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Paolo Roberto parecia péssimo, deitado de cuecas numa maca. Fazia mais de uma hora que Mikael esperava para vê-lo. O nariz estava tapado por um curativo. O olho esquerdo estava todo inchado e a sobrancelha ostentava um esparadrapo cirúrgico no lugar em que levara cinco pontos de sutura. Tinha uma bandagem em volta das costelas e ferimentos e arranhões no corpo inteiro. O joelho esquerdo estava envolto numa atadura bem apertada.

Mikael Blomkvist lhe ofereceu café num copinho de papelão da máquina do corredor, e examinou seu rosto com jeito crítico.

—Você está parecendo um carro depois de uma batida - disse. —Me conte o que aconteceu.

Paolo Roberto balançou a cabeça e seu olhar cruzou com o de Mikael.

—Puta de um monstro - ele disse.

—O que aconteceu?

Paolo Roberto balançou mais uma vez a cabeça e olhou para os próprios punhos. As juntas estavam tão machucadas que ele mal conseguia segurar o copinho. Tinham lhe aplicado curativos. A mulher dele apreciava o boxe com restrições e ia ficar furiosa.

—Eu sou um boxeador - disse. —Quero dizer, quando eu estava na ativa, não tinha medo de entrar num ringue contra quem quer que fosse. Levei boas bordoadas, sei dar e receber. Quando ataco alguém, é para o cara cair e sentir dor.

—E não foi isso que aconteceu.

Paolo Roberto balançou a cabeça pela terceira vez. Contou calmamente, em detalhes, os acontecimentos daquela noite.

—Eu acertei o cara umas trinta vezes, pelo menos. Catorze, quinze vezes na cabeça. Atingi o maxilar quatro vezes. No começo, me contive; não queria matar, só me defender. No fim, dei absolutamente tudo de mim. Um golpe meu teria que ter quebrado o maxilar dele. E o puta do monstro só se sacudiu um pouco e continuou batendo. Porra de merda, aquilo não era um ser humano normal.

—Como é que ele é?

—Tem a estrutura de um robô antitanque. Não estou exagerando. Mede mais de dois metros e deve pesar uns cento e trinta, cento e quarenta quilos. Não estou brincando quando eu digo que ele é puro músculo e tem uma ossatura de cimento armado. Um puta gigante loiro que simplesmente não sente dor.

—Você nunca o tinha visto antes?

—Nunca. Não é um boxeador. Mas, estranhamente, ainda assim é um boxeador.

—O que você quer dizer?

Paolo Roberto refletiu um instante.

—Ele ignora tudo de boxe. Eu podia fintar e obrigar ele a abrir a guarda, e ele não tinha a menor idéia de como se movimentar para evitar os golpes. Não dava uma dentro. Mas, ao mesmo tempo, tentava se movimentar igual a um boxeador. Levantava o braço do jeito certo e ficava o tempo todo em posição de partida, feito um boxeador de verdade. Parecia que já tinha treinado boxe, só que sem escutar nada do que os treinadores falavam.

—Certo.

—O que salvou a minha vida, e a vida da garota, é que ele se movimentava superdevagar. Mandava uns swings de amador, avisando com meses de antecedência, de modo que eu conseguia esquivar ou aparar. Levei dois murros: um na cara, e você pode ver o resultado, e outro no corpo, que me quebrou uma costela. Mas foram dois quase-golpes. Se ele tivesse se posicionado direitinho, teria me arrancado a cabeça.

Paolo Roberto começou a rir de repente. Um riso estrondoso.

—O que foi?

—Eu venci. Esse louco varrido tentou me matar, e eu venci. Consegui derrubá-lo. Mas tive que usar a merda de uma tábua para dar o que ele merecia.

Tornou a ficar sério.

—Se a Miriam Wu não tivesse chutado as bolas dele na hora certa, vai saber como isso teria acabado.

—Paolo, estou muito, muito feliz por você ter vencido esta luta. A Miriam Wu vai dizer a mesma coisa quando acordar. Você tem alguma informação sobre o estado dela?

—Está mais ou menos do mesmo jeito que eu. Concussão cerebral, várias costelas partidas, nariz quebrado e um estrago nos rins.

Mikael se inclinou e pôs a mão no joelho de Paolo Roberto.

—Se algum dia você precisar de um favor... - disse Mikael. Paolo Roberto meneou a cabeça e sorriu suavemente.

—Blomkvist, se você precisar de mais um favor...

—Sim.

—...chame o Sebastián Luján.

26 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL

O inspetor criminal Jan Bublanski estava de péssimo humor quando se encontrou com Sonja Modig no estacionamento do hospital de Söder, pouco antes das sete da manhã. Tinha sido acordado pelo telefonema de Mikael Blomkvist. Depois de alguns instantes, compreendera que algo dramático tinha acontecido durante a noite e, por sua vez, tinha ligado e acordado Modig. Encontraram Mikael no hall e foram juntos até o quarto de Paolo Roberto.

Bublanski estava custando a assimilar todos os detalhes, mas acabou por entender que Miriam Wu tinha sido raptada e Paolo Roberto tinha dado uma surra no raptor. Isto posto, ao olhar mais de perto para o ex-boxeador profissional, não ficava claro quem tinha dado uma surra em quem. No que dizia respeito a Bublanski, os acontecimentos da noite tinham alçado a investigação sobre Lisbeth Salander a um novo patamar de complicação. Nada, na porra daquele caso, parecia normal.

Sonja Modig fez a primeira pergunta pertinente, querendo saber como Paolo Roberto tinha entrado na trama.

—Eu sou amigo de Lisbeth Salander. Bublanski e Modig trocaram um olhar cético.

—E o senhor a conhece de onde?

—Salander era minha sparring-partner nos treinos.

Bublanski fixou os olhos num ponto da parede atrás de Paolo Roberto. Sonja Modig caiu numa risada repentina e inconveniente. Ou seja, nada nesse caso parecia normal, simples e descomplicado. Mesmo assim, tinham aos poucos tomado nota de todos os fatos.

—Agora eu gostaria de fazer umas observações - disse Mikael Blomkvist,

seco.

Todos olharam para ele.

—Primeiro. A descrição do homem ao volante da caminhonete corresponde à descrição que eu fiz da pessoa que agrediu Lisbeth Salander, exatamente no mesmo local, na Lundagatan. Um cara alto e loiro, com rabo de cavalo e um barrigão. Certo?

Bublanski meneou a cabeça.

—Segundo. O objetivo desse rapto era obrigar Miriam Wu a revelar o esconderijo de Lisbeth Salander. Logo, os dois bonitões loiros estão atrás da Salander desde pelo menos uma semana antes dos assassinatos. Entendido?

Modig fez que sim com a cabeça.

—Terceiro. Se existem outros personagens nesta história, Lisbeth Salander não é mais a “demente solitária” que quiseram pintar.

Nem Bublanski nem Modig retrucaram.

—Vai ficar difícil argumentar que o cara de rabo de cavalo é membro de um grupo de lésbicas satânicas.

Modig esboçou um sorriso.

—E quarto, para concluir. Acho que esta história tem alguma coisa a ver com um sujeito chamado Zala. O Dag Svensson estava se concentrando nele nas duas últimas semanas. Todas as informações estão no computador dele. O Dag Svensson associava o tal Zala ao assassinato, em Södertálje, de uma prostituta chamada Irina Petrova. A autópsia revelou que ela sofreu violências graves. Tão graves que pelo menos três ferimentos foram mortais. 0 relatório da autópsia é vago no que toca ao instrumento utilizado para matá-la, mas os ferimentos são surpreendentemente parecidos com a violência sofrida pela Miriam Wu e o Paolo. O instrumento, no caso, poderia ser as mãos de um gigante loiro.

—E o Bjurman? - perguntou Bublanski. —Até aceito que alguém pudesse ter um motivo para silenciar o Dag Svensson. Mas quem poderia ter um motivo para eliminar o tutor de Lisbeth Salander?

—Não sei. As peças do quebra-cabeça não estão todas no lugar, mas em algum ponto existe um elo entre o Bjurman e o Zala. É a única explicação plausível. O que vocês acham de começar a desenvolver outro raciocínio? Se a Lisbeth Salander não for culpada, isso significa que outra pessoa cometeu os assassinatos. Acho que esses crimes têm alguma coisa a ver com o comércio do sexo. E a Salander preferiria morrer a se envolver numa coisa desse tipo. Eu já disse, ela é de uma moralidade inabalável.