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Daaaaddyyyyy, I am coming to get yoooou.

Se alguém escutasse, diria que ela era louca de atar. Às sete e meia da noite, ligou a tevê para ver as últimas notícias da caça a Lisbeth Salander. Teve o maior choque de sua vida.

Bublanski conseguiu localizar Hans Faste no celular pouco antes das vinte horas. Não foram gentilezas que eles trocaram pela rede de telecomunicações. Bublanski não perguntou a Faste onde ele tinha estado apenas comunicou-lhe friamente os acontecimentos do dia.

Faste estava abalado.

Cansara-se daquele circo que estava a delegacia e fizera uma coisa que nunca tinha feito antes em serviço. Furioso, fora até o centro da cidade. Desligara o celular e se sentara num pub da Estação Central, onde tomara duas cervejas, fervendo de raiva.

Depois, voltou para casa, tomou uma ducha e caiu no sono. Estava precisando dormir.

Acordou a tempo de assistir Rapport, e seus olhos quase saltaram das órbitas quando viu o noticiário. Um cemitério em Nykvarn. Lisbeth Salander tinha atirado no chefe do mc Svavelsjõ. Caçada humana pelos subúrbios da zona sul. O cerco estava se fechando.

Ligou o celular.

O diacho do Bublanski telefonou quase em seguida, informando que a partir daquele momento a investigação passava oficialmente a procurar outro culpado também. E mandou-o substituir Jerker Holmberg no exame do local do crime em Nykvarn. Bem agora que a investigação Salander chegava ao fim, Faste ia juntar guimba de cigarro no meio do mato. E a Salander ia ficar para os outros.

O que o MC Svavelsjõ estava fazendo nessa história?

Afinal, talvez houvesse algum nexo no que aquela puta de uma lésbica da Modig falava.

Não, não era possível.

Tinha que ser a Salander.

Queria ser ele a prendê-la. Tinha tanta vontade de prendê-la que apertou o celular até quase machucar a mão.

Holger Palmgren observou calmamente Mikael Blomkvist, que andava de lá para cá em frente à janela do pequeno quarto. Eram cerca de sete e meia da noite e fazia quase uma hora que eles estavam conversando sem interrupção. Por fim, Palmgren bateu na mesa para chamar a atenção de Mikael.

—Sente-se, ou vai gastar a sola dos sapatos - disse, passando a tratá-lo por “você”.

Mikael se sentou.

—Quantos segredos - disse ele. —Eu não tinha percebido qual era o elo até você me contar sobre o passado de Zalachenko. Só tinha visto as avaliações do estado de Lisbeth declarando que ela era psicologicamente perturbada.

—Peter Teleborian.

—Ele só pode ter um tipo de acordo com o Björck. Deve ser alguma espécie de colaboração.

Mikael meneou a cabeça, pensativo. O que quer que acontecesse, Peter Teleborian seria objeto de uma investigação jornalística.

—Lisbeth pediu que eu ficasse longe dele. Disse que ele era do mal. Holger Palmgren fitou-o com atenção.

—Quando ela disse isso?

Mikael ficou quieto. Então sorriu e olhou para Palmgren.

—Mais segredos. Caramba. Eu me comuniquei com ela enquanto ela estava foragida. Pelo computador. Mensagens sucintas e herméticas da parte dela, mas o tempo todo me orientando na direção certa.

Holger Palmgren suspirou.

—E é claro que você não contou isso à polícia - disse ele.

—Não. Não exatamente.

—Oficialmente, você também não contou para mim. Mas ela entende bastante de informática.

Você nem imagina o quanto.

—Confio muito na capacidade que ela tem de se virar. Ela até pode viver modestamente, mas é uma batalhadora.

Nem tão modestamente. Ela roubou quase três bilhões de coroas. Não vai morrer de fome. Tem um cofre cheio de moedas de ouro, igual ã Píppi Meialonga.

—O que eu não entendo - disse Mikael - é por que você não tomou nenhuma atitude nesses anos todos.

Holger Palmgren deu outro suspiro. Sentia-se imensamente triste.

—Eu fracassei - disse. —Quando fui indicado como seu administrador ad hoc, ela era só mais uma no meio de um batalhão de jovens problemáticos. Tive dezenas deles. Foi o Bengt Brâdhensjõ quem me confiou essa missão, quando era chefe do Serviço Social. A Lisbeth já estava em Sankt Stefan na época e eu nem sequer estive com ela no primeiro ano. Falei umas vezes com o Teleborian e ele me explicou que ela era psicótica e estava recebendo todos os cuidados possíveis e imagináveis. Naturalmente, acreditei. Mas falei também com o Jonas Beringer, que, na época, era chefe do setor. Não creio que ele estivesse envolvido nessa história. Fez uma avaliação a pedido meu, e concordamos em tentar reinseri-la na sociedade por meio de uma família adotiva. Ela estava com quinze anos.

—E a partir daí você a acompanhou por todos esses anos?

—Não o suficiente. Briguei por ela depois do episódio do metrô. Eu já a conhecia melhor e gostava muito dela. Ela tinha personalidade. Consegui evitar que fosse internada. O compromisso que conseguimos firmar com as autoridades foi que ela seria declarada incapaz e eu me tornaria seu tutor.

—Também não dá para supor que o Björck tenha conseguido influenciar a decisão do tribunal. Isso teria chamado a atenção. Ele queria que ela fosse trancafiada e, para alcançar seus fins, tentou passar uma imagem bem negativa dela através das avaliações psiquiátricas, graças, entre outros, ao Teleborian, na esperança de que o tribunal tomasse a decisão lógica. Em vez disso, o tribunal adotou o seu ponto de vista.

—Eu nunca achei que ela devia ser colocada sob tutela. Mas, para ser sincero confesso que não me esforcei muito para tentar reverter essa decisão. Eu deveria ter agido com mais vigor, e mais cedo. Mas eu gostava muito da Lisbeth e... ficava o tempo todo adiando. Estava com casos demais para cuidar. Depois, acabei caindo doente.

Mikael assentiu com a cabeça.

—Não acho que tenha motivos para se recriminar. Você é uma das poucas pessoas que a apoiaram nesses anos todos.

—O problema era que eu não sabia que tinha de intervir. A Lisbeth era minha cliente, mas nunca mencionou o Zalachenko. Depois que teve alta no Sankt Stefan, ela precisou de vários anos para demonstrar umas migalhas de confiança em mim. Só depois do processo é que eu senti que, aos poucos, ela estava começando a se comunicar comigo para além das formalidades obrigatórias.

—Como foi que ela passou a falar no Zalachenko?

—Imagino que, apesar de tudo, ela estava começando a confiar em mim. Além disso, eu já tinha aventado várias vezes a possibilidade de mandar suspender a tutela. Ela pensou sobre o assunto por alguns meses. Depois, ligou um dia para marcar um encontro. Tinha terminado de pensar. E então me contou toda a história do Zalachenko e a interpretação dela sobre o que tinha acontecido.

—Entendo.

—Então talvez entenda que, para mim, esse era um prato e tanto para digerir. Foi quando comecei a remexer nessa história. E não consegui sequer achar o Zalachenko num registro civil sueco. Tinha horas em que era difícil saber se ela não estava inventando aquilo tudo.

—Quando você sofreu o derrame, o tutor passou a ser o Bjurman. Certamente não foi por acaso.

—Não foi. Não sei se algum dia vamos conseguir provar, mas tenho a impressão de que se cavoucarmos bem fundo vamos achar... o sujeito, quem quer que seja ele, que ficou no lugar do Björck cuidando da faxina do caso Zalachenko.

—Não me parece nada difícil entender a recusa absoluta da Lisbeth em falar com psicólogos e autoridades - disse Mikael. —Toda vez que ela tentou, as coisas só pioraram. Ela tentou explicar o que tinha acontecido para dezenas de adultos e ninguém a escutou. Tentou, sozinha, salvar a vida da mãe e defendê-la de um psicopata. Acabou fazendo a única coisa que podia fazer. E em vez de ouvir um “você fez bem” e “você é uma boa menina”, foi trancafiada num asilo de doidos.

—Não é assim tão simples. Espero que você perceba que existe algo estranho com a Lisbeth - disse Palmgren com ar grave.