Primeiro deu uma volta pelo lugar, só para ter uma idéia da vizinhança. À direita, a casa mais próxima ficava a mais de cento e cinquenta metros. Não havia ninguém. À esquerda, estendia-se um fosso comprido. Passou mais duas casas antes de chegar a uma aldeiazinha de veraneio, onde o único sinal de presença humana era uma janela aberta e o som de um rádio. Mas isso era a trezentos metros da casa de Bjurman. Poderia trabalhar com relativa tranqüilidade.
Tinha trazido as chaves encontradas no apartamento de Bjurman e não teve dificuldade para entrar. Sua primeira providência foi abrir uma veneziana nos fundos, o que lhe oferecia uma saída de emergência em caso de problema pela frente. O problema que ela imaginava era algum tira de repente ter a idéia de visitar a casa.
A casa de Bjurman era uma construção antiga e pequena que comportava uma sala, um quarto e uma cozinha integrada com água corrente. A toalete ficava nos fundos do jardim. Lisbeth passou vinte minutos vasculhando armários, roupeiros e cômodas. Não achou nenhum pedaço de papel relacionado com Lisbeth Salander ou Zala.
Por fim, saiu para o jardim e examinou a toalete e um depósito de lenha. Não havia nada interessante e nenhum documento. Tinha feito aquela viagem por nada.
Sentou-se nos degraus da entrada, tomou água e comeu uma maçã.
Quando passou pelo hall para fechar a veneziana, seu olhar topou com uma escada de alumínio. Voltou para a sala e examinou o teto de lambri. O alçapão do sótão, entre duas vigas, era praticamente invisível. Foi buscar a escada, abriu o alçapão e deparou de imediato com cinco arquivos A4.
O gigante loiro estava aborrecido. As coisas tinham dado errado e ocorrera uma sucessão de catástrofes.
Sandström tinha entrado em contato com os irmãos Ranta. Apavorado, contara que Dag Svensson estava preparando uma reportagem revelando as histórias de puta dele e denunciando os irmãos Ranta. Até aí, o problema não era tão grande. A imprensa denunciar Sandström não afetava o gigante loiro, e os irmãos Ranta poderiam ficar na moita por uns tempos. Eles então cruzaram o Mar Báltico a bordo do Baltic Star para tirar umas férias. Havia pouca chance de essas bobagens acabarem no tribunal, mas, se acontecesse o pior, eles saberiam se virar. Estava estipulado no contrato.
Em compensação, Lisbeth Salander tinha conseguido escapar de Magge Lundin. Não dava para entender, já que a Salander era do tamanho de uma boneca se comparada a Lundin, e a missão dele se limitava a enfiá-la num carro e levá-la até o armazém ao sul de Nykvarn.
Depois, Sandström recebera outra visita, e desta vez Dag Svensson estava na pista de Zala. Isso mudava completamente a situação. Entre o pânico de Bjurman e a bisbilhotice de Dag Svensson, criara-se uma situação potencialmente perigosa.
Um amador é um gângster que não está preparado para assumir as conseqüências. Bjurman era um completo amador. O gigante loiro desaconselhara Zala a ter qualquer tipo de negócio com Bjurman. Mas, para Zala, o nome de Lisbeth Salander era irresistível. Ele odiava Salander. Era algo absolutamente irracional. Agira por impulso.
Tinha sido puro acaso o gigante loiro estar na casa de Bjurman na noite em que Dag Svensson ligou. O mesmo jornalista escroto que já tinha criado problema com Sandström e os irmãos Ranta. O gigante tinha ido até lá para acalmar o advogado, ou ameaçá-lo se necessário, por causa do rapto falhado de Lisbeth Salander, e o telefonema de Svensson deixara Bjurman num pânico tremendo. Ele se mostrara tapado e irredutível. E de repente quis cair fora.
Para completar, Bjurman foi buscar aquele revólver de caubói dele para ameaçá-lo. O gigante loiro encarou Bjurman, pasmo, e arrancou-lhe a arma. Estava de luvas e não corria o risco de deixar impressões digitais. Na verdade, não tivera escolha, uma vez que Bjurman começara a amarelar.
Bjurman sabia da existência de Zala. E nesse sentido representava um fardo. O gigante loiro não saberia explicar por que tinha obrigado Bjurman a tirar a roupa, a não ser pelo fato de querer deixar bem claro o quanto o detestava. Quase fraquejou ao ver a tatuagem em sua barriga:
SOU UM PORCO SÁDICO, UM CANALHA ESTUPRADOR.
Por um breve instante, quase sentiu pena de Bjurman. Era um idiota completo. Mas o gigante loiro atuava num ramo em que não podia permitir que tais sentimentos secundários viessem perturbar as atividades práticas. Levara-o, portanto, até o quarto, obrigara-o a se ajoelhar e então usara um travesseiro como silenciador.
Ficara cinco minutos vasculhando o apartamento de Bjurman, vendo se havia algo que pudesse ser um elo com Zala. A única coisa que encontrou foi o número de seu próprio celular. Por precaução, pegara o celular de Bjurman.
Dag Svensson era o problema seguinte. Quando encontrassem Bjurman morto, Dag Svensson obviamente iria ligar para a polícia. Poderia contar que Bjurman fora assassinado poucos minutos depois de eles terem falado ao telefone a respeito de Zala. Não era preciso muita imaginação para ver que aquilo transformaria Zala em objeto de amplas especulações.
O gigante loiro se considerava um cara esperto, mas tinha um respeito enorme pelo temível talento estratégico de Zala.
Eles trabalhavam em colaboração havia quase doze anos. Tinha sido uma década frutífera, e o gigante loiro via Zala com respeito, quase como um mentor. Podia ficar horas escutando Zala discorrer sobre a natureza humana e suas fraquezas, e como tirar vantagem delas.
De repente, porém, os negócios tinham dado para balançar. As coisas estavam começando a sair errado.
Fora direto da casa de Bjurman para Enskede e estacionara o Volvo branco duas quadras adiante. Por sorte, a porta do hall não estava bem fechada. Subira e tocara a campainha da porta identificada como Svensson-Bergman.
Não tivera tempo de vasculhar o apartamento nem de pegar documentos. Dera dois tiros - havia também uma mulher no apartamento. Depois, pegou o computador de Dag Svensson na mesa da sala, deu meia-volta, desceu a escada, foi até o carro e saiu de Enskede. Seu único furo tinha sido deixar cair o revólver na escada enquanto tentava pegar a chave do carro ao mesmo tempo que equilibrava o computador, tudo para ganhar tempo. Detivera-se por um décimo de segundo, mas o revólver tinha rolado pela escada do porão e ele achou que ia demorar muito se tentasse recuperá-lo. Sabia muito bem que as pessoas se lembravam dele depois de vê-lo uma vez, e o mais importante era sumir dali antes que alguém o visse.
O revólver perdido lhe valera uma reprimenda de Zala. Mas ambos tiveram a maior surpresa da vida quando a polícia se lançou atrás de Lisbeth Salander. A arma transformara-se assim num feliz e inacreditável acaso.
Infelizmente, ela criava também mais um problema. Salander era o único elo frágil que restava. Conhecia Bjurman e conhecia Zala. Sabia somar dois mais dois. Zala e ele concordaram quando discutiram o assunto. Precisavam encontrar Salander e enterrá-la em algum lugar. Seria perfeito se nunca a encontrassem. A investigação dos assassinatos iria aos poucos para os arquivos e se cobriria de poeira.
Tinham apostado que Miriam Wu os levaria até Salander. E, de repente, tudo dera errado de novo. Paolo Roberto. Entre tanta gente. Surgido do nada. E, segundo a imprensa, era igualmente amigo de Lisbeth Salander.
O gigante loiro estava atônito.