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—O que foi? - perguntou Palmgren.

—Acho que sei o que aconteceu. E desta vez alguém vai pagar por isso. Mas continue.

—O Zalachenko ficou meses sem aparecer. Lisbeth esperava por ele e se preparava. Matava aula o tempo todo para vigiar a mãe. Morria de medo que Zalachenko a machucasse. Tinha doze anos e se sentia responsável por aquela mãe que não ousava procurar a polícia e não conseguia romper com Zalachenko, ou que talvez não percebesse a gravidade da situação. Mas, justamente no dia em que o Zalachenko voltou, a Lisbeth estava na escola. Chegou em casa quando ele estava saindo do apartamento. Ele. não disse nada. Apenas riu. A Lisbeth entrou e deparou com a mãe desacordada no chão da cozinha.

—E o Zalachenko não encostou na Lisbeth?

—Não. Ela o alcançou quando ele já estava entrando no carro. Ele baixou o vidro, provavelmente para lhe dizer alguma coisa. A Lisbeth tinha se preparado. Jogou dentro do carro uma caixa de leite que ela tinha enchido de gasolina. E então riscou um fósforo.

—Meu Deus!

—Duas vezes ela tentou matar o pai. Desta vez, houve conseqüências. Um homem ardendo feito uma tocha dentro de um carro na Lundagatan não podia passar despercebido.

—Seja como for, ele sobreviveu.

—O Zalachenko ficou muito mal, com queimaduras graves. Teve que amputar um pé. Ficou com o rosto seriamente queimado, e com queimaduras no corpo inteiro. E Lisbeth acabou na psiquiatria infantil do Sankt Stefan.

Embora já soubesse de cor cada palavra, Lisbeth Salander releu atentamente os documentos a seu respeito que tinha encontrado na casa de campo de Bjurman. Depois acomodou-se no recanto da janela e abriu a cigarreira que Miriam Wu lhe dera de presente. Acendeu um cigarro e contemplou Djurgârden. Descobrira detalhes sobre sua vida que não conhecia.

Tantas peças do quebra-cabeça estavam se encaixando que ela chegou a ficar gelada. O que a interessava antes de mais nada era o relatório policial redigido por Gunnar Björck em fevereiro de 1991. Não poderia afirmar quem era Björck entre todos os adultos que haviam falado com ela, mas julgava saber quem ele era. Apresentara-se com outro nome. Sven Jansson. Lembrava-se de cada nuança de seu rosto, de cada palavra dita e de cada gesto dele nas três ocasiões em que se encontraram.

Tinha sido um caos completo.

Dentro do carro, Zalachenko ardia feito uma tocha. Tinha conseguido abrir a porta e rolar para a calçada, mas sua perna ficara presa no cinto de segurança em meio ao fogo. Algumas pessoas acorreram e abafaram as chamas. Os bombeiros chegaram para apagar o incêndio do carro. Veio a ambulância, e ela tentou convencer os paramédicos a deixar Zalachenko para lá e ir cuidar de sua mãe. Eles a rechaçaram. Veio a polícia e algumas testemunhas apontaram para ela. Ela tentou explicar o que havia acontecido, mas teve a impressão de que ninguém a escutava, e de repente se viu no banco traseiro de um carro da polícia, e tinham se passado minutos, minutos e mais minutos que quase viraram uma hora, antes que a polícia finalmente entrasse no apartamento e encontrasse sua mãe.

Agneta Sofia Salander estava desacordada. Tinha lesões cerebrais. O primeiro de uma longa série de derrames fora desencadeado pelas pancadas. Ela nunca viria a se recuperar.

Lisbeth compreendeu de repente por que ninguém lera o relatório policial, por que Holger Palmgren não conseguira lhe pôr as mãos e por que hoje o procurador Richard Ekström, que comandava a caçada contra ela, não tinha acesso a ele. O relatório não fora redigido pela polícia comum. Fora escrito por um idiota da Säpo. Havia nele carimbos indicando que a investigação era considerada confidencial com base na lei de segurança nacional.

Alexander Zalachenko tinha trabalhado para a Säpo.

Não se tratava de uma investigação. Tratava-se do abafamento de um caso. Zalachenko era mais importante que Agneta Salander. Não podia ser identificado ou denunciado. Zalachenko não existia.

Zalachenko não era o problema - o problema era Lisbeth Salander, a garota maluca que ameaçava detonar um dos maiores segredos da nação.

Um segredo de que ela não tinha nenhum conhecimento. Pôs-se a raciocinar. Zalachenko conhecera sua mãe quase em seguida quando chegara à Suécia. Tinha se apresentado com seu verdadeiro nome. Ainda não ganhara um nome de fachada nem a identidade sueca. O que explicava Lisbeth não ter encontrado seu nome em nenhum registro oficial naqueles anos todos. Ela sabia o seu nome verdadeiro. Mas o Estado sueco lhe dera um novo nome.

Ela captou a idéia geral. Se Zalachenko fosse indiciado por golpes e ferimentos agravados, o advogado de Agneta Salander ia começar a sondar o passado dele. Onde é que o senhor trabalha, senhor Zalachenko? Qual o seu verdadeiro nome?

Se Lisbeth Salander ficasse no Serviço Social, alguém talvez começasse a fuçar. O que também aconteceria se o atentado com coquetel Molotov fosse minuciosamente investigado, embora ela fosse jovem demais para ser indiciada. Imaginou as manchetes dos jornais. O relatório precisava, portanto, ser redigido por uma pessoa de confiança. E, depois, arquivado como top secret e muito bem enterrado, para que ninguém pudesse encontrá-lo. E Lisbeth Salander também tinha de ser tão bem enterrada que ninguém pudesse achá-la.

Gunnar Björck.

Sankt Stefan.

Peter Teleborian.

A explicação a deixou fora de si.

Prezado Estado... Vou ter uma conversinha com você caso um dia eu descubra com quem devo falar.

Perguntou-se rapidamente o que o ministro de Assuntos Sociais iria achar se um coquetel Molotov atravessasse as portas do seu ministério. Na falta de responsáveis, porém, Peter Teleborian era um bom substituto. Anotou mentalmente que teria que cuidar muito bem do caso dele assim que resolvesse todo o resto.

Mas ela ainda não entendia todos os meandros. Zalachenko reaparecera de repente depois de todos esses anos. Corria o risco de ser denunciado por Dag Svensson. Dois tiros. Dag Svensson e Mia Bergman. Uma arma que tinha as impressões digitais dela...

Zalachenko, ou quem ele enviara para executar a sentença, evidentemente não podia saber que ela achara o revólver na gaveta de Bjurman e o manipulara. Isso tinha sido puro acaso, mas para ela estava claro desde o começo que devia haver um vínculo entre Bjurman e Zala.

Mesmo assim, algo não estava colando naquela história. Ficou refletindo e experimentando, uma por uma, as peças do quebra-cabeça.

Só existia uma resposta plausível.

Bjurman.

Bjurman tinha feito uma investigação sobre ela. Estabelecera o elo entre ela e Zalachenko. E voltara-se para Zalachenko.

Ela tinha um filme que mostrava Bjurman violentando-a. Era a sua espada na nuca de Bjurman. Bjurman devia ter imaginado que Zalachenko poderia obrigar Lisbeth a revelar onde estava o filme.

Afastou-se da janela e foi pegar o CD na gaveta da escrivaninha, no qual escrevera “Bjurman” com a caneta-marcador. Não tinha sequer guardado o CD numa capinha. Não o tinha assistido desde que o mostrara em pré-estreia há Bjurman dois anos antes. Segurou-o um instante, e em seguida guardou-o de volta na gaveta.

Bjurman fora um idiota. Se tivesse cuidado da vida dele, ela o teria deixado em paz desde que conseguisse reverter sua tutela. Já o Zalachenko nunca o teria deixado em paz. Bjurman se tornaria para todo sempre o cãozinho de estimação de Zalachenko. O que não deixava de ser um merecido castigo.

A rede de Zalachenko. Tentáculos que se estendiam até o mc Svavelsjõ.

O gigante loiro.

Ele era a chave.

Precisava encontrá-lo e obrigá-lo a revelar onde Zalachenko se escondia.

Acendeu mais um cigarro e contemplou o castelo de Skeppsholmen. Deslocou o olhar para as montanhas-russas do parque de diversões de Grõna Lund. Súbito, falou consigo mesma em voz alta. Imitou uma voz que tinha ouvido um dia num filme da tevê.