Miriam Wu percebeu que não estava minimamente interessada em saber como e por que Paolo Roberto tinha aparecido ali. Ele era do time dos mocinhos. Pela primeira vez na vida, experimentou o desejo assassino de machucar alguém. Deu alguns passos rápidos e mobilizou suas últimas migalhas de energia e os músculos que ainda estavam intactos. Avançou para o gigante pelas costas e enfiou-lhe um pontapé entre as pernas. Não era, decerto, o boxe tailandês segundo as regras da arte, mas o pontapé surtiu efeito.
Miriam Wu meneou a cabeça consigo mesma, com ar entendido. Os caras até podiam ser do tamanho de uma casa e feitos de granito, mas suas bolas ficavam sempre no mesmo lugar. E seu pontapé tinha sido tão puro que deveria ser registrado no Livro Guinness dos recordes.
Pela primeira vez o gigante loiro pareceu abalado. Soltou um gemido, levou a mão aos genitais e caiu de joelhos.
Miriam ficou um ou dois segundos indecisa, até se dar conta de que tinha que prosseguir e tentar acabar com aquilo. Optou por um pontapé na cara, mas ele conseguiu erguer um braço. Normalmente, seria impossível ele se recuperar tão depressa. E era como chutar o tronco de uma árvore. Ele agarrou bruscamente o seu pé, derrubou-a e começou a puxá-la para si. Ela viu o punho dele se levantar, contorceu-se desesperadamente e deu um golpe com sua perna livre. Atingiu-o na orelha no exato instante em que o soco se abatia em sua têmpora. Miriam Wu teve a sensação de ter dado de cabeça numa parede. Viu estrelas e tudo ficou preto diante de seus olhos.
O gigante loiro começou a se levantar.
Foi então que Paolo Roberto acertou a cabeça dele com a tábua na qual tropeçara. O gigante loiro caiu duro, batendo no chão com estardalhaço.
Paolo Roberto contemplou o armazém com uma sensação de irrealidade. O gigante loiro se contorcia no chão. Miriam Wu estava com os olhos vidrados e parecia totalmente nocauteada. Os esforços conjuntos dos dois lhes concediam uma trégua momentânea.
Paolo Roberto tinha dificuldade em se apoiar na perna machucada, desconfiava que um músculo cedera logo acima do joelho. Manquejou até Miriam Wu e colocou-a de pé. Ela começou a se mexer, mas o olhar que lhe dirigiu estava muito incerto. Sem uma palavra, ele puxou-a sobre o ombro e, mancando, se encaminhou para a porta. A dor no joelho direito era tanta que ele vez ou outra pulava numa perna só.
Foi uma libertação ver-se lá fora, no ar escuro e frio. Mas nem pensar em parar. Atravessou o pátio de cascalho e penetrou na mata, refazendo o caminho por onde viera. Assim que chegou no meio das árvores, tropeçou na raiz de um pinheiro caído e desabou. Miriam Wu gemeu e ele ouviu a porta do armazém se abrindo ruidosamente.
O gigante loiro apareceu, silhueta monumental no retângulo iluminado da abertura da porta. Paolo pôs uma mão sobre a boca de Miriam Wu. Inclinou-se e sussurrou em seu ouvido que ficasse em absoluto silêncio.
Então tateou o chão em volta da raiz e achou uma pedra, maior que seu punho fechado. Fez o sinal da cruz. Pela primeira vez em sua vida pecadora, Paolo Roberto estava preparado para matar um ser humano. Machucado e maltratado como estava, não aguentaria mais um round. Mas ninguém, nem aquele monstro loiro que era uma aberração da natureza, podia lutar com a cabeça quebrada. Ele apertou a pedra na mão e sentiu que ela tinha forma oval e uma borda afiada.
O gigante loiro foi até a esquina da construção e, dali, deu uma volta ampla pelo pátio. Parou a menos de dez metros de Paolo, que prendia a respiração. O gigante escutou, espreitou - mas não podia saber para que lado eles tinham se esvanecido noite adentro. Depois de espiar alguns minutos, pareceu entender a inutilidade do seu gesto. Entrou na construção a passos rápidos, ausentando-se um ou dois minutos. Apagou a luz, saiu com uma sacola e dirigiu-se para o Volvo branco. Arrancou a toda e disparou pelo caminho de acesso. Paolo ficou escutando em silêncio, até o ruído do motor sumir ao longe. Baixou o olhar e viu os olhos de Miriam cintilando no escuro.
—Olá, Miriam - disse. —Meu nome é Paolo Roberto, e você não precisa ter medo de mim.
—Eu sei.
A voz dela estava fraca. Esgotado, ele se recostou na imensa raiz e sentiu refluir, no seu corpo, o nível da adrenalina.
—Não sei como vou fazer para chegar lá - disse Paolo -, mas estou com um carro estacionado do outro lado da estrada. A uns cento e cinquenta metros daqui.
* * *
O gigante loiro freou e entrou numa área de parada na estrada a leste de Nykvan. Estava chacoalhado, abalado, e sentia uma coisa estranha na cabeça.
Era a primeira vez na vida que apanhava numa briga. E o homem que lhe passara o corretivo era Paolo Roberto... o famoso boxeador. Parecia um sonho absurdo, do tipo que ele às vezes tinha em noites agitadas. Não conseguia entender de onde Paolo Roberto surgira. Ele simplesmente aparecera do nada no armazém.
Uma coisa totalmente insana.
Ele não sentira os golpes de Paolo Roberto. Isso não o surpreendia. Mas sentira o pontapé entre as pernas. E o tremendo golpe na cabeça quase o nocauteara. Com os dedos, apalpou a nuca e encontrou um galo enorme. Apertou, e não sentiu nenhuma dor. Mesmo assim, sua cabeça rodava. Surpreso, ao tatear com a língua notou que perdera um dente da arcada superior. Sua boca estava com gosto de sangue. Segurou o nariz com o polegar e o indicador, e movimentou-o devagar. Ouviu um estalo na cabeça e constatou que o nariz estava quebrado.
Agira corretamente ao pegar a sacola e sair do armazém antes que a polícia chegasse. Mas cometera um erro colossal. Tinha visto no Discovery Channel que os investigadores eram capazes de achar grande quantidade de provas médico-legais no local de um crime. Sangue. Cabelos, DNA.
Não estava com a menor vontade de voltar para o armazém, mas não tinha escolha. Precisava fazer uma faxina. Deu meia-volta e saiu em sentido contrário. Pouco antes de chegar a Nykvarn, cruzou com um carro sem nem prestar atenção nele.
O trajeto de volta a Estocolmo foi um pesadelo. Paolo Roberto estava com sangue nos olhos e tinha apanhado tanto que seu corpo lhe fazia sofrer um martírio. Ia dirigindo de qualquer jeito e percebeu que ziguezagueava de um lado para o outro da estrada. Enxugou os olhos com uma mão e apalpou o nariz devagarinho. Estava doendo muito mesmo, e ele só conseguia respirar pela boca. Espreitava constantemente um Volvo branco, e teve a impressão de ter cruzado com um perto de Nykvarn.
Ao chegar à E20, ficou mais fácil dirigir. Pensou em parar em Södertálje, mas não tinha idéia de onde poderia ir. Deu uma olhada em Miriam Wu, ainda algemada e arriada, sem cinto de segurança, no banco traseiro. Tivera que carregá-la até o carro, e ela tinha desmaiado assim que foi puxada para dentro. Não sabia se estava desacordada por causa dos ferimentos ou se tinha simplesmente se desconectado de pura exaustão. Hesitou. Por fim, pegou a E4 em direção a Estocolmo.
Mikael Blomkvist estava dormindo havia apenas uma hora quando o telefone começou a tocar. Olhou o relógio, viu que eram pouco mais de quatro da manhã e se esticou para atender, ainda sonolento. Era Erika Berger. De início, não entendeu o que ela dizia.
—Onde é que está o Paolo Roberto?
—No hospital de Sôder, com a Miriam Wu. Ele tentou te ligar, mas você não atendeu o celular e ele não tem o número do seu telefone fixo.
—Desliguei o celular. O que ele está fazendo no hospital? A voz de Erika Berger estava paciente, mas firme.
—Mikael. Pegue um táxi e vá correndo até lá ver o que foi. Ele estava completamente confuso quando me ligou, falou numa serra elétrica, numa casa no meio do mato e num monstro que não sabia lutar boxe.
Mikael pestanejou, sem entender. Então balançou a cabeça e estendeu o braço para pegar a calça.