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Estacionou a uns trinta metros da porta do prédio da Lundagatan e recuou o banco para dar mais espaço para as pernas. Ligou o rádio num volume baixo e grudou no painel uma foto de Miriam Wu recortada de um jornal vespertino. Achava aquela garota um avião. Contemplou pacientemente os raros transeuntes. Miriam Wu nunca estava entre eles.

A cada dez minutos, tentava ligar. Desistiu por volta das nove horas, quando seu celular o alertou de que a bateria estava para acabar.

Per-Ake Sandström passou a terça-feira num estado próximo da apatia. Tinha dormido no sofá da sala, incapaz de ir até a cama e incapaz de conter os súbitos acessos de choro que o acometiam regularmente. Na terça de manhã, fora até o Monopólio dos Espirituosos, no centro de Solna, para comprar um quarto de litro de aquavit, depois voltara para o seu sofá e bebera mais ou menos metade do conteúdo.

Só à noite começou a ter consciência do seu estado e se pôs a pensar no que poderia fazer. Queria nunca ter ouvido falar nos irmãos Atho e Harry Ranta e nas suas putas. Não conseguia entender como tinha sido tão idiota e se deixado levar para aquele apartamento de Norsborg, onde Atho havia amarrado, de pernas abertas, Ines Hammujãrvi, de dezesseis anos e altamente drogada, desafiando-o depois a ver quem tinha a ereção maior. Tinham se alternado, e ele ganhou o concurso executando, durante a noitada, quantidade de performances sexuais de diversos tipos.

Em dado momento, Ines Hammujárvi voltara a si e começara a reclamar. Então Atho ficara meia hora batendo nela e fazendo-a beber, e quando ela se acalmara, Atho convidara Per-Ake a prosseguir seus exercícios.

Maldita puta.

Como ele tinha sido idiota.

Não podia contar com nenhuma compaixão por parte da Millennium. Eles viviam desse tipo de escândalo.

Ele morria de medo daquela louca da Salander. Para não falar no monstro loiro. Ele não podia se dirigir à polícia.

Não podia se virar sozinho. Seria ilusão achar que os problemas iam sumir por si sós.

Só restava uma tênue alternativa para obter um pouquinho de simpatia e, quem sabe, algum tipo de solução. Percebeu que era uma tábua de salvação bem frágil.

Mas era sua única possibilidade.

À tarde, se armou de coragem e discou o número do celular de Harry Ranta. Ninguém atendeu. Continuou tentando ligar para Harry Ranta até as dez da noite, e então desistiu. Depois de pensar algum tempo (e se fortalecer com a aquavit que ainda restava), ligou para Atho Ranta. Silvia, a companheira de Atho, atendeu. Foi informado de que os irmãos Ranta estavam de férias em Tallinn. Não, Silvia não sabia como entrar em contato com eles. Não, não tinha idéia de quando eles voltavam - estavam na Estônia por tempo indeterminado.

Silvia parecia satisfeita.

Per-Ake Sandström deixou-se cair no sofá. Não saberia dizer se estava abatido ou aliviado por Atho não estar em casa e, assim, não precisar se explicar. Mas a mensagem era clara. Por diversos motivos, os irmãos Ranta tinham baixado a bola e estavam dando um tempo em Tallinn. O que não contribuiu para acalmar Per-Ake Sandström.

25 - TERÇA-FEIRA 5 DE ABRIL – QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL

Paolo Roberto não pegara no sono, mas estava tão imerso em seus pensamentos que levou alguns segundos para avistar a mulher que vinha chegando a pé da direção da igreja de Högalid por volta das onze horas. Avistou-a pelo retrovisor. De início, ela não chamou sua atenção, mas quando passou sob um poste de iluminação a cerca de setenta metros atrás dele, Paolo virou rapidamente a cabeça e de imediato reconheceu Miriam Wu.

Endireitou-se no banco. Seu primeiro impulso foi descer do carro. Então percebeu que poderia assustá-la e que o melhor seria esperar ela chegar na frente do prédio.

No exato momento em que essa idéia lhe ocorreu, viu uma caminhonete escura arrancar mais adiante na rua e frear ao lado de Miriam Wu. Estupefato, Paolo Roberto viu um homem - um brutamontes loiro incrivelmente alto - descer pela porta de correr lateral e agarrar Miriam Wu. Ela foi pega totalmente de surpresa. Tentou se soltar recuando para trás, mas o gigante loiro segurava seu braço com força.

Paolo ficou boquiaberto ao ver a perna direita de Miriam Wu se erguer e descrever uma curva rápida. É mesmo, ela pratica kick-boxing. Ela desfechou Pontapé na cabeça do gigante loiro. O golpe pareceu deixá-lo indiferente. Em compensação, levantou a mão e deu uma bofetada em Miriam Wu. Mesmo de longe, Paolo escutou o som da pancada. Miriam Wu caiu, como atingida por um raio. O gigante loiro se inclinou, pegou-a apenas com uma mão e jogou-a dentro da caminhonete. Só então Paolo Roberto fechou a boca e caiu em si. Saltou do carro e correu para a caminhonete.

Logo percebeu a vacuidade do seu gesto. O veículo em que Miriam Wu fora jogada feito um saco de batatas arrancou silenciosamente, fez um retorno e afastou-se rua afora antes mesmo que Paolo Roberto ganhasse velocidade. O carro sumiu na direção da igreja de Högalid. Paolo correu de volta para o seu carro e se atirou ao volante. Arrancou a toda, também fez o retorno e seguiu na direção da igreja. A caminhonete tinha desaparecido quando ele chegou ao cruzamento. Freou e olhou para o lado da Högalidsgatan, então optou por dobrar à esquerda em direção à Hornsgatan.

Chegando à altura da Hornsgatan, o sinal estava vermelho, mas não havia trânsito e ele avançou um pouco para poder dar uma olhada. Os únicos faróis traseiros que conseguiu enxergar estavam entrando à esquerda rumo à ponte de Liljeholmen, perto da Lângholmsgatan. Não conseguiu ver se era mesmo a caminhonete, mas como era o único carro à vista Paolo pôs o pé na tábua. Foi detido por um sinal fechado na Lângholmsgatan e obrigado a deixar passar os carros que vinham de Kungsholmen, enquanto os segundos voavam. Quando o cruzamento ficou vazio, pisou fundo no acelerador e atravessou o sinal fechado, rezando para que nenhum carro de polícia estivesse por ali para detê-lo justo agora.

Ultrapassou, e muito, a velocidade permitida na ponte de Liljeholmen e acelerou ainda mais depois que passou a ponte. Não fazia idéia de onde poderia estar a caminhonete que avistara e não sabia se ela tinha virado na direção de Grõndal ou de Arsta. Resolveu arriscar mais uma vez e pisou fundo no pedal. Estava a mais de cento e cinquenta quilômetros por hora e passou em disparada pelos motoristas cumpridores da lei, refletindo que mais de um deles devia estar anotando sua placa.

À altura de Bredãng, tornou a avistar a caminhonete. Reduziu a distância entre eles a uns cinquenta metros, para poder conferir se era mesmo o veículo certo. Diminuiu a velocidade para noventa quilômetros por hora e se manteve a cerca de duzentos metros da caminhonete. Só então voltou a respirar.

* * *

Miriam Wu sentiu sangue escorrendo pelo pescoço quando caiu dentro da caminhonete. Seu nariz sangrava. A pancada cortara seu lábio inferior e possivelmente lhe quebrara o nariz. O ataque a pegara totalmente de surpresa e toda a sua resistência fora descartada em menos de um segundo. Sentiu o carro arrancando antes mesmo que seu agressor tivesse tempo de fechar a porta. Por um momento, o gigante loiro perdeu o equilíbrio enquanto o carro dava meia-volta.

Miriam Wu se virou e firmou o quadril no piso. Quando o gigante loiro se virou para ela, desfechou-lhe um pontapé. Atingiu-o na têmpora. Viu uma marca no lugar onde o salto bateu. O normal seria ele se machucar.

Ele olhou para ela, chocado. Então sorriu.

Meu Deus, que diabo de Terminator será esse?