Hesitou um bocado antes de pegar o telefone e discar o número.
—Olá. É o Sven Jansson - disse.
Um pseudônimo que ele não usava havia muito tempo. Zalachenko se lembrava muito bem dele.
28 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL – QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL
Bublanski se encontrou com Sonja Modig para tomarem um café com um sanduíche no Wayne’s da Vasagatan lá pelas oito da noite. Ela nunca tinha visto seu chefe tão abatido. Ele a inteirou de tudo que acontecera naquele dia. Ela permaneceu muito tempo calada. Por fim, estendeu a mão e colocou-a no pulso de Bublanski. Era a primeira vez que ela o tocava e não havia outra intenção em seu gesto que não a amizade. Ele sorriu, triste, e da mesma forma amistosa deu uns tapinhas na mão dela.
—Talvez seja hora de eu me aposentar - disse ele. Ela sorriu com indulgência.
—Essa investigação está indo para o brejo - ele prosseguiu. —Aliás, já foi. Contei ao Ekström tudo o que aconteceu hoje e a única instrução que ele me deu foi “Faça o melhor possível”. Ele parece incapaz de qualquer tipo de ação.
—Não quero falar mal dos meus superiores, mas no que me diz respeito o Ekström pode ir plantar coquinho.
Bublanski assentiu com a cabeça.
—Você está oficialmente de volta à investigação. Imagino que ele não vá lhe pedir desculpas.
Ela deu de ombros.
—Neste momento, tenho a impressão de que a investigação se limita a mim e a você — disse Bublanski. - O Faste saiu às pressas hoje de manhã, louco de raiva, e deixou o celular desligado o dia inteiro. Se ele não aparecer até amanhã, vou ser obrigado a emitir um alerta de busca.
—Por mim, o Faste pode ficar de fora. O que vai acontecer com o Niklas Eriksson?
—Nada. Eu queria que ele fosse indiciado, mas o Ekström não se atreveu. Mandamos o cara embora e fui ter uma conversinha com o Dragan Armanskij. Encerramos a colaboração da Milton, o que significa, infelizmente, que também perdemos o Steve Bohman. Pena. É um policial competente.
—E o Armanskij, como reagiu?
—Ficou arrasado. O interessante é que...
—É que...?
—O Armanskij me contou que a Lisbeth Salander nunca gostou do Eriksson. Lembrou que há alguns anos ela o aconselhou a despedir o cara. Disse que ele era um canalha, mas não quis explicar por quê. O Armanskij, obviamente, não seguiu o conselho dela.
—Humm.
—O Curt ainda está em Södertálje. Estão para efetuar uma busca na casa do Carl-Magnus Lundin. O Jerker está desenterrando o ex-presidiário Kenneth Gustafsson, vulgo Vagabundo, para os lados de Nykvarn. E pouco antes de eu chegar aqui ligou para dizer que também tem um corpo no segundo túmulo. Pela roupa, é uma mulher. Parece que já faz um tempinho que está ali.
—Um cemitério dentro da mata. Jan, tenho a impressão que essa história é muito mais monstruosa do que a gente pensava. A Salander não está sendo acusada dos assassinatos de Nykvarn, está?
Bublanski sorriu, pela primeira vez em muitas horas.
—Não. Dessa ela vai se livrar. Mesmo assim, está armada e atirou no Lundin.
—Chama a atenção ela ter atirado no pé e não na cabeça. No caso do Magge Lundin, talvez não faça muita diferença, mas a gente sempre achou que o assassino de Enskede era um excelente atirador.
- Sonja... Isso tudo é um completo absurdo. O Magge Lundin e o Benny Nieminen são dois grandalhões violentos com uma ficha criminal quilométrica. Lundin ganhou um pouco de peso, é verdade, e não está no melhor de sua forma, mas é perigoso. E o Nieminen é um patife brutal que costuma assustar até os fortões. Não consigo acreditar que uma magrelinha como a Salander tenha conseguido quebrar a cara deles desse jeito. O Lundin está seriamente ferido.
—Humm.
—Não estou dizendo que ele não merece. Mas não entendo como ela conseguiu fazer isso.
—A gente pergunta quando ela for pega. Mas existe um consenso de que ela é violenta.
—Seja como for, não consigo sequer imaginar o que aconteceu por lá. Estamos falando de dois sujeitos que o Curt Bolinder teria pensado duas vezes em enfrentar sozinho. E o Curt Bolinder não é particularmente um sujeito doce.
—A questão é saber se ela tinha algum motivo para atacar o Lundin e o Nieminen.
—Uma moça sozinha com dois psicopatas, dois cretinos puros-sangues, numa casa de campo deserta. Até posso imaginar os motivos - disse Bublanski.
—Será que ela teve a ajuda de alguém? Será que havia mais gente no local?
—Nada no exame técnico indica isso. A Salander entrou na casa. Havia uma xícara de café em cima da mesa. E, além disso, temos Anna Viktoria Hansson, que, do alto dos seus setenta e dois anos, dá uma de zeladora e repara em todo mundo que transita por ali. Ela jura que só passaram a Salander e os dois caras de Svavelsjõ.
—Como é que ela entrou na casa?
—Com uma chave. Acho que ela pegou no apartamento do Bjurman. Lembre...
—...dos lacres rompidos. É. Essa mocinha não para.
Sonja Modig tamborilou os dedos na mesa por alguns segundos, depois foi por outra direção.
—Deu para confirmar que o Lundin participou do sequestro da Miriam Wu?
Bublanski assentiu com a cabeça.
—Pedimos para o Paolo Roberto dar uma olhada nas fotos de uns cinquenta motoqueiros. Ele identificou o Lundin imediatamente, sem pensar duas vezes. Diz que é o mesmo homem que ele viu no armazém de Nykvarn.
—E o Mikael Blomkvist?
—Não consegui falar com ele. Ele não atende o celular.
—Bem. Mas o Lundin bate com a descrição do agressor da Lundagatan. Podemos então definir que o mc Svavelsjõ vem perseguindo a Salander já há algum tempo. Por quê?
Bublanski afastou os braços.
—Será que a Salander estava na casa de campo de Bjurman esse tempo todo em que vem sendo procurada? - quis saber Sonja Modig.
—Também pensei nessa hipótese. Mas o Jerker acha que não. A casa não parecia ter sido ocupada recentemente, e temos essa testemunha afirmando que ela só apareceu na aldeia hoje.
—Por que ela foi até lá? Custo a acreditar que tivesse um encontro marcado com o Lundin.
—Tem razão, é pouco provável. Ela deve ter ido lá buscar alguma coisa. E só encontraram uns arquivos que parecem ser uma investigação particular do Bjurman sobre a Lisbeth Salander. Uma pilha de documentos do Serviço Social e da Comissão de Tutelas referentes a Salander, e também antigas anotações sobre a escolaridade dela. Mas faltam alguns arquivos. Eles estão numerados. Temos o 1, o 4 e o 5.
—Faltam o 2 e o 3.
—E talvez outros depois do 5.
—O que leva a uma pergunta: por que a Salander iria procurar informações sobre si mesma?
—Vejo dois motivos. Ou está querendo esconder algo que ela sabe que Bjurman registrou a seu respeito, ou está tentando descobrir alguma coisa. Mas fica também outra pergunta.
—Ah, é?
—Por que o Bjurman fez uma pesquisa tão ampla sobre ela e depois escondeu tudo na casa de campo? Aparentemente, a Salander descobriu os arquivos no sótão. Ele era o tutor dela, tinha por missão cuidar de suas finanças e coisas do tipo. Mas os arquivos dão a impressão de que ele estava era obcecado pela vida dela a ponto de querer esmiuçar tudo.
—O Bjurman está cada vez mais parecendo uma figurinha meio suspeita. Pensei nisso hoje enquanto analisava a lista dos clientes sexuais na Millennium. Estava quase esperando topar com o nome dele.
—Bem pensado. Afinal, existe aquela coleção de sexo explícito no computador dele. Merece atenção. Descobriu alguma coisa?
—Não sei bem. O Mikael Blomkvist está se encontrando com todos os caras da lista, mas essa moça da Millennium, a Malu Eriksson, diz que ele não descobriu nada de interessante. Jan... preciso te dizer uma coisa.
—O quê?
—Não acho que foi a Salander que fez tudo isso. Quero dizer, Enskede e Odenplan. No início, eu estava convencida da culpa dela, como todo mundo, mas não acredito mais nisso. E não sei nem explicar por quê.