—Neste caso, qual seria o papel dela?
—Não sei. Testemunha? Adversária? Ela talvez tenha aparecido em Enskede para avisar o Dag e a Mia que a vida deles corria perigo. Não esqueçam que ela é uma investigadora excepcional.
Bublanski pôs a engrenagem para funcionar. Ligou para a polícia de Södertálje e passou o itinerário fornecido por Paolo Roberto, pedindo que achassem um armazém desativado a sudeste do lago Yngern. Depois, ligou para o inspetor Jerker Holmberg - que morava em Flemingsberg e era quem estava mais próximo, portanto, de Södertálje - pedindo que fosse, mais depressa que um raio, se encontrar com a polícia de Södertálje para assisti-los no exame do local.
Jerker Holmberg ligou uma hora mais tarde. Acabava de chegar ao local. A polícia de Södertálje localizara sem dificuldades o armazém. Ele acabava de se incendiar totalmente, com mais dois galpões existentes no mesmo terreno, e os bombeiros estavam apagando o que sobrara do fogo. Não havia dúvida de que fora um incêndio criminoso - dois galões de gasolina tinham sido encontrados nos escombros.
Bublanski sentiu uma frustração muito próxima da fúria.
Que baderna era aquela? Quem era esse gigante loiro? Quem era de fato Lisbeth Salander? E por que era tão impossível encontrá-la?
A situação não ficou nada melhor quando o procurador Richard Ekström veio participar da reunião das nove horas. Bublanski fez um relatório dos trágicos acontecimentos daquela noite. Sugeriu que se dessem outras prioridades à investigação, já que alguns fatos misteriosos tinham vindo complicar o roteiro que servia de base aos trabalhos.
O relato de Paolo Roberto só veio reforçar a história da agressão de Lisbeth Salander na Lundagatan. Com isso, perdia força a hipótese de que os assassinatos eram um ato de loucura cometido por uma mulher sozinha e doente mental. Isso não significava que Lisbeth Salander estivesse livre das suspeitas que pesavam sobre ela - para tanto, precisavam primeiro encontrar uma explicação plausível para as suas digitais na arma do crime -, mas significava que a investigação agora tinha de se concentrar seriamente na possibilidade de um outro culpado. Nesse caso, só existia uma hipótese por enquanto: a teoria de Mikael Blomkvist segundo a qual os homicídios tinham relação com as iminentes revelações de Dag Svensson sobre o comércio sexual. Bublanski apresentou três pontos fundamentais.
A tarefa mais importante no momento consistia em identificar o homem alto e loiro e seu cúmplice de rabo de cavalo, que tinham raptado e torturado Miriam Wu. O homem alto e loiro tinha um aspecto físico tão peculiar que não deveria ser difícil encontrá-lo.
Curt Bolinder observou, com pertinência, que Lisbeth Salander também tinha um aspecto físico peculiar e que depois de três semanas de buscas a polícia ainda ignorava totalmente seu paradeiro.
A segunda tarefa implicava em a direção das investigações ter de destacar um grupo para se concentrar ativamente na suposta lista de clientes sexuais existente no computador de Dag Svensson. Havia nisso um problema logístico. Sem dúvida, o grupo de investigação estava de posse do computador da Millennium utilizado por Dag Svensson, e dos backups em discos ZIP do lap-top desaparecido, mas eles continham pesquisas acumuladas em vários anos, eram literalmente milhares de páginas que eles levariam um tempo enorme para catalogar e entender. O grupo precisava de um reforço, e Bublanski imediatamente designou Sonja Modig para dirigir as operações.
A terceira tarefa consistia em focalizar uma pessoa desconhecida chamada Zala. Para tanto, a equipe pediria ajuda ao grupo especial de investigação sobre o crime organizado, que avisara já ter topado com esse nome em várias oportunidades. A tarefa foi confiada a Hans Faste.
Por fim, Curt Bolinder coordenaria o prosseguimento das buscas a Lisbeth Salander.
O relatório de Bublanski durou apenas seis minutos, mas desencadeou uma discussão de uma hora. Hans Faste estava irredutível em sua resistência a Bublanski, e não procurou disfarçar. Isso muito surpreendeu Bublanski, que decerto nunca gostara de Faste mas sempre o tivera como um policia] competente.
Hans Faste julgava que a investigação devia se concentrar em Lisbeth Salander, pouco importando todas aquelas informações secundárias. Segundo ele, o conjunto de indícios contra Salander era tão claro que no momento seria um absurdo se meter a buscar culpados alternativos.
—Quero dizer, isso tudo é puro blablablá. Temos um caso psiquiátrico que só veio se confirmando ano após ano. Você acha realmente que todos os relatórios do hospital psiquiátrico e do médico legista são pura brincadeira? Ela está ligada ao local do crime. Temos provas de que roda bolsinha e tem uma quantia alta de dinheiro não declarado na conta bancária.
—Estou ciente disso.
—Ela participa de uma espécie de culto lésbico do sexo. E ponho a mão no fogo como essa outra sapatão, a Cilla Norén, sabe mais do que está dizendo.
Bublanski elevou a voz.
—Faste. Pare com isso. Você está completamente obcecado pela perspectiva gay. Não está sendo profissional.
Lamentou imediatamente ter se pronunciado diante do grupo em vez de conversar a sós com Faste. O procurador Ekström interrompeu a discussão. Parecia indeciso sobre o rumo a ser tomado. Por fim, declarou que a linha de Bublanski era válida; passar por cima dele eqüivaleria a afastá-lo do comando da investigação.
—Vamos fazer o que o Bublanski decidiu.
Bublanski deu uma olhada para Steve Bohman e Niklas Eriksson, da Milton Security.
—Pelo que entendi, vocês só estão disponíveis por mais três dias, temos que aproveitar. Bohman, você vai ajudar o Curt Bolinder na busca de Lisbeth Salander. Eriksson, você continua com a Modig.
Ekström refletiu um instante e levantou a mão quando todo mundo estava prestes a sair.
—Outra coisa. Essa história do Paolo Roberto fica entre nós. A mídia vai ficar histérica se entrar outra celebridade na investigação. Portanto, nenhuma palavra sobre isso fora desta sala.
Sonja Modig foi ter com Bublanski logo depois da reunião.
—Perdi a paciência com o Faste. Não foi muito profissional da minha parte - disse Bublanski.
—Eu sei como é - ela sorriu. —Comecei a trabalhar no computador do Svensson na segunda-feira.
—Eu sei. Em que pé estão as coisas?
—Há lá uma dúzia de versões do manuscrito dele, uma quantidade enorme de documentos de pesquisa, e está difícil decidir o que é importante e o que não tem nenhum interesse. Vou precisar de dias e dias só para abrir e percorrer todos os arquivos.
—Niklas Eriksson?
Sonja Modig hesitou. Então se virou e fechou a porta da sala de Bublanski.
—Não quero jogar o cara na lama, mas francamente ele não tem sido muito útil.
Bublanski franziu o cenho.
—Diga lá.
—Não sei. Ele não é um policial de verdade, como o Bohman já foi. Fala um monte de bobagem, demonstra mais ou menos a mesma postura que o Hans Faste em relação a Miriam Wu, e a missão não parece ter grande interesse para ele. Não consigo perceber o que é, mas está na cara que ele tem algum problema com a Lisbeth Salander.
—Ou seja?
—Tenho a sensação de que algo podre está fermentando em algum lugar.
Bublanski meneou a cabeça devagar.
—Sinto muito. O Bohman é legal, mas, para ser sincero, não gosto de ter pessoas de fora na investigação.
Sonja Modig meneou a cabeça.
—Então, o que a gente faz?
—Você vai ter que aguentar até o final da semana. O Armanskij já disse que eles vão parar se não houver nenhum resultado. Vá lá, comece a pesquisar e conforme-se em fazer tudo sozinha.
Sonja Modig interrompeu sua pesquisa quarenta e cinco minutos depois de começar, quando foi afastada da investigação. Foi repentinamente convocada à sala do procurador Ekström, onde Bublanski já se encontrava. Os dois homens estavam vermelhos. O jornalista freelancer Tony Scala acabava de publicar o furo de que Paolo Roberto tinha livrado a sapatona sadomasô Miriam Wu de um sequestrador. O texto continha vários detalhes que nenhuma pessoa alheia à investigação poderia conhecer. Insinuava que a polícia considerava a possibilidade de indiciar Roberto por golpes e ferimentos agravados.