Depois de Nykvarn, havia buscado refúgio na casa de Magge Lundin em Svavelsjõ, a apenas poucas centenas de metros do quartel-general do MC Svavelsjö. Não era o esconderijo ideal, mas ele não tinha muita alternativa e precisava a todo custo de um lugar para se entocar até que sumissem os hematomas do seu rosto e que ele pudesse deixar discretamente a região de Estocolmo. Mexeu no nariz quebrado e apalpou o galo na nuca. Já não estava tão inchado.
Ele fizera bem em voltar lá e atear fogo naquela droga toda. Era sempre bom fazer uma faxina ao sair.
De repente, ficou paralisado.
Bjurman. Ele se encontrara com Bjurman uma vez, muito rapidamente, na casa de campo dele, perto de Stallarholmen, no início de fevereiro, quando Zala concordara em se encarregar da Salander. Bjurman possuía um arquivo, que ele tinha folheado, com documentos sobre Salander. Droga, como é que ele tinha deixado passar isso? O arquivo poderia levar até Zala.
Ele desceu até a cozinha e explicou a Magge Lundin por que este devia ir com a maior urgência até Stallarholmen e acender mais um braseiro.
O inspetor criminal Bublanski dedicou seu intervalo de almoço tentando colocar ordem naquela investigação que, ele sentia, estava saindo dos trilhos. Passou um bom tempo com Curt Bolinder e Steve Bohman, coordenando a caçada a Lisbeth Salander. Tinham chegado novas pistas de Göteborg e Norrkõping, entre outros. Göteborg foi rapidamente eliminada, mas a pista de Norrkõping tinha um ligeiro potencial. Passaram a informação para os colegas de lá e destacaram uma vigilância discreta num endereço em que fora assinalada a presença de uma garota que lembrava Lisbeth Salander.
Tentou ter uma conversa diplomática com Hans Faste, mas este não estava na casa e não atendia o celular. Depois da reunião tumultuada daquela manhã, Faste tinha sumido, espumando de raiva.
Então Bublanski se confrontou com o chefe das investigações preliminares, Richard Ekström, para tentar resolver o problema Sonja Modig. Gastou um bom tempo expondo as razões objetivas que o levavam a achar uma insensatez afastá-la da investigação. Ekström negou-se a ouvir e Bublanski resolveu deixar passar o fim de semana antes voltar a tocar naquele assunto idiota. A relação entre o chefe das investigações e o chefe do inquérito preliminar estava ficando insustentável.
Pouco depois das três, ele passou no corredor e viu Niklas Eriksson saindo da sala de Sonja Modig, onde ele ainda estava revisando o conteúdo do disco rígido de Dag Svensson. O que, na opinião de Bublanski, tinha se tornado absurdo já que Eriksson não contava mais com um legítimo funcionário da polícia para auxiliá-lo na pesquisa. Resolveu juntar Niklas Eriksson e Curt Bolinder pelo resto da semana.
Mas, antes que eles tivessem tempo de trocar uma palavra, Eriksson desapareceu no banheiro no fim do corredor. Bublanski coçou a orelha e se aproximou da sala de Sonja Modig para aguardar a volta de Eriksson. Em pé diante da porta aberta, contemplou a cadeira vazia de Sonja.
Então seu olhar bateu no celular de Niklas Eriksson, largado na prateleira atrás da mesa de trabalho.
Bublanski hesitou um segundo e deu uma olhada em direção à porta do banheiro, ainda fechada. Depois, cedendo a um impulso, entrou na sala, pegou o celular, voltou a passos rápidos para sua própria sala e fechou a porta atrás de si. Percorreu a lista de chamadas feitas.
Às 9h57, cinco minutos antes de acabar a tumultuada reunião daquela manhã, Niklas Eriksson ligara para um número com prefixo 070. Bublanski pegou o telefone fixo de sua mesa e discou o número. O jornalista Tony Scala atendeu.
Ele desligou e ficou olhando o celular de Eriksson. Depois, se levantou feições alteradas pela raiva. Tinha dado dois passos em direção à porta quando o telefone de sua mesa tocou. Voltou e rugiu o seu nome no aparelho.
—É o Jerker. Continuo aqui no armazém de Nykvarn.
—Ah, é?
—O incêndio acabou. Já faz duas horas que estamos examinando o local. A polícia de Södertálje mandou trazerem um cachorro para farejar a área, para o caso de haver alguém entre os escombros.
—E?
—Não havia ninguém. Mas fizeram um intervalo para o cachorro descansar um pouco o focinho. Diz o adestrador que é necessário, porque no local de um incêndio os cheiros são realmente muito fortes.
—Vá logo ao que interessa.
—Ele foi dar uma volta e soltou o cachorro um pouco mais adiante. 0 bicho se manifestou uns setenta e cinco metros atrás do armazém, já no meio do mato. Cavaram. Faz dez minutos, acharam uma perna humana, com pé e sapato. Tudo indica que é um sapato de homem. Os pedaços não estavam enterrados muito fundo.
—Droga! Jerker, você tem que...
—Já assumi o comando das operações no local da descoberta e interrompi a escavação. Quero um médico legista e técnicos de verdade antes de continuar.
—Excelente trabalho, Jerker.
—Não é só isso. Há uns cinco minutos, o cachorro voltou a se manifestar, a uns cem metros do primeiro ponto.
Lisbeth Salander tinha feito café no fogão de Bjurman, comido outra maçã e passado duas horas lendo, página por página, a investigação que Bjurman fizera sobre ela. Estava impressionada. Ele pusera um bocado de energia na tarefa e sistematizara as informações como se se tratasse de um apaixonante passatempo. Encontrara informações a seu respeito de cuja existência ela própria ignorava.
Leu o diário de Holger Palmgren com sentimentos contraditórios. Eram dois blocos de anotações encadernados. Ele começara a redigir aquelas notas quando ela tinha quinze anos e acabava de fugir de sua segunda família adotiva, um casal idoso de Sigtuna, cujo marido era sociólogo e a mulher, escritora de livros infantis. Lisbeth tinha ficado doze dias com eles, sentira que eles estavam extremamente orgulhosos por cumprirem uma obra social ao se compadecerem dela, e esperavam que ela expressasse uma profunda gratidão. Lisbeth não aguentou quando sua mãe adotiva absolutamente temporária se autoelogiara para uma vizinha, destacando a importância de tomar conta de jovens com problemas manifestos. Não sou uma porcaria de um projeto social, ela queria gritar toda vez que sua mãe adotiva a exibia aos amigos. Passados doze dias, roubara cem coroas do cofrinho do casal e pegara o ônibus para Upplands-Vásby, e em seguida o trem de subúrbio para Estocolmo. A polícia a encontrara seis semanas depois, refugiada na casa de um vovô de sessenta e sete anos em Haninge.
Ele tinha sido correto. Oferecera-lhe teto e comida. Ela não precisou fazer muita coisa em troca. Ele queria olhar para ela pelada. Jamais encostava em Lisbeth. Ela sabia que o velho era considerado um pedófilo, mas nunca sentira nenhuma ameaça da parte dele. Via-o como uma criatura fechada e socialmente deficiente. Posteriormente, chegava até a sentir um estranho sentimento de parentesco quando pensava nele. Os dois viviam completamente à margem.
Um vizinho acabara reconhecendo-a e alertara a polícia. Uma assistente social fizera esforços imensos para convencê-la a dar queixa por abuso sexual. Ela se negara obstinadamente a admitir que acontecera alguma coisa imprópria, e de todo modo tinha quinze anos e já era sexualmente maior de idade. Vão se catar! Em seguida, Holger Palmgren interviera e a tirara de lá. Palmgren começara a escrever um diário sobre ela, no que parecia uma tentativa frustrada de lidar com suas próprias dúvidas. As primeiras frases tinham sido registradas em dezembro de 1993.
L. parece, definitivamente, ser a menina mais difícil que já conheci. A questão é saber se estou agindo certo ao me opor a uma nova internação no Sankt Stefan. Ela já deu cabo de duas famílias adotivas em três meses e corre um risco evidente de sofrer conseqüências por suas fugas. Tenho que decidir se desisto, ou não, desta missão e se peço que ela seja encaminhada a especialistas. Não sei o que seria bom ou mau. Hoje tive uma conversa séria com ela.
Lisbeth recordava cada palavra daquela conversa séria. Era véspera de Natal. Holger Palmgren a levara para sua casa e lhe oferecera o quarto de hóspedes. Preparara um espaguete à bolonhesa para o jantar, depois a convidara a se sentar no sofá da sala, sentando-se ele próprio numa cadeira diante dela. Ela se perguntara vagamente se Palmgren também ia querer vê-la pelada. Em vez disso, ele falara com ela como se ela fosse adulta.