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Ekström já havia recebido vários telefonemas de jornalistas pedindo esclarecimentos sobre o papel do boxeador. Estava a ponto de surtar quando acusou Sonja Modig de ser a responsável pelo vazamento. Modig rechaçou prontamente a acusação, mas foi inútil. Ekström fazia questão de afastá-la da investigação. Bublanski estava furioso. Sem nenhuma hesitação, tomou o partido de Modig.

—A Sonja está dizendo que não foi ela que deixou vazar. Para mim é o suficiente. É loucura afastar uma investigadora experiente, que já está perfeitamente por dentro do caso.

Ekström retrucou com escancarada desconfiança em relação à Sonja Modig. Por fim, sentou-se à sua mesa e fechou-se num mutismo irredutível. Não houve como fazê-lo mudar de idéia.

—Modig, não posso provar que você é a responsável pelos vazamentos, mas não tenho a menor confiança em você nesta investigação. A partir deste momento considere-se afastada. Tire uns dias de folga até o final da semana. Na segunda-feira, vai ser encaminhada para outra missão.

Modig não tinha escolha. Meneou a cabeça e dirigiu-se para a porta. Bublanski a deteve.

—Sonja. Quero afirmar alto e bom som: não acredito um segundo sequer nesta acusação, e você tem toda a minha confiança. Mas não sou eu quem decide. Passe na minha sala antes de ir para casa.

Ela assentiu com a cabeça. Ekström parecia furioso. A fisionomia de Bublanski adquirira uma coloração preocupante.

* * *

Sonja Modig voltou para sua sala, onde ela e Niklas Eriksson estavam trabalhando no computador de Dag Svensson. Sentia-se furiosa e prestes a cair no choro. Eriksson olhou-a dissimuladamente, notou que algo não estava bem, mas não disse nada e ela o ignorou. Sentou-se à sua mesa e ficou olhando para a frente. Um silêncio pesado tomou conta da sala.

Por fim, Eriksson se desculpou e disse que precisava ir ao banheiro. Perguntou se queria que ele lhe trouxesse um café. Ela balançou a cabeça.

Depois que ele saiu, ela se levantou, vestiu a jaqueta, pegou a bolsa e foi até a sala de Bublanski. Ele lhe indicou a cadeira dos visitantes.

—Sonja, eu não vou largar essa história de mão, a menos que o Ekström me afaste da investigação também. Não aceito o que está acontecendo e pretendo ir até o fim. Por enquanto você fica, por ordem minha. Entendeu?

Ela meneou a cabeça.

—Não vai ficar o resto da semana em casa como o Ekström mandou. Eu lhe ordeno que vá à redação da Millennium e converse mais uma vez com o Mikael Blomkvist. Depois, peça simplesmente para ele guiar você pelo disco rígido do Dag Svensson. Eles têm uma cópia lá na Millennium. A gente vai ganhar muito tempo se tiver alguém que já conheça o material e possa eliminar os dados desimportantes.

Sonja Modig respirava um pouco melhor.

—Eu não falei nada para o Niklas Eriksson.

—Eu cuido disso. Ele vai ficar com o Curt Bolinder. Você viu o Hans Faste, por acaso?

—Não. Ele saiu de manhã, logo depois da reunião. Bublanski suspirou.

Mikael Blomkvist deixara o hospital de Söder por volta das oito horas e voltara para casa. Percebeu que nem de longe preenchera sua cota de sono e era absolutamente necessário que estivesse em boa forma para a entrevista daquela tarde com Gunnar Björck em Smâdalaro. Despiu-se e pôs o despertador para tocar às dez e meia, o que lhe deu duas horas de um sono bem merecido. Ao acordar, tomou um banho, fez a barba e vestiu uma camisa limpa antes de sair. Acabava de passar pela praça de Gullmarsplan, quando Sonja Modig ligou para o seu celular. Mikael respondeu que tinha um compromisso e não podia vê-la de jeito nenhum. Ela explicou o que queria e ele a encaminhou para Erika Berger.

Sonja Modig foi até a redação da Millennium. Observou Erika Berger e concluiu que gostava daquela mulher assertiva e segura de si, com suas covinhas e sua franja loira curta. Erika lembrava um pouco uma Laura Palmer com mais idade. Perguntou-se, saindo um pouco do assunto, se Berger também era lésbica, já que, segundo Hans Faste, todas as mulheres desta investigação pareciam ter esta orientação sexual, depois lembrou de ter lido em algum lugar que ela era casada com o artista Lars Beckman. Erika escutou seu pedido de ajuda para percorrer o conteúdo do disco rígido de Dag Svensson. Pareceu incomodada.

—Só tem um problema - disse Erika Berger.

—Diga - disse Sonja Modig.

—Não que a gente não queira que os assassinatos sejam esclarecidos, ou não queira colaborar com a polícia. Aliás, vocês já estão com todo o material do computador do Dag Svensson. O problema é um dilema ético. Mídia com polícia não dá um bom casamento.

—Acredite. Pude entender isso muito bem hoje de manhã - Sonja Modig sorriu.

—Como assim?

—Nada. Foi só uma observação.

—Certo. Para manter sua credibilidade, a imprensa deve observar uma distância bem clara em relação às autoridades. Os jornalistas que andam pelas delegacias colaborando nas investigações policiais acabam virando lacaios da polícia.

—Já cruzei com alguns tipos assim - disse Modig. —Se entendi bem, a recíproca também é verdadeira. Policiais que viram lacaios de alguns jornais.

Erika Berger riu.

—É verdade. Infelizmente, devo informar que aqui na Millennium a gente simplesmente não tem recursos para praticar este tipo de jornalismo interesseiro. Não estamos falando de um interrogatório dos colaboradores da Millennium - a gente acataria sem discutir - e sim de um pedido formal para que a Millennium colabore ativamente na investigação colocando à disposição seu material jornalístico. Sonja Modig meneou a cabeça.

—Existem dois aspectos. Primeiro, trata-se do assassinato de um colaborador desta revista. Por esse prisma, é evidente que vamos fornecer toda a ajuda que vocês pedirem. Mas o outro aspecto é que existem coisas que não podemos entregar à polícia. Falo das nossas fontes.

—Eu sei ser flexível. Posso me comprometer a proteger as fontes de vocês. Aliás, elas não me interessam.

—Não se trata das suas boas intenções e nem da confiança que temos em você. Trata-se do fato de que nunca se revela uma fonte, qualquer que seja a circunstância.

—Certo.

—E também existe o fato de que, aqui na Millennium, estamos fazendo nossa própria investigação sobre os assassinatos, o que deve ser encarado como um trabalho jornalístico. Estou pronta a fornecer informações à polícia quando tivermos algo para publicar. Mas não antes.

Erika Berger franziu a testa e refletiu. Por fim, meneou a cabeça, pensativa, e prosseguiu.

—Mas eu também tenho que conseguir me olhar no espelho. Vamos fazer assim... Você vai trabalhar com a nossa colaboradora Malu Eriksson. Ela conhece muito bem o material e tem a competência necessária para definir os limites. Ela fica encarregada de guiar você pelo livro do Dag Svensson, do qual você já tem uma cópia. O objetivo será estabelecer um inventário compreensível das pessoas que podemos considerar suspeitos em potencial.

Irene Nesser desconhecia o drama que se desenrolara naquela noite quando pegou o trem de subúrbio de Sõdra Station para Södertálje. Vestia uma jaqueta de couro semilonga, calças escuras e um pulôver vermelho bem-cuidado. Usava óculos, erguidos sobre a cabeça.

Em Södertálje, achou o ônibus para Strángnãs e comprou uma passagem para Stallarholmen. Desceu ao sul de Stallarholmen pouco depois das onze da manhã. Estava num ponto de ônibus e dali não avistava nenhuma habitação. Visualizou mentalmente o mapa. O lago Mãlaren ficava poucos quilômetros a nordeste, e pelo campo se espalhavam várias casas de veraneio, mas também algumas habitadas o ano inteiro. A propriedade do Dr. Nils Bjurman situava-se numa zona de casas de veraneio, a cerca de três quilômetros do ponto do ônibus. Tomou um gole de água da garrafa plástica e se pôs a caminho. Chegou quarenta e cinco minutos depois.