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—O que você quer dizer?

—Você deve saber que ela teve um bocado de problemas na infância, dificuldades escolares e tudo mais.

—Os jornais repetiram isso à exaustão. Eu com certeza também teria tido uma escolaridade difícil se tivesse tido a infância dela.

—Os problemas da Lisbeth vão bem além daqueles do seu ambiente familiar. Li todas as avaliações psiquiátricas sobre ela e não há um diagnóstico sequer. Mas acho que nós dois concordamos que a Lisbeth Salander não é uma pessoa igual às outras. Você já jogou xadrez com ela?

—Não.

—Ela tem memória fotográfica.

—Isso eu sei. Deu para perceber na convivência com ela.

—Certo. Ela adora enigmas. Uma vez, quando veio me visitar no Natal, dei uns problemas de um teste de inteligência da Mensa para ela resolver. Um teste desses que mostram cinco símbolos similares e a gente tem que definir qual é o sexto símbolo.

—Ah, sei.

—Eu mesmo tinha tentado fazer esse teste e acertei mais ou menos à metade. E fiquei duas noites quebrando a cabeça. Ela deu uma olhada no papel e respondeu corretamente a todas as perguntas.

—Certo - disse Mikael. —A Lisbeth é uma menina muito especial.

—Ela tem muita dificuldade em se comunicar com os outros. Pensei numa modalidade da síndrome de Asperger, ou algo assim. Se você ler a descrição clínica dos portadores da síndrome de Asperger, algumas coisas têm tudo a ver com a Lisbeth, mas outras não.

Calou-se por alguns instantes.

—Ela não é nem um pouco perigosa para quem a deixa em paz e a trata com respeito.

Mikael assentiu com a cabeça.

—Mas ela é violenta, sem dúvida - disse Palmgren em voz baixa. —Quando provocada ou ameaçada, pode revidar com extrema violência.

Mikael meneou a cabeça mais uma vez.

—A questão é saber o que a gente faz agora - disse Holger Palmgren.

—A gente agora tem que achar o Zalachenko - respondeu Mikael. Nisso, o Dr. Sivarnandan bateu na porta.

—Espero não estar atrapalhando. Mas se estão interessados na Lisbeth Salander, vale a pena ligar a tevê e assistir o Rapport.

29 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL – QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL

Lisbeth Salander tremia de raiva. De manhã, tinha tranqüilamente ido até a casa de campo de Bjurman. Não ligava o computador desde a noite anterior e, durante o dia, estivera ocupada demais para ouvir o noticiário. Estava preparada para a confusão de Stallarholmen ocasionar umas manchetes, mas foi pega totalmente de surpresa pela tempestade que desabou sobre ela com as notícias da tevê.

Miriam Wu estava no hospital de Söder, rebentada por um gigante loiro que a raptara em frente à sua casa na Lundagatan. Seu estado era considerado grave.

Paolo Roberto a salvara. Como ele tinha ido parar no armazém de Nykvarn era um mistério. Foi entrevistado ao sair do hospital, mas não quis fazer nenhuma declaração. Pelo seu rosto, até dava para supor que estava saindo de dez rounds disputados com as mãos atadas às costas.

Tinham sido desenterrados no mato os despojos de duas pessoas, na mesma área para onde Miriam Wu havia sido levada. A polícia comunicava que no final do dia fora descoberto um terceiro ponto que seria escavado. Talvez ainda houvesse outros túmulos no terreno.

Em seguida, a caçada a Lisbeth Salander.

O cerco se fechava em volta dela. Durante o dia, a polícia a localizara numa aldeia de veraneio nas proximidades de Stallarholmen. Estava armada e era perigosa. Tinha atirado num dos Hell’s Angel, talvez em dois. A agressão se dera na casa de campo de Nils Bjurman. A polícia acreditava que ela conseguira furar o cerco e deixar a região.

O chefe do inquérito preliminar, Richard Ekström, deu uma coletiva de imprensa. Suas respostas foram evasivas. Não, não podia dizer se Lisbeth Salander tinha alguma relação com os Hell’s Angels. Não, não podia confirmar que Lisbeth Salander tinha sido vista no armazém de Nykvarn. Não, nada indicava que se tratasse de um acerto de contas entre gângsteres. Não, não estava definido que Lisbeth Salander era a única culpada dos assassinatos de Enskede - a polícia jamais afirmara que era ela a assassina - disse Ekström. Só estavam à sua procura para ouvir o que ela tinha a dizer sobre o caso.

Lisbeth Salander franziu o cenho. Aparentemente, alguma coisa acontecera nos bastidores da investigação policial.

Ela correu para a internet e leu, para começar, as páginas dos jornais, e depois entrou sucessivamente no disco rígido do procurador Ekström, no de Dragan Armanskij e no de Mikael Blomkvist.

A caixa postal de Ekström continha várias mensagens interessantes, notadamente um memorando enviado pelo inspetor Jan Bublanski às 17h22. Era sucinto e bastante crítico quanto à maneira como Ekström vinha conduzindo o inquérito preliminar. O e-mail terminava com o que decerto devia ser considerado um ultimato. Bublanski procedia por pontos. Exigia (a) que a inspetora Sonja Modig fosse imediatamente reintegrada à sua equipe, (b) que fosse alterada a orientação da investigação no sentido de obter culpados alternativos para os assassinatos de Enskede e (c) que se abrisse uma verdadeira investigação sobre o misterioso indivíduo conhecido pelo nome de Zala.

[As acusações contra Lisbeth Salander baseiam-se num único e pesado indício - suas impressões digitais na arma do crime. Isso constitui de fato, como você sabe muito bem, uma prova de que ela manipulou a arma, mas não uma prova de que ela a usou, e muito menos de que a apontou para as vítimas.

Na atual situação, sabemos que outros atores estão envolvidos nessa tragédia, que a polícia de Södertalje descobriu dois corpos enterrados e vai cavar um terceiro ponto. O tal depósito pertence a um primo de Carl-Magnus Lundin. A mim parece evidente que Lisbeth Salander, não obstante a sua violência e qualquer que seja o seu perfil psicológico, não tem nada a ver com isso tudo.]

Bublanski concluía declarando que, se suas exigências não fossem atendidas, se sentiria obrigado a se retirar das investigações, o que não faria sem um certo alarde. Ekström lhe respondera que fizesse o que achasse melhor.

No disco rígido de Dragan Armanskij, Lisbeth achou outras informações, mas essas a deixaram um tanto perplexa. Uma breve troca de e-mails com o departamento contábil esclarecia que Niklas Eriksson estava deixando a empresa. Receberia o proporcional de férias e os três meses de indenização por demissão. Um e-mail endereçado ao vigia determinava que, tão logo entrasse no prédio, Eriksson fosse obrigatoriamente escoltado até sua sala para pegar seus objetos pessoais, e em seguida conduzido para fora. Um e-mail para o setor técnico determinava que solicitassem a Eriksson sua chave mestra.

O mais interessante, porém, era uma troca de e-mails entre Dragan Armanskij e Frank Alenius, o advogado da Milton Security. Dragan perguntava qual a melhor maneira de representar Lisbeth Salander, caso ela fosse presa. A princípio, Alenius respondia que não havia nenhum motivo para a Milton se comprometer na defesa de uma ex-funcionária acusada de assassinato - o fato de a empresa se envolver num caso desses podia passar uma imagem negativa. Armanskij retrucava, furioso, que a afirmação de que Lisbeth Salander teria cometido assassinato ainda precisava ser provada e que a questão era apoiar uma ex-funcionária que ele, Dragan Armanskij, considerava inocente.

Lisbeth abriu o disco rígido de Mikael Blomkvist e constatou que não havia nada escrito, ele nem sequer abrira o computador desde o dia anterior bem cedo. Não havia nada de novo.

Steve Bohman depositou a pasta em cima da mesa de reuniões, na sala de Dragan Armanskij. Sentou-se pesadamente. Fráklund pegou a pasta, abriu-a e pôs-se a ler. Dragan Armanskij estava em frente à janela, contemplando a cidade velha.

—Acho que essas são as últimas informações que vou poder passar. Estou fora da investigação a partir de hoje - disse Bohman.