Ouviu a porta de correr da caminhonete se abrindo e viu o gigante loiro descer, depois inclinar-se para dentro do veículo e tirar de lá Miriam Wu. Pegou-a debaixo do braço e carregou-a sem dificuldade, apesar das tentativas dela de se soltar. Os dois homens trocaram algumas palavras, mas Paolo não conseguiu ouvir o que diziam. Então o homem do rabo de cavalo abriu a porta do motorista e subiu. Arrancou e atravessou o pátio, fazendo uma curva apertada. O feixe dos faróis passou a poucos metros de Paolo. A caminhonete desapareceu num caminho de acesso e Paolo escutou o barulho do motor se distanciando.
Com Miriam Wu debaixo do braço, o gigante loiro entrou no armazém pela porta de passagem. Em seguida, Paolo viu sua silhueta passando por trás das vidraças. Teve a impressão que ele se dirigia a uma área mais afastada da construção.
Levantou-se, todos os sentidos alertas. Sua roupa estava úmida. Sentia-se ao mesmo tempo aliviado e preocupado. Aliviado por ter conseguido achar a caminhonete e estar com Miriam Wu ao alcance da mão, mas também cheio de respeito pelo preocupante gigante loiro que a tratava como se ela não passasse de uma sacola de compras da Konsum. Paolo reparava principalmente em sua enorme estatura e na impressão de força imensa que ele transmitia.
O mais lógico teria sido ir embora e chamar a polícia. Mas seu celular estava mudo e ele tinha apenas uma vaga idéia de onde se encontrava; não estava certo se conseguiria indicar o caminho para chegar até ali. Também não fazia a menor idéia do que estava acontecendo lá dentro com Miriam Wu.
Devagar, deu um semicírculo em volta da construção e constatou que aparentemente só havia uma entrada. Dois minutos depois, estava de volta, ciente de que precisava tomar uma decisão. Paolo já tinha entendido que o gigante loiro não era um mocinho nessa história. O sujeito tinha nocauteado Miriam Wu. Paolo não estava realmente com medo - tinha muita confiança em si próprio e sabia que podia se mostrar eficiente caso fosse preciso chegar às vias de fato. A questão era se o homem lá dentro estava armado, e se havia mais de um. Hesitou. Não devia haver mais ninguém.
O portão de carregamento, amplo o suficiente para dar passagem ao caminhão amarelo estacionado lá fora, tinha uma porta de entrada comum, embutida. Aproximou-se dessa porta, pegou na maçaneta e abriu. Viu-se num grande armazém iluminado por umas poucas lâmpadas, cheio de tralhas, caixas rasgadas e material desarrumado.
Miriam Wu sentia as lágrimas lhe escorrerem no rosto. Não chorava tanto de dor, e sim de medo. Durante o trajeto, o gigante a ignorara totalmente. Quando a caminhonete parou, ele tinha arrancado a fita adesiva. Erguera-a e carregara-a sem nenhum esforço, e a jogara no piso de cimento sem dar ouvidos as suas súplicas e protestos. Quando olhava para ela, era com um olhar gelado.
Miriam Wu compreendeu, de repente, que iria morrer naquele armazém.
Ele lhe deu as costas, se aproximou de uma mesa, abriu uma garrafa de água mineral e bebeu largos goles. Não prendera as suas pernas, e Miriam Wu começou a se levantar.
Ele voltou-se para ela e sorriu. Estava mais perto da porta que ela. Não havia a menor chance de passar na frente dele. Resignada, quedou-se ajoelhada e se enfureceu consigo mesma. Você vai ver se eu me rendo sem lutar. Ficou de pé e cerrou os dentes. Vamos lá, seu Terminator idiota!
Mãos algemadas atrás das costas sentiu-se desajeitada e sem equilíbrio, mas, quando ele se aproximou, ela começou a girar e procurar uma brecha. Desfechou-lhe um pontapé nas costelas, deu uma viravolta e desfechou outro na virilha. Atingiu-o no quadril, recuou um metro e trocou de perna para o golpe seguinte. Com as mãos nas costas, não tinha equilíbrio suficiente para atingir o rosto, mas tascou-lhe um pontapé vigoroso no peito.
Ele estendeu uma mão, agarrou-lhe o ombro e a virou como se ela fosse uma folha de papel. Deu-lhe um soco só, não particularmente forte, na lombar. Miriam Wu urrou enlouquecida quando uma dor paralisante lhe transpassou o diafragma. Caiu de joelhos. Ele ainda lhe deu uma bofetada e ela desmoronou no chão. Ele levantou o pé e desferiu-lhe um pontapé no flanco. Ela ficou sem fôlego e ouviu umas costelas se quebrando.
Paolo Roberto não viu aquela surra, mas de repente ouviu Miriam Wu urrar de dor, um grito forte e estridente, logo interrompido. Voltou a cabeça na direção do som e cerrou os dentes. Havia outra sala, atrás de uma parede divisória. Atravessou o local sem fazer ruído e deu uma olhada cautelosa pela porta entreaberta no instante em que o gigante loiro empurrava Miriam Wu de costas. Ele sumiu alguns segundos de seu campo de visão e voltou de repente com uma serra elétrica que depositou no chão diante dela. Paolo Roberto franziu o cenho.
—Quero uma resposta para uma pergunta simples.
Sua voz era estranhamente aguda, parecia quase a voz de um menino. Paolo notou um sotaque estrangeiro.
—Onde está Lisbeth Salander?
—Eu não sei - murmurou Miriam Wu.
—Essa não é a resposta correta. Vou lhe dar uma segunda chance antes de ligar este negócio.
Ele se agachou e deu uns tapinhas na serra elétrica.
—Onde Lisbeth Salander está se escondendo? Miriam Wu balançou a cabeça.
Paolo hesitou. Mas quando o gigante loiro estendeu a mão para pegar a serra elétrica, deu três passadas decididas sala adentro e enfiou-lhe um gancho de direita na lombar.
Paolo Roberto não se tornara um boxeador mundialmente famoso dando mostras de delicadeza no ringue. Tinha no currículo trinta e três lutas profissionais, das quais vencera vinte e oito. Quando batia em alguém, esperava uma reação. Reação essa que seria, por exemplo, o alguém em questão cair de joelhos e sentir dor em algum lugar. Desta vez, porém, teve a sensação de ter acertado uma parede de cimento. Nunca vivera nada parecido naqueles anos todos de ringue. Olhou estupefato, para o colosso à sua frente.
O gigante loiro se virou e encarou Paolo Roberto com igual estupefação.
—O que você acha de enfrentar alguém da sua categoria? - perguntou Paolo Roberto.
Bateu uma série de direita-esquerda-direita na direção do diafragma, botando força. Legítimas bordoadas. E, de novo, teve a impressão de estar batendo numa parede. O único efeito foi o gigante loiro recuar meio passo, mais surpreso do que abalado pela força dos golpes. E, súbito, sua fisionomia se iluminou num sorriso.
—Você é o Paolo Roberto! - disse.
Paolo estacou, pasmo. Acabava de enfiar quatro golpes que, de acordo com as regras, teriam jogado o gigante loiro no chão, e ele próprio deveria estar voltando para o seu lado do ringue enquanto o juiz abria a contagem. Nenhum dos golpes parecia ter surtido o menor efeito.
Caramba. Isso não é normal.
Depois viu, quase em câmera lenta, o gancho de direita do loirinho cortar o ar. O cara era lento e seu golpe, previsível. Paolo esquivou-se e aparou parcialmente com o ombro esquerdo. Teve a sensação de ter sido atingido por um cano de ferro.
Paolo Roberto recuou dois passos, cheio de um renovado respeito por seu adversário.
Algo está errado. Ninguém bate desse jeito, porra.
Aparou maquinalmente um gancho de esquerda com o antebraço e sentiu de chofre uma dor fulgurante. Não teve tempo de aparar o gancho de direita que surgiu do nada e veio parar em sua testa.
Feito bêbado, Paolo recuou cambaleando até a porta. Estatelou-se ruidosamente contra uma pilha de bancos de madeira e balançou a cabeça. Sentiu imediatamente o sangue escorrendo, abundante, no seu rosto. Arrancou-me o supercílio. Vão ter que me costurar. De novo!
No instante seguinte, o gigante entrou em seu campo de visão e Paolo jogou-se instintivamente para o lado. Esquivou por um fio mais uma bordoada do punho imenso. Recuou rápido três, quatro passos e conseguiu levantar os braços em posição de defesa. Paolo Roberto estava abalado.