—Responda tranqüilamente sem entrar em pânico - disse Lisbeth Salander. —Não vou te enforcar só porque você precisa de um tempo para concatenar as idéias. Mas se eu perceber que você está escorregando, aí... pof!
Ela alçou as sobrancelhas e adotou um ar angelical. Até onde era possível vislumbrar um anjo por trás daquela máscara grotesca.
Per-Ake Sandström meneou a cabeça. Engoliu em seco. Estava com sede, sua boca estava super-ressecada e sentia a corda apertando o seu pescoço.
—Aí... não interessa o lugar onde você estava enchendo a cara. Como foi que Atho Ranta te ofereceu a Ines?
—A gente estava falando de... a gente... eu disse que queria... De repente, começou a chorar descontroladamente.
—Você disse para ele que queria uma daquelas putas. Ele meneou a cabeça.
—Eu estava bêbado. Ele disse que ela precisava... precisava...
—Precisava do quê?
—Atho disse que ela precisava de um corretivo. Ela estava criando problemas. Não fazia o que ele queria.
—E o que ele queria que ela fizesse?
—Que ela trabalhasse na rua para ele. Ele me propôs... Eu estava bêbado e não sabia o que estava fazendo. Eu não queria... Desculpe.
Ele fungou.
—Não é para mim que você tem que pedir desculpa. Então você se ofereceu para ajudar o Atho a dar um corretivo na Ines e vocês foram até a casa dela.
—Não foi bem assim.
—Então conta como foi. Por que você foi com o Atho até a casa da Ines?
Ela brincou com o cacetete elétrico equilibrado em seus joelhos. Ele se pôs a tremer.
—Eu fui na casa da Ines porque eu a queria. Ela estava lá e estava à venda. Ines morava na casa de uma amiga do Harry Rant. Não lembro o nome dela. Atho amarrou a Ines na cama e eu... eu fiz amor com ela. O Atho ficou olhando.
—Não... Você não fez amor com ela. Você estuprou. Ele não respondeu.
—Não foi?
Ele meneou a cabeça.
—O que disse a Ines?
—Não disse nada.
—Ela protestou?
Ele balançou a cabeça.
—Quer dizer que ela achou legal ser amarrada e comida por um gordo nojento de cinquenta anos.
—Ela estava bêbada. Não estava nem aí. Lisbeth Salander deu um suspiro resignado.
—Certo. E depois disso você continuou visitando a Ines.
—Ela era tão... ela me queria.
—Conta outra!
Ele lançou um olhar desesperado para Lisbeth Salander. Então meneou a cabeça.
—Eu... eu estuprava. Harry e Atho tinham me dado autorização. Eles queriam que ela... que ela fosse domada.
—Você pagou para eles? Ele meneou a cabeça.
—Quanto?
—Era um preço de amigo. Eu tinha ajudado no contrabando.
—Quanto?
—No total, algumas notas de mil.
—Numa das fotos, a Ines está aqui no seu apartamento.
—Harry mandou ela vir. Ele fungou de novo.
—Ou seja, por umas cédulas de mil, você ganhou uma mulher com quem podia fazer o que bem entendesse. Quantas vezes você a estuprou?
—Não sei... algumas vezes.
—Certo. Quem é o chefe desse bando?
—Eles vão me matar se eu disser.
—E eu com isso? Neste momento, eu sou um problema bem maior para você do que os irmãos Ranta.
Ela levantou o cacetete elétrico.
—Atho é o chefe. É o mais velho. Harry é o homem do terreno.
—Quem mais faz parte do bando?
—Só conheço o Harry e o Atho. A garota do Atho também participa. E um cara que eles chamam de... não lembro. Olle alguma coisa. É sueco. Não sei quem é. É viciado e presta alguns favores.
—A garota do Atho?
—Silvia. É uma puta.
Lisbeth ficou um instante em silêncio, refletindo. Então ergueu os olhos.
—Quem é Zala?
Per-Ake Sandström empalideceu visivelmente. A mesma pergunta tão repisada por Dag Svensson. Ele ficou tanto tempo sem dizer nada que notou que a louca estava começando a se irritar.
—Eu não sei - disse. —Não sei quem ele é. Lisbeth Salander se aborreceu.
—Até aqui você se comportou direitinho. Não desperdice a sua chance - disse ela.
—Juro por tudo que é mais sagrado. Não sei quem ele é. Esse jornalista que você matou...
Calou-se, percebendo de súbito que talvez não fosse uma boa idéia evocar a orgia assassina dela em Enskede.
—Sim?
—Ele me perguntou a mesma coisa. Eu não sei. Se soubesse, diria. Juro. É uma pessoa que o Atho conhece.
—Você já falou com ele?
—Um minuto só, por telefone. Falei com um cara que dizia se chamar Zala. Ou melhor, ele falou comigo.
—A troco do quê?
Per-Ake Sandström pestanejou. Gotas de suor rolaram dos seus olhos e ele sentiu ranho escorrendo pelo queixo.
—Eu... eles queriam que eu fizesse mais um favorzinho para eles.
—Essa sua história está começando a se enredar - alertou Lisbeth Salander.
—Eles queriam que eu fizesse outra viagem até Tallinn para trazer um carro pronto. Anfetaminas. Eu não quis.
—Não quis por quê?
—Era demais. Eles eram verdadeiros gângsteres. Eu queria me afastar. Eu tinha o meu trabalho.
—Você quer dizer que era apenas um gângster ocasional.
—Não sou assim, de verdade - disse ele, miserável.
—Ah, é?
Sua voz vinha carregada de tanto desprezo que Per-Ake Sandström fechou os olhos.
—Continue. Como é que o Zala veio parar nessa história?
—Um legítimo pesadelo.
Ele se calou e, súbito, suas lágrimas voltaram a rolar. Mordeu o lábio com tanta força que se cortou e começou a sangrar.
—Está se enredando - disse Lisbeth Salander, em voz clara.
—O Atho insistiu comigo várias vezes. O Harry me avisou, disse que o Atho estava começando a ficar bravo e não sabia o que poderia acontecer. Por fim, topei me encontrar com o Atho. Foi em agosto do ano passado. Fui com o Harry até Norsborg...
Sua boca se mexia, mas as palavras se extinguiram. Os olhos de Lisbeth Salander viraram duas fendas. Ele recobrou a voz.
—O Atho estava enlouquecido. Ele é muito brutal. Você não faz idéia da brutalidade dele. Disse que era tarde demais para eu cair fora e que se eu não fizesse o que ele estava mandando, não ia sair vivo. Queria me dar uma demonstração.
—Sim?
—Me obrigaram a ir com eles. Fomos na direção de Södertálje. Atho me mandou usar um capuz. Um saco que ele me amarrou na cabeça, tapando os meus olhos. Eu estava morto de medo.
—Com que então você viajou com um saco na cabeça. E o que aconteceu depois?
—O carro parou. Não sei onde.
—Em que lugar eles te puseram o saco?
—Pouco antes de Södertãlje.
—E depois, quanto tempo levaram para chegar?
Talvez... talvez pouco mais de meia hora. Eles me tiraram do carro. Era uma espécie de armazém.
—Continue.
—Harry e Atho me fizeram entrar. Havia luz lá dentro. A primeira coisa que eu vi foi um pobre coitado no piso de cimento. Estava amarrado. Tinha sido tremendamente espancado.
—Quem era?
—O nome dele era Kenneth Gustafsson. Mas isso eu só soube depois. Eles não pronunciaram o nome dele.
—O que aconteceu?
—Tinha um homem lá. O homem mais alto que eu já vi. Era imenso. Puro músculo.
—Me descreva esse cara.
—Loiro. Parecia mesmo o diabo em pessoa.
—O nome dele?
—Ele não disse.
—Certo. Um gigante loiro. Quem mais estava lá?
—Um outro homem. Loiro também. Com um rabo de cavalo. Magge Lundin.
—E quem mais?
—Só eu, o Harry e o Atho.
—Continue.
—O loiro... quer dizer, o gigante, me passou uma cadeira. Não disse uma palavra. O Atho era quem falava. Disse que o cara que estava no chão era um dedo-duro. Ele queria que eu visse o que acontecia com quem criava caso.
Per-Àke Sandstróm chorava sem se conter.