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—Está se enredando de novo - disse Lisbeth Salander.

—O loiro levantou o cara do chão e o colocou numa cadeira na minha frente. A gente estava a um metro um do outro. Eu podia olhar dentro dos olhos dele. O gigante ficou atrás dele e pôs as mãos em volta do pescoço do cara. E ele... ele...

—Estrangulou o cara - interrompeu Lisbeth, para ajudá-lo.

—Sim... não... ele apertou até matar. Acho que quebrou a nuca dele com as mãos. Escutei a nuca se quebrar e ele morreu ali, na minha frente.

Per-Ake Sandström oscilava preso na corda. Suas lágrimas corriam a cântaros. Ele nunca tinha contado isso a ninguém. Lisbeth lhe concedeu um minuto para se refazer.

—E depois?

—O outro homem, o do rabo de cavalo, ligou uma serra elétrica e cortou a cabeça e as mãos dele. Quando acabou, o gigante chegou perto de mim. Pôs as mãos em volta do meu pescoço. Tentei me soltar. Usei toda a minha força, e ele não se mexeu um milímetro sequer. Mas não me estrangulou... só ficou com as mãos ali um bocado de tempo. Enquanto isso, o Atho pegou o celular e ligou para alguém. Falava em russo. Depois disse que o Zala queria falar comigo e segurou o telefone no meu ouvido.

—E o que disse o Zala?

—Só disse que fazia questão que eu fizesse o favor que o Atho tinha pedido. Perguntou se eu ainda estava querendo cair fora. Prometi ir até Tallinn buscar o carro com as anfetaminas. Eu não tinha escolha.

Lisbeth ficou um bom tempo em silêncio. Pensativa, contemplava o jornalista que fungava, pendurado na corda; parecia estar refletindo sobre alguma coisa.

—Me descreva a voz dele.

—A voz... não sei. Parecia bem normal.

—Voz baixa, clara?

—Baixa. Comum. Áspera.

—Vocês falaram em que língua?

—Sueco.

—Algum sotaque?

—Sim... um pouco, talvez. Mas ele falava bem o sueco. Atho e ele falavam em russo.

—Você entende russo?

—Um pouco. Não tudo. Só um pouco.

—O que o Atho falou para ele?

—Só disse que a demonstração tinha acabado. Mais nada.

—Você contou isso tudo para alguém?

—Não.

—Para o Dag Svensson?

—Não... não.

—O Dag Svensson esteve aqui. Sandström fez que sim com a cabeça.

—Não ouvi.

—Sim.

—Por quê?

—Ele sabia que eu tinha... as putas.

—O que ele perguntou?

—Ele queria saber...

—Sim?

—Zala. Perguntou sobre Zala. Foi na segunda visita.

—Segunda visita?

—Ele já tinha me contatado duas semanas antes de morrer. Foi a primeira vez que veio aqui. Depois ele voltou, dois dias antes que você... que ele...

—Antes que eu atirasse nele?

—Isso.

—E então ele fez perguntas sobre o Zala?

—Sim.

—E o que você falou?

—Nada. Eu não podia falar nada. Admiti que tinha falado com ele por telefone. Só isso. Não falei nada sobre o monstro loiro nem sobre o que eles fizeram com o Gustafsson.

—Certo. O que o Dag Svensson te perguntou exatamente?

—Eu... ele queria saber do Zala. Só isso.

—E você não falou nada?

—Nada de interessante. Na verdade, eu não sei de nada.

Lisbeth Salander ficou um instante em silêncio. Ele estava evitando dizer alguma coisa. Mordeu, pensativa, o lábio inferior. Sim, claro.

—Para quem você contou sobre as visitas do Dag Svensson? Sandström empalideceu.

Lisbeth sacudiu o cacetete elétrico.

—Liguei para o Harry Ranta.

—Quando?

Ele engoliu em seco.

—Na noite em que o Dag Svensson veio aqui pela primeira vez.

Ela continuou o interrogatório por mais meia hora, mas logo percebeu que ele só tinha repetições e mais alguns detalhes soltos a oferecer. Por fim, levantou-se e pôs a mão na corda.

—Você deve ser o canalha mais miserável que eu já conheci - disse Lisbeth Salander. —O que você fez com a Ines merece pena de morte. Mas prometi que você ia viver se respondesse às minhas perguntas. Sempre cumpro as minhas promessas.

Ela se inclinou e desfez o nó. Per-Âke Sandström desabou lamentavelmente no chão. Seu alívio chegava a ser eufórico. Do assoalho, viu que ela punha um banco em cima da mesinha, subia em cima e desprendia a roldana. Juntou a corda e colocou-a numa mochila. Desapareceu no banheiro, onde ficou uns dez minutos. Ele ouviu a água correndo. Quando voltou, estava sem maquiagem.

Seu rosto parecia nu e desencardido.

—Você mesmo pode se soltar. Largou uma faca de cozinha no chão.

Ele escutou ela fazer uns ruídos no hall durante vários minutos. Parecia estar trocando de roupa. Depois, ouviu a porta se abrir e se fechar. Só meia hora depois conseguiu cortar a fita adesiva. Ao sentar-se no sofá da sala, descobriu que ela tinha levado o seu Colt 1911 Government.

Lisbeth Salander só chegou em casa às cinco da manhã. Tirou a peruca de Irene Nesser e foi imediatamente se deitar, sem ligar o computador para ver se Mikael Blomkvist solucionara o enigma do relatório policial desaparecido.

Acordou às nove horas e passou a terça-feira coletando dados sobre os irmãos Atho e Harry Ranta.

Atho Ranta possuía uma ficha criminal lamentável. Cidadão finlandês, mas originário de uma família estoniana, chegara à Suécia em 1971. Entre 1972 e 1978, trabalhara como marceneiro na construção civil. Despedido depois de ser flagrado roubando numa obra, foi condenado a sete meses de prisão. De 1980 a 1982, trabalhou para uma empresa bem menor. Foi despedido depois de chegar várias vezes bêbado ao trabalho. No restante dos anos 1980, ganhara a vida como segurança de cabaré, técnico numa empresa de manutenção de caldeiras, lavador de pratos e vigia numa escola. Fora mandado embora de todos esses empregos depois de aparecer razoavelmente bêbado ou se envolver em todo tipo de briga. Seu trabalho de vigia se encerrou poucos meses depois de ser contratado, quando uma professora registrou queixa contra ele por assédio sexual e comportamento ameaçador.

Em 1987, foi condenado a pagar uma multa e a três meses de prisão por roubo de carro, condução em estado de embriaguez e receptação. No ano seguinte, foi multado por porte ilegal de armas. Em 1990, condenado por um delito contra a moral e os bons costumes, de natureza não especificada no registro criminal. Em 1991, processado por ameaças, mas absolvido. No mesmo ano, condenado a multa e a uma pena de prisão condicional por contrabando de álcool. Em 1992, pegou três meses por golpes e ferimentos numa amiga, e ameaças à irmã desta última. Então se manteve na linha até 1997, quando foi condenado por receptação e golpes e ferimentos agravados. Dessa feita, pegou dez meses de prisão.

Seu irmão caçula, Harry, viera encontrá-lo na Suécia em 1982, para trabalhar nos anos 1980 como controlador de estoque. Sua ficha criminal mostrava que fora condenado em três ocasiões. Em 1990, por fraude em seguros; em 1992, a dois anos por golpes e ferimentos agravados, receptação, roubo, roubo agravado e estupro. Expulso para a Finlândia, voltou à Suécia em 1996, quando foi novamente condenado a dez meses de prisão por golpes e ferimentos agravados e estupro. Recorreu, e a corte de apelação seguiu a linha de defesa de Harry Ranta, absolvendo-o da acusação de estupro. Em contrapartida, a condenação por golpes e ferimentos foi mantida e ele cumpriu seis meses. Em 2000, Harry Ranta foi mais uma vez acusado por ameaças e estupro; a queixosa, porém, voltou atrás e o caso foi arquivado.

Ela obteve os endereços mais recentes dos dois: Atho Ranta morava em Norsborg e Harry em Alby.

Paolo Roberto sentiu-se frustrado quando, pela cinquentésima vez, digitou o número de Miriam Wu e deu caixa postal. Tinha ido ao endereço da Lundagatan várias vezes por dia desde que aceitara a missão de se encontrar com ela. A porta do apartamento permanecia fechada.

Deu uma olhada no relógio. Oito e pouco da noite de terça-feira. Em algum momento ela teria que voltar para casa. Ele entendia o desejo de Miriam Wu de se manter afastada, mas a imprensa já tinha se acalmado um pouco. Ele ponderou que, em vez de ficar indo e vindo, poderia se instalar em frente ao prédio dela para o caso de ela aparecer, mesmo que só para pegar uma muda de roupa ou sabe Deus o quê. Encheu uma garrafa com café e preparou uns sanduíches. Antes de sair de casa, fez o sinal da cruz diante de um crucifixo.