que ela queria dizer? Mulherzinha complicada. Por que não podia dizer as coisas de forma compreensível?

Mikael voltou à copa e se serviu de café numa caneca com o logotipo da Esquerda Jovem. Sentou-se no sofá, no meio da redação, pôs os pés na mesa de centro e acendeu um cigarro clandestino.

Bjórck estava na lista dos clientes sexuais. Bjurman era ligado a Salander. Não podia ser por acaso que tanto Bjurman como Bjórck tinham trabalhado na Säpo. E que um relatório policial sobre Salander tinha sumido.

Poderia haver mais de um motivo?

Ficou um momento parado e deteve-se nessa idéia. Inverteu a perspectiva.

Será que Lisbeth Salander poderia ser o motivo?

Mikael reteve aquela idéia que ele não conseguia formular em palavras. Havia ali uma coisa inexplorada, mas ele não conseguia explicar a si mesmo por que Lisbeth Salander poderia ser o motivo dos assassinatos. Teve a sensação fugaz de uma revelação a ponto de brotar.

Então percebeu que estava cansado demais, jogou o café na pia e foi para casa dormir. No escuro de seu quarto, retomou o fio da idéia e ficou acordado por mais duas horas, tentando entender o que ele queria dizer.

Lisbeth Salander acendeu um cigarro e se acomodou confortavelmente na cadeira à sua frente. Cruzou as pernas, a direita sobre a esquerda, e encarou-o. Per-Áke Sandström nunca tinha visto um olhar tão intenso. Quando ela voltou a falar, sua voz continuava baixa.

—Você visitou Ines Hammujãrvi pela primeira vez, no apartamento dela em Norsborg, em janeiro de 2003. Ela acabava de completar dezesseis anos. Por que foi até lá?

Per-Ake Sandström não sabia o que responder. Nem sabia explicar como aquilo tudo começara e por que ele... Ela ergueu o cacetete elétrico.

—Eu... eu não sei. Eu queria a Ines. Ela era tão linda.

—Linda?

—É. Ela era linda.

—E você achou que isso te dava o direito de amarrar e comer a mulher.

—Ela concordou. Juro. Ela concordou.

—Você pagou?

Per-Ake Sandström mordeu a língua.

—Não.

—Por que não? Ela era uma puta. Em geral, as putas são pagas.

—Ela era um... era um presente.

—Um presente? - repetiu Lisbeth Salander. Sua voz assumiu de repente um tom perigoso.

—Ela foi oferecida em troca de um favor que eu tinha feito para uma pessoa.

—Per-Ake... - disse Lisbeth Salander num tom suave. —Você não está tentando evitar a minha pergunta?

—Eu juro. Vou responder tudo o que você quiser. Não vou mentir.

—Muito bem. Que favor e para quem?

—Eu trouxe esteroides anabolizantes para a Suécia. Eu tinha ido à Estônia fazer umas reportagens, estava com uns amigos, e trouxe os comprimidos no carro. Viajei com um homem chamado Harry Ranta. Mas ele não estava no meu carro.

—Como é que você conheceu esse Harry Ranta?

—Conheço o Harry há anos. Desde os anos 1980. Era um amigo, só isso. A gente saía para tomar uns tragos juntos.

—E foi o Harry Ranta que te ofereceu a Ines Hammujãrvi de... presente?

—Sim... não, desculpe, isso foi depois, aqui em Estocolmo. Foi o irmão dele, Atho Ranta.

—Quer dizer que o Atho Ranta veio bater na sua porta perguntando se você estava a fim de ir a Norsborg comer a Ines?

—Não... eu estava numa... tinha uma festa em... droga, não lembro onde era...

De repente, pôs-se a tremer de forma incontrolável, sentiu que os joelhos começavam a ceder e teve que se enrijecer para conseguir ficar de pé.