Ela deu outro pontapé, mas ele agarrou-lhe a perna e torceu seu pé com tanta brutalidade que ela urrou de dor e foi obrigada a virar de bruços.
Então ele se inclinou sobre ela e esbofeteou-a com a palma da mão. Miriam Wu ficou atordoada, como que atingida por uma maça. Ele se escanchou nas suas costas. Ela tentou empurrá-lo, mas era tão pesado que não conseguiu demovê-lo um milímetro sequer. Ele dobrou-lhe brutalmente os braços às costas e prendeu-os com algemas. Ela estava indefesa. De repente, Miriam Wu se sentiu paralisada de medo.
Mikael Blomkvist passou pelo Globe quando voltava de Tyresjõ. Estivera toda a tarde e noitinha visitando três sujeitos da lista de clientes sexuais. Não dera em absolutamente nada. Topara com indivíduos apavorados, já abalados por Dag Svensson e prontos para ver seu mundo ruir. Tinham suplicado, implorado. Mikael riscara todos de sua lista pessoal de assassinos potenciais.
Ao passar pela ponte de Skanstull pegou o celular e ligou para Erika Berger. Ela não atendeu. Tentou Malu Eriksson. Também não atendeu. Droga. Era tarde. Queria conversar com alguém.
Perguntou-se se Paolo Roberto tinha descoberto alguma coisa sobre Miriam Wu e discou o número dele. Ouviu tocar cinco vezes antes que Paolo atendesse.
- Paolo.
—Oi. É o Blomkvist. Só queria saber como vão as coisas...
—Blomkvist, estou... ssscrrp ssscrrp num carro com a Miriam.
—Não estou escutando.
—Srcp, scrrrraaaap, scrrraaaap.
—A sua voz está sumindo. Não estou escutando. E então a ligação caiu.
Paolo Roberto soltou um palavrão. A bateria do celular acabava de apagar na sua mão, quando passava por Fittja. Apertou no ON e conseguiu reanimar o aparelho. Discou o número do SOS-Brigada, mas assim que atenderam o celular tornou a desligar.
Droga.
Ele tinha um carregador que funcionava no isqueiro do carro, só que estava em casa, em cima do móvel do hall. Jogou o celular no banco do passageiro e se concentrou nos faróis traseiros da caminhonete, que ele queria manter na mira. Dirigia uma BMW com tanque cheio e não havia a mínima possibilidade de a maldita caminhonete se distanciar. Mas não queria ser notado e deixou o espaço entre eles crescer várias centenas de metros.
Um mastodonte movido a anabolizantes nocauteia uma garota na minha frente. Ainda pego esse canalha para trocar umas palavrinhas com ele.
Se Erika Berger estivesse ali o teria chamado de caubói machão. Paolo Roberto chamava isso de ficar bravo.
Mikael Blomkvist passou pela Lundagatan e viu que o apartamento de Miriam Wu estava às escuras. Tentou ligar para Paolo Roberto mais uma vez, só para ser informado que o número estava indisponível. Resmungou um palavrão e voltou para casa para preparar café e sanduíches.
O trajeto durou mais tempo do que Paolo Roberto imaginara. Passaram por Södertálje, depois pegaram a E20 em direção a Stràngnás. Um pouco depois de Nykvarn, a caminhonete entrou à esquerda por estradas secundárias no interior de Sõrmland.
Com isso, aumentava o risco de ele chamar atenção e ser flagrado. Paolo Roberto tirou o pé do acelerador e abriu mais distância entre ele e a caminhonete.
Paolo não era muito bom em geografia, mas até onde podia perceber, passaram a oeste do lago Yngern. Perdeu a caminhonete de vista e acelerou. Chegou a uma linha reta e freou.
A caminhonete tinha sumido. Estradinha não era o que faltava naquele lugar. Ele tinha perdido os canalhas.
Miriam Wu estava com a nuca e o rosto doendo, mas tinha dominado o pânico e a angústia de se ver assim indefesa. Ele tinha parado de bater nela. Ela se sentara, recostada no banco do motorista. Suas mãos estavam algemadas nas costas e havia uma fita adesiva larga tampando sua boca. Tinha uma narina cheia de sangue e sentia dificuldade em respirar.
Fitou o gigante loiro. Desde que a tinha amordaçado, ele não dissera uma palavra sequer e a ignorara solenemente. Ela olhou a marca no lugar onde lhe dera o pontapé que em princípio deveria ter causado algum estrago. Ele parecia nem ter notado. Isso não era normal.
Ele era alto e tremendamente forte. Seus músculos mostravam que ele passava horas por semana numa academia. Mas não era para bombar. Os músculos pareciam naturais. As mãos lembravam enormes frigideiras. Ela entendeu por que tinha tido a impressão de levar uma bordoada quando ele a esbofeteara.
A caminhonete avançava aos solavancos numa estrada em más condições.
Não fazia a menor idéia de onde se encontrava, só achava que tinham rodado pela E4 na direção sul por um bom tempo até enveredar por estradas menores.
Sabia que mesmo que estivesse com as mãos soltas não teria nenhuma chance contra o gigante loiro. Sentia-se totalmente impotente.
Malu Eriksson ligou para Mikael pouco depois das onze da noite, quando ele acabava de chegar e ligar a cafeteira. Estava preparando um sanduíche na cozinha.
—Desculpe eu ligar tão tarde. Faz horas que estou tentando, você não atendia.
—É que eu desliguei o celular enquanto conversava com os clientes sexuais.
—Achei uma coisa que pode ser interessante.
—Estou escutando.
—O Bjurman. Você pediu para eu vasculhar o passado dele.
—Sim.
—Ele nasceu em 1950 e começou o curso de direito em 1970. Formou-se em 1976 e começou a trabalhar no escritório Klang & Reine em 1978, antes de abrir seu próprio escritório em 1989.
—Sei.
—Nesse meio-tempo, entre outras coisas, ele trabalhou um breve período como estagiário no tribunal de instâncias, só umas poucas semanas em 1976. Logo depois do exame, em 1976, trabalhou dois anos, até 1978, como jurista na direção geral da Polícia Nacional.
—Sei.
—Verifiquei as funções dele. Não foi fácil achar. Mas ele instruía casos jurídicos na Säpo. Trabalhava na Brigada dos Estrangeiros.
—Puta merda, repita isso!
—Em outras palavras, ele deve ter trabalhado lá na mesma época que este Bjôrck de Smädalarö.
—Que filho-da-mãe! Björck. Ele não me contou que tinha trabalhado com o Bjurman.
A caminhonete tinha que estar nas redondezas. Paolo Roberto havia ficado tão para trás que em alguns momentos perdera o carro de vista, mas toda vez voltara a localizá-lo, por alguns segundos, até perdê-lo de novo. Fez o retorno pelo acostamento e voltou na direção norte. Dirigia devagar, atento às bifurcações.
A apenas cento e cinquenta metros, avistou de súbito um cone de luz brilhando numa brecha em meio à mata. Divisou uma estradinha florestal do outro lado do caminho e virou naquela direção. Percorreu uns dez metros e estacionou. Não se deu ao trabalho de trancar o carro, voltou correndo para a estrada principal e pulou o barranco. Lamentou não ter trazido uma lanterna enquanto ziguezagueava entre arbustos e mudas de árvores.
A mata formava uma tira estreita rente à estrada e de repente ele se viu num pátio de cascalhos. Avistou algumas construções sombrias e baixas e já ia se aproximando devagar, quando a iluminação sobre o portão de carregamento se acendeu.
Paolo se agachou e não se mexeu mais. Um segundo depois, uma luz foi acesa dentro de uma das construções. O armazém media uns trinta metros de comprimento e ostentava uma estreita fileira de janelas no alto da fachada. O pátio estava cheio de contêineres e, à direita, estava estacionado um caminhão amarelo. Ao lado do caminhão, avistou um Volvo branco. À luz da iluminação externa, percebeu de repente a caminhonete, estacionada apenas vinte e cinco metros adiante.
Uma porta de passagem abriu-se dentro do portão de carregamento bem à sua frente. Um homem loiro de barriga grande saiu do armazém e acendeu um cigarro. Quando ele virou a cabeça, Paolo avistou um rabo de cavalo à luz da abertura.
Paolo não mexeu um dedo, joelho apoiado no chão. Estava totalmente visível, a menos de vinte metros do homem, mas o clarão do isqueiro prejudicara sua visão noturna. Então, Paolo, e também o homem, aparentemente, escutou um grito abafado na caminhonete. Quando o rabo de cavalo avançou em direção ao veículo, Paolo, devagar, deitou-se de bruços.