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Holger Palmgren não dissera sequer uma palavra durante o discurso de Mikael. No último comentário, houve outro brilho em seus olhos. Mas ele falou de um modo mais pausado e articulado que conseguiu.

—E o senhor quer mesmo ajudá-la. Mikael fez que sim com a cabeça. Holger Palmgren se inclinou para a frente.

—Descreva-me o sofá da sala dela. Mikael retribuiu o sorriso.

—Quando estive lá, havia um troço velho absolutamente imundo que só poderia interessar um antiquário. Início dos anos 1950, eu diria. Tinha umas almofadas de tecido marrom com uma estampa amarela. O tecido estava rasgado em vários pontos e o enchimento saindo para fora.

Holger Palmgren caiu na gargalhada. Mais parecia estar limpando a garganta. Olhou para o Dr. Sivarnandan.

—Ele pelo menos esteve no apartamento dela. Diga-me, doutor, posso pedir café para o meu convidado?

—Mas é claro.

Sivarnandan se levantou e saiu do quarto. Deteve-se na porta e, com a cabeça, acenou para Mikael.

—Alexander Zalachenko - disse Holger Palmgren, assim que a porta fechou.

Mikael arregalou os olhos.

—Conhece esse nome?

Holger Palmgren meneou a cabeça.

—A Lisbeth me disse o nome dele. Acho que é importante eu contar história para alguém... caso me dê na telha morrer de repente, o que não improvável.

—A Lisbeth? Como ela sabia da existência dele?

—Ele é o pai da Lisbeth Salander.

Num primeiro momento, Mikael custou a entender o que Holger Palmmer dizia. Aos poucos, as palavras abriram caminho dentro dele.

—O que está dizendo?

—O Zalachenko chegou aqui nos anos 1970. Era uma espécie de refugiado político - nunca entendi muito bem essa história e Lisbeth sempre foi muito muquirana em matéria de informação. Esse era um assunto no qual ela não queria tocar de jeito nenhum.

A certidão de nascimento. Pai desconhecido.

—O Zalachenko é o pai da Lisbeth - Mikael repetiu.

—Nesses anos todos desde que a conheço, ela só contou o que tinha acontecido uma única vez. Foi mais ou menos um mês antes de eu sofrer o derrame. O que eu entendi foi o seguinte: o Zalachenko chegou em meados dos anos 1970. Conheceu a mãe da Lisbeth em 1977, eles se tornaram um casal e o resultado foram duas crianças.

—Duas?

—A Lisbeth e sua irmã, Camilla. Elas são gêmeas.

—Meu Deus - quer dizer que tem outra igual a ela!

—Elas são muito diferentes. Mas essa é outra história. A mãe da Lisbeth se chamava Agneta Sofia Sjõlander. Tinha dezessete anos quando conheceu Alexander Zalachenko. Não sei de detalhes, mas pelo que entendi, ela era uma moça um tanto imatura e foi uma presa fácil para um homem mais velho e experiente. Ficou impressionada com ele e, como é provável, se apaixonou perdidamente.

—Entendo.

—O Zalachenko se mostrou tudo, menos simpático. Era muito mais velho que ela. Imagino que estivesse procurando uma mulher fácil, mais nada.

—O senhor deve ter razão.

—Ela decerto fantasiava um futuro seguro ao lado dele, só que ele não tinha a menor intenção de se casar. Aliás, eles nunca se casaram, mas em 1979 ela mudou o sobrenome de Sjõlander para Salander. Deve ter sido o jeito que ela encontrou de mostrar que estavam juntos.

—Como assim?

—Zala. Salander.

—Caramba! — exclamou Mikael.

—Comecei a me debruçar sobre o assunto bem na época em que fiquei doente. O que aconteceu depois é que o Zalachenko se revelou um psicopata de primeira. Bebia e espancava Agneta. Pelo que pude entender, essa violência se estendeu por toda a infância das meninas. Lisbeth se lembra que o Zalachenko aparecia regularmente. Ás vezes se ausentava por longos períodos e, de repente, estava de novo na Lundagatan. E toda vez era a mesma coisa. Ele vinha pelo sexo e para beber, e a história sempre acabava com Agneta Salander sofrendo diferentes maus-tratos. Lisbeth me contou detalhes que dão a entender que não eram apenas maus-tratos físicos. Ele vinha armado, ameaçador, parecia muito um sádico que curte o terror psicológico. Pelo que eu soube, só foi piorando com os anos. A mãe de Lisbeth passou grande parte da década de 1980 aterrorizada.

—Ele também batia nas filhas?

—Não. Aparentemente, não tinha o menor interesse pelas filhas. Mal as cumprimentava. A mãe em geral as mandava para o quarto quando o Zalachenko chegava, e elas não podiam sair sem permissão. Uma ou outra vez pode ter acontecido de ele dar um tapa em Lisbeth ou na irmã, mas era mais porque elas estavam atrapalhando ou no meio do caminho. A violência era toda dirigida à mãe.

—Puta merda. Coitada da Lisbeth. Holger Palmgren assentiu com a cabeça.

—A Lisbeth me contou isso cerca de um mês antes de eu sofrer o derrame. Era a primeira vez que ela falava abertamente sobre o que havia acontecido. Eu tinha acabado de decidir que daria um basta àquela bobagem de tutela. A Lisbeth é tão inteligente como qualquer um de nós, e eu estava me preparando para rediscutir o caso dela no tribunal de instâncias. Aí sofri o derrame... e quando acordei, estava aqui.

Fez um gesto largo com o braço. Uma enfermeira bateu à porta e entrou com o café. Palmgren se manteve calado até ela sair do quarto.

—Há coisas que não entendo nessa história. Agneta Salander foi obrigada a ir para o hospital uma dúzia de vezes. Li o dossiê dela. Era manifestamente vítima de maus-tratos severos e o Serviço Social teria de ter intervindo. Mas nada aconteceu. A Lisbeth e a Camilla eram encaminhadas para eles quando a mãe estava hospitalizada, mas assim que ela tinha alta voltava para casa para esperar pelo próximo round. A única explicação que me ocorre é que a rede de proteção social inteira falhou em sua missão e que a Agneta tinha medo demais para fazer qualquer coisa além de esperar pelo seu torturador. Então, alguma coisa aconteceu. A Lisbeth chama isso de Todo o Mal.

—E o que vem a ser isso?

—Fazia vários meses que Zalachenko não aparecia. Lisbeth acabava de completar doze anos. Estava começando a acreditar que ele tinha sumido de vez. O que, evidentemente, não era o caso. Um dia ele voltou. Primeiro, Agneta fechou Lisbeth e a irmã no quarto. Em seguida, teve relações com o Zalachenko. E depois ele começou a espancá-la. Sentia prazer em torturá-la. Só que dessa vez não eram duas criancinhas que estavam fechadas no quarto... As meninas tiveram outra reação. Camilla tinha verdadeiro pânico de que alguém descobrisse o que acontecia em casa. Reprimia tudo e fazia de conta que não via que a mãe era maltratada. Quando os golpes cessavam, Camilla costumava ir fazer um carinho no pai como se estivesse tudo muito bem.

—Era o jeito dela de se proteger.

—É. Mas a Lisbeth era de outro calibre. Dessa vez, ela interrompeu a sessão de violência. Foi até a cozinha, pegou uma faca e enfiou-a no ombro de Zalachenko. Ela o apunhalou cinco vezes, até que ele conseguiu tomar a faca e lhe dar um soco. Os cortes não foram fundos, mas ele começou a sangrar feito um porco, e deu no pé.

—Isso é bem a cara da Lisbeth. Palmgren riu.

—É. É melhor não deixar Lisbeth Salander nervosa. A atitude dela com as pessoas à sua volta é: se alguém a ameaça com um revólver, ela consegue um revólver maior. É o que me assusta tanto neste caso agora.

—Todo o Mal foi isso?

—Não. Agora vão acontecer duas coisas. Mas eu não consigo entender. O Zalachenko saiu suficientemente ferido para precisar ir até o hospital. Deveria ter havido uma investigação policial.

—Mas?

—Mas até onde sei não houve absolutamente nada. Lisbeth afirma que um homem foi falar com Agneta. Não sabe o que eles disseram nem quem ele era. Depois disso, a mãe disse a Lisbeth que o Zalachenko tinha perdoado tudo.

—Perdoado?

—Foram as palavras dela. De repente, Mikael entendeu.

Björck. Ou um dos colegas de Björck. Era preciso fazer a limpeza atrás do Zalachenko. Que canalha! Ele fechou os olhos.