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Mikael meneou a cabeça para mostrar que estava acompanhando.

—O orfanato ficava numa cidade de guarnição e era mantido pelo Exército Vermelho. Pode-se dizer que Zalachenko teve uma formação militar bastante precoce. Isso foi durante os piores anos do stalinismo. Depois da queda da União Soviética, foram encontradas pilhas de documentos comprovando a realização de diversos experimentos no sentido de criar um esquadrão de soldados de elite especialmente treinados e recrutados entre os órfãos a cargo do Estado. Zalachenko era um deles.

Mikael meneou outra vez a cabeça.

—Resumindo. Com cinco anos de idade, ele foi colocado num colégio militar. Lá, perceberam que ele era muito inteligente. Quando fez quinze anos, em 1955, foi transferido para uma escola militar em Novossibirsk, onde, com outros dois mil alunos, passou por um treinamento equivalente ao das spetsnaz, as unidades de elite russas.

—Certo. Um soldadinho valoroso.

—Em 1958, já com dezoito anos, foi mandado para Minsk a fim de receber a formação especial do GRO. Sabe o que era o GRO?

—Acho que sim.

—Literalmente, significa Glavnoe razvedivatelnoe oupravlenie, o serviço de informações e ação militar diretamente subordinado ao mais alto comando militar do Exército. Não confundir o GRO com a KGB, que era a polícia secreta civil.

—Eu sei.

—Nos filmes de James Bond, os grandes espiões que atuam no estrangeiro são, em geral, caras da KGB. Na verdade, a KGB era antes de mais nada um serviço de segurança interno do regime que geria campos de prisioneiros na Sibéria e eliminava os opositores do regime com uma bala na nuca nos porões da Lubianka. Quem respondia pela espionagem e pelas operações além das fronteiras era em geral o pessoal do GRO.

—Isso está ficando com cara de aula de história. Continue.

—Aos vinte anos, Alexander Zalachenko obteve sua primeira nomeação no estrangeiro. Foi mandado para Cuba. Era uma fase de treinamento, ele na época só tinha a patente correspondente ao alferes. Mas permaneceu lá dois anos, e viveu a crise cubana e a invasão da Baía dos Porcos.

—Certo.

—Em 1963, voltou para Minsk a fim de prosseguir sua formação. Então foi nomeado, primeiro na Bulgária, depois na Hungria. Em 1965, foi promovido a tenente e obteve seu primeiro posto na Europa Ocidental, em Roma, onde serviu durante um ano. Foi sua primeira missão under cover. Era, portanto, um civil com um passaporte falso e sem nenhum contato com a embaixada.

Mikael meneou a cabeça. Sem querer, estava começando a ficar fascinado.

—Em 1967, foi transferido para Londres. Lá, organizou a execução de um desertor da KGB. Nos dez anos seguintes, tornou-se um dos melhores agentes do GRO. Pertencia à legítima elite dos soldados políticos dedicados. Tinha sido adestrado desde menino. Fala fluentemente pelo menos seis línguas. Já se fez passar por jornalista, fotógrafo, designer, marinheiro... o que você puder imaginar. Era especialista na arte da sobrevivência, especialista em camuflagem e manobras diversionistas. Tinha seus próprios agentes e organizava ou efetuava suas próprias operações. Muitas eram missões de eliminação, das quais boa parte se deram no Terceiro Mundo, mas ele lidou igualmente com chantagem, ameaças ou qualquer tipo de ação que seus superiores queriam que ele efetuasse. Em 1969, passou a capitão, em 1972 a comandante e, em 1975, foi promovido a tenente-coronel.

—Como ele veio parar na Suécia?

—Estou chegando lá. Com o passar dos anos, foi se envolvendo com corrupção e juntou, aqui e ali, um pequeno pé-de-meia. Bebia demais e se metia em muitas histórias com mulheres. Seus superiores estavam a par, mas ele ainda era um dos favoritos e fizeram vista grossa enquanto tudo não passou de coisas sem importância. Em 1976, foi enviado numa missão na Espanha. Não vou entrar em detalhes, mas ele tomou um porre e fez um belo de um estrago. A missão fracassou e, de repente, ele caiu em desgraça e recebeu ordem de voltar para a Rússia. Optou por ignorar essa ordem e acabou numa situação ainda pior. O GRO ordenou a um adido militar da embaixada em Madri que entrasse em contato com ele e lhe desse uns conselhos. Alguma coisa simplesmente desandou na conversa e Zalachenko matou o homem da embaixada. Com isso, já não tinha escolha. Não podia voltar atrás e resolveu saltar às pressas do trem em movimento.

—Entendo.

—Desertou na Espanha, forjando uma pista que parecia levar a Portugal e, eventualmente, a um acidente de barco. Também plantou uma pista sugerindo que fugira para os Estados Unidos. Na verdade, optou por se refugiar no país mais improvável da Europa. Veio para a Suécia, entrou em contato com a Säpo e pediu asilo político. O que, na verdade, foi muito bem pensado, já que a probabilidade de um esquadrão da morte da KGB ou do GRO ir procurar por ele aqui era praticamente nula.

Gunnar Björck calou-se.

—E então?

—O que faz um governo quando um dos maiores espiões da União Soviética de repente resolve jogar tudo para o alto e pedir asilo político na Suécia? Foi bem na época em que estávamos com um governo de direita, e, aliás, esse foi um dos primeiros casos que tratamos com o novo primeiro-ministro, políticos, medrosos como são, tentaram, é claro, se livrar dele o mais rápido possível, mas também não podiam mandá-lo de volta para a União Soviética. Teria sido um escândalo colossal. Em vez disso, tentaram mandá-lo para s Estados Unidos ou Inglaterra, mas o Zalachenko recusou. Não gostava os Estados Unidos e, segundo ele, a Inglaterra era um país em que a União Soviética mantinha agentes de informação de primeiríssimo nível. Ele não queria ir para Israel porque não gostava de judeus. Portanto, resolveu que iria se estabelecer na Suécia mesmo.

Aquilo tudo parecia tão inverossímil que Mikael se perguntou vagamente se Gunnar Björck não estaria enrolando.

—E ele acabou ficando na Suécia?

—Exatamente.

—E isso tudo nunca veio a público?

—Foi, por muitos anos, um dos segredos militares mais bem guardados a Suécia. Ocorre que Zalachenko era muito útil para nós. Durante certo período, no final dos anos 1970 e início dos 1980, ele foi a joia da coroa dos desertores, mesmo se comparado ao que acontecia além das fronteiras sueis. Nunca o chefe de operações de um dos comandos de elite do GRO tinha desertado.

—Isso quer dizer que ele tinha informações para nos vender?

—Exato. Ele manejava bem seus trunfos e destilava informações quando era mais favorável para ele. Informações suficientes para que pudéssemos identificar um agente no quartel-general da OTAN em Bruxelas; um agente ilegal em Roma; o contato de uma rede de espiões em Berlim; o nome dos assassinos profissionais que ele contratara em Ankara ou Atenas. Ele não sabia muito sobre a Suécia, mas detinha informações sobre operações no exterior que podíamos igualmente repassar em troca de outras coisas. Ele era a nossa mina de ouro.

—Em outras palavras, vocês passaram a colaborar com ele.

—Conseguimos uma nova identidade para ele, só tivemos que oferecer um passaporte e algum dinheiro, depois ele se virou sozinho. Ele tinha sido treinado exatamente para isso.

Mikael calou-se alguns instantes a fim de digerir essas informações. Então ergueu os olhos para Björck.

—Você mentiu na última vez em que estive aqui.

—Como assim?

—Você disse que tinha conhecido Bjurman no clube de tiro da polícia nos anos 1980. Na verdade, vocês se conheceram bem antes.

Gunnar Björck meneou a cabeça, pensativo.

—Foi uma reação automática. Isso tudo é confidencial e não havia motivo para eu contar como conheci o Bjurman. Foi só quando você perguntou sobre o Zala que eu fiz a relação.

—Conte como foi.