Bublanski meneou a cabeça. E percebeu que concordava com Sonja Modig.
O gigante loiro andava para lá e para cá na casa de Magge Lundin em Svavelsjõ, preocupado. Parou em frente à janela da cozinha e espiou a estrada. Àquela hora, eles já deviam ter voltado. Sentiu a preocupação corroer-lhe as tripas. Tinha acontecido alguma coisa.
Além disso, não gostava de ficar sozinho na casa de Magge Lundin. Não conhecia a casa. Havia um sótão do lado do quarto dele, no piso superior, e a casa estalava o tempo todo de forma desagradável. Tentou se livrar daquele mal-estar. O gigante loiro sabia que era bobagem, mas nunca tinha gostado de ficar sozinho. Não sentia nenhum medo dos seres humanos de carne e osso, mas achava que casas de campo vazias tinham algo tremendamente inquietante. Os vários ruídos atiçavam sua imaginação. Não conseguia se livrar da sensação de que algo obscuro e maligno o observava pela fresta de uma porta. Às vezes tinha até a impressão de ouvir uma respiração.
Quando era mais jovem, caçoavam dele por causa de seu medo do escuro. Ou melhor, tinham caçoado até ele dar uma surra nos colegas e, eventualmente, em pessoas mais velhas que sentiam prazer nesse tipo de diversão. Ele era bom de surra.
Mas era um problema. Ele tinha horror a escuro e solidão. Odiava os seres que povoavam o escuro e a solidão. Queria que Lundin voltasse já. A presença de Lundin restabeleceria o equilíbrio, mesmo que eles não conversassem, mesmo que não estivessem no mesmo cômodo. Ele escutaria ruídos de verdade, movimentos, e saberia que havia seres humanos por perto.
Tentou se livrar do mal-estar escutando uns discos. Não se aguentando no lugar, procurou alguma coisa para ler nas prateleiras de Lundin. Infelizmente, a veia intelectual de Lundin deixava muito a desejar e ele teve de se contentar com uma coleção de revistas antigas sobre motos, revistas masculinas e romances policiais maltratados do tipo que nunca o fascinara. Passou algum tempo limpando e azeitando a arma de fogo que guardava na sacola, o que o acalmou por uns momentos.
Por fim, incapaz de continuar na casa, saiu para dar uma voltinha no pátio e tomar ar. Manteve-se longe da vista dos vizinhos, mas parou de modo a enxergar janelas iluminadas onde havia gente. Ficando totalmente imóvel, podia ouvir uma música ao longe.
Quando quis entrar de novo na casa de Lundin, seu mal-estar tornou-se aterrador e ele ficou um tempão nos degraus da frente, coração disparado, até conseguir fazer um esforço e abrir resolutamente a porta.
As sete horas, desceu até a sala e ligou a tevê para assistir ao noticiário da TV4. Atônito, escutou as manchetes e, depois, a descrição dos incidentes na casa de campo de Stallarholmen. Era o tema central do noticiário.
Galgou os degraus da escada de quatro em quatro até o quarto de hóspedes, e enfiou suas coisas numa sacola. Dois minutos depois, saiu pela porta e arrancou com o Volvo branco num estardalhaço.
Saiu bem a tempo. A um quilômetro apenas de Svavelsjõ, cruzou com dois carros de polícia, luzes giratórias azuis ligadas, entrando na aldeia.
Depois de muito esforço, Mikael Blomkvist conseguiu se encontrar com Holger Palmgren por volta das dezoito horas de quarta-feira. Muito esforço porque precisou convencer os funcionários a que o deixassem entrar. Insistiu com tamanha energia que uma enfermeira ligou para um tal de Dr. A. Sivarnandan, que aparentemente morava bem perto da casa de saúde. Sivarnandan chegou depois de quinze minutos e assumiu o problema do jornalista persistente. De início, foi categórico. Nas duas últimas semanas, vários jornalistas tinham conseguido localizar Holger Palmgren e apelado para métodos quase desesperados a fim de obter alguma declaração. Holger Palmgren, por sua vez, teimara em rechaçar todas essas visitas, e os funcionários tinham recebido ordem de não deixar entrar ninguém.
Sivarnandan também tinha acompanhado o caso com imensa preocupação. Estava apavorado com as manchetes sobre Lisbeth Salander na mídia e observou que seu paciente mergulhara numa profunda depressão que, na sua interpretação, era fruto da incapacidade em que Palmgren se via de fazer alguma coisa. Interrompera a reabilitação e passava os dias lendo os jornais e acompanhando a caçada a Lisbeth Salander pela tevê. O resto do tempo ficava matutando no quarto.
Mikael, teimoso, fincou pé diante da sala do Dr. Sivarnandan, explicando que não tinha a menor intenção de expor Holger Palmgren a qualquer situação desagradável e que não estava ali para obter uma declaração. Explicou que era amigo de Lisbeth Salander, que tinha dúvidas sobre a culpa dela e estava desesperadamente em busca de informações que pudessem lançar uma luz sobre alguns detalhes do seu passado.
O Dr. Sivarnandan não se deixava seduzir assim tão facilmente. Mikael precisou se sentar e explicar com calma seu papel naquele drama. Sivarnandan só cedeu ao fim de meia hora de discussão. Pediu que Mikael esperasse enquanto ele subia até o quarto de Holger Palmgren para perguntar se este aceitava recebê-lo.
Sivarnandan voltou após dez minutos.
—Ele concordou em recebê-lo. Se não for com a sua cara, vai mandá-lo embora. Você não está autorizado a entrevistá-lo nem a comentar esta visita na imprensa.
—Eu lhe garanto que não vou escrever uma linha sequer a respeito.
Holger Palmgren tinha um quarto pequeno com uma cama, uma cômoda, uma mesa e algumas cadeiras. Estava um espantalho, magro, de cabelos brancos, com evidentes problemas de desequilíbrio, mas ainda assim se levantou quando Mikael entrou. Não estendeu a mão, porém apontou para uma das cadeiras ao lado da mesa. Mikael sentou-se. Sivarnandan permaneceu no quarto. De início, Mikael custou a entender as palavras balbuciadas por Holger Palmgren.
—Quem é o senhor, para se apresentar como amigo de Lisbeth Salander, e o que quer?
Mikael inclinou-se para trás. Refletiu por um instante.
—Holger, o senhor não é obrigado a falar comigo. Mas peço que escute o que eu tenho a dizer antes de decidir se me põe daqui para fora.
Palmgren assentiu rapidamente com a cabeça e se arrastou até a cadeira em frente à de Mikael.
—Conheci Lisbeth Salander há mais ou menos dois anos. Contratei-a para fazer uma pesquisa para mim sobre um assunto que prefiro não abordar ou lembrar. Ela esteve comigo num lugar onde eu estava morando temporariamente e trabalhamos juntos por várias semanas.
Ele se perguntou até onde deveriam ir suas explicações a Palmgren. Resolveu se manter o mais próximo possível da verdade.
—No meio do caminho, aconteceram duas coisas. Uma delas é que a Lisbeth salvou a minha vida. A outra é que estivemos muito próximos durante um período. Aprendi a conhecê-la e gostava imensamente dela.
Sem entrar em detalhes, Mikael falou sobre sua relação com Lisbeth e do fim repentino dessa relação depois das festas de Natal do ano anterior, quando Lisbeth viajara para fora do país.
Em seguida falou sobre seu trabalho na Millennium e os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman, e explicou como se via de repente envolvido na busca de um assassino.
—Entendo que o senhor andou sendo importunado por jornalistas recentemente e que os jornais publicaram bobagem que não acaba mais. Só o que posso fazer é lhe garantir que não estou aqui para obter material para um enésimo artigo. Sou provavelmente uma das raríssimas pessoas neste país que, neste momento, sem hesitar e sem segundas intenções, estão do lado de Lisbeth Salander. Acho que ela é inocente. Acho que um homem chamado Zalachenko está por trás desses assassinatos.
Mikael fez uma pausa. Alguma coisa faiscara nos olhos de Palmgren quando ele pronunciou o nome de Zalachenko.
—Se quiser contribuir com qualquer coisa que esclareça o passado dela, este é o momento. Se não quiser ajudá-la, vou estar desperdiçando o meu tempo e sabendo, também, qual a sua posição.