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Seu olhar bateu num nome da lista. Gunnar Björck.

—Esse nome está sem endereço.

—É.

—Por quê?

—Ele trabalha na Säpo, o endereço dele é sigiloso. Mas no momento está de licença médica. O Dag Svensson não conseguiu encontrá-lo.

—E vocês, conseguiram? – perguntou Sonja Modig, sorrindo.

—Pergunte ao Mikael.

Sonja Modig fitou a parede acima da mesa de Dag Svensson. Refletiu.

—Eu posso lhe fazer uma pergunta pessoal?

—Pois não.

—Aqui na Millennium, quem vocês acham que é o assassino dos seus amigos e do doutor Bjurman?

Malu Eriksson não disse nada. Gostaria que Mikael Blomkvist estivesse ali para lidar com aquelas perguntas. Era desagradável ser inquirida daquele jeito, mesmo sendo absolutamente inocente. Mais desagradável ainda era não poder explicar em que pé estavam as conclusões da Millennium. Nisso, escutou a voz de Erika Berger atrás de si.

—Partimos do princípio de que os assassinatos visavam impedir a divulgação de uma das denúncias em que o Dag Svensson vinha trabalhando. Mas não sabemos quem atirou. O Mikael está se concentrando num desconhecido chamado Zala.

Sonja Modig se virou e olhou para a diretora da Millennium. Erika Berger ofereceu uma caneca de café para Malu e outra para Sonja. Uma ostentava o logotipo do sindicato dos funcionários e a outra, dos democrata-cristãos. Erika Berger sorriu educadamente. Em seguida, voltou para sua sala.

Retornou três minutos depois.

—Modig. O seu chefe acaba de telefonar. Seu celular está desligado. E para você ligar para ele.

O incidente na casa de campo de Bjurman desencadeou a tarde toda, uma atividade febril. Foi lançado um alerta nacional com a informação de que Lisbeth Salander enfim dera sinal de vida. O alerta informava que ela provavelmente estava se locomovendo numa Harley Davidson pertencente a Magge Lundin. Esclarecia que Salander estava armada e tinha atirado numa pessoa em frente a uma casa de campo perto de Stallarholmen.

A polícia colocou barreiras nos acessos a Strángnàs e Mariefred, e em todos os acessos a Södertálje. Os trens de subúrbio entre Södertálje e Estocolmo foram revistados à noite durante várias horas. Porém, nenhuma moça baixinha, com ou sem Harley Davidson, foi encontrada.

Só por volta das dezenove horas é que um carro de polícia encontrou uma Harley abandonada, estacionada em frente ao Parque de Exposições de Estocolmo em Àlvsjõ, o que transferiu as investigações de Södertálje para Estocolmo. De Àlvsjõ também chegou a notícia de que um pedaço de jaqueta de couro com o logotipo do mc Svavelsjõ havia sido encontrado. O achado levou o inspetor Bublanski a empurrar os óculos para a testa e contemplar, aborrecido, a escuridão lá fora, em Kungsholmen.

Aquele dia se transformara numa total escuridão. O sequestro da amiga de Salander, a intervenção de Paolo Roberto, mais um incêndio criminoso e delinquentes enterrados nas matas de Södertálje. E, para encerrar, um caos incompreensível em Stallarholmen.

Bublanski foi até a sala grande de trabalho e examinou um mapa de Estocolmo e redondezas. Seu olhar passou de Stallarholmen para Nykvarn, depois para Svavelsjõ, detendo-se em Àlvsjõ, as quatro localidades que, por motivos totalmente distintos, tinham entrado na história. Então pôs o olhar em Enskede e suspirou. Tinha a desagradável sensação de que a polícia estava quilômetros atrás do desenrolar dos fatos. Não conseguia entender nada. Quaisquer que fossem os bastidores dos assassinatos de Enskede eram muito mais complexos do que eles tinham pensado inicialmente.

Mikael Blomkvist nada sabia dos acontecimentos dramáticos de Stallarholmen. Deixou Smädalarö por volta das três da tarde. Parou num posto de gasolina para tomar um café, enquanto tentava resumir a situação.

Mikael estava bastante frustrado. Björck lhe fornecera muitos detalhes que o deixaram estupefato, mas também se negara categoricamente a lhe entregar a última peça do quebra-cabeça, relativa à identidade sueca de Zalachenko. Mikael se sentia enganado. A história terminava de repente e Björck recusava-se a revelar seu final.

—Nós temos um trato - insistiu Mikael.

—E eu cumpri a minha parte. Contei quem é o Zalachenko. Se quiser mais informações, vamos ter de redefinir o trato. Preciso de garantias de que meu nome será deixado de fora e de que não vai haver nenhum desdobramento.

—Mas como eu posso lhe dar essas garantias? Não sou o dono da investigação policial, e mais cedo ou mais tarde eles vão chegar até você.

— O que me preocupa não é a investigação policial. O que eu quero são garantias de que você nunca vai me denunciar por causa das putas.

Mikael notou que Björck parecia mais preocupado em ocultar sua ligação com o comércio do sexo do que por ter passado informações tidas como segredo de Estado. Isso revelava um bocado sobre sua personalidade.

—Já prometi não escrever uma só palavra sobre você e essa história.

—Mas agora quero garantias de que nunca vai citar meu nome em relação com o Zalachenko.

Mikael não tinha a menor intenção de oferecer esse tipo de garantia. Ele até podia dar a Björck o tratamento de uma fonte anônima na trama de fundo, mas não tinha como garantir anonimato absoluto. Por fim, ambos haviam concordado em refletir um ou dois dias e então retomar a conversa.

Mikael tomava o seu café no posto de gasolina quando sentiu que havia alguma coisa bem ali, ao alcance de sua mão. Tão próximo que era quase um vulto, sem que ele conseguisse, porém, focalizar a imagem. Então ocorreu-lhe que talvez outra pessoa pudesse lançar alguma luz sobre aquela história. Mikael estava nas proximidades do Centro de Reeducação de Ersta. Consultou o relógio, levantou-se rapidamente e foi fazer uma visita a Holger Palmgren.

Gunnar Björck estava preocupado. O encontro com Mikael Blomkvist deixara-o completamente esgotado. Suas costas doíam como nunca. Tomou três analgésicos e se deitou no sofá da sala. Os pensamentos rodopiavam em sua cabeça. Depois de uma hora, levantou-se, pôs água para ferver e pegou uns saquinhos de chá. Sentou-se à mesa da cozinha e ficou matutando.

Será que podia confiar em Blomkvist? Ele jogara todos os seus trunfos e agora dependia da boa vontade do infeliz daquele jornalista. Mas ele preservara a informação mais importante. A identidade de Zala e seu verdadeiro papel nos acontecimentos. Uma carta decisiva que ele guardava na manga.

Como é que ele tinha se metido naquela encrenca? Não era nenhum criminoso. Só tinha pago por algumas putas. Era solteiro. Aquela fedelha desgraçada de dezesseis anos nem sequer tinha fingido que gostava dele. Olhara para ele cheia de nojo.

Cretina. Se ao menos ela não fosse tão jovem. Se tivesse mais de vinte e um anos, ele não estaria naquela confusão. A mídia ia acabar com ele se descobrisse a história. Blomkvist também o detestava. Nem tentava disfarçar. Zalachenko.

Um cafetão. Que ironia. Ele tinha comido umas putas do Zalachenko. Mas Zalachenko era esperto o bastante para ficar na moita. O Bjurman e a Salander. E o Blomkvist. Uma saída.

Depois de refletir durante uma hora, foi até seu escritório e pegou o pedaço de papel com o número de telefone que ele anotara quando de uma visita ao seu local de trabalho no início da semana. Não era só isso que ele omitira a Mikael Blomkvist. Sabia exatamente onde se encontrava Zalachenko, mas fazia doze anos que não falava com ele. E não tinha a menor vontade de voltar a falar.

Mas Zalachenko era uma raposa esperta. Compreenderia o problema. Saberia sumir da face da terra. Ir se aposentar no exterior. Desastre mesmo seria ele ser preso. Então tudo era capaz de desabar.