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—Não é culpa sua - disse Frãklund.

—Não, não é culpa sua -repetiu Armanskij, sentando-se.

Ele reunira, numa pilha sobre a mesa, todo o material fornecido por Bohman naquelas quase duas semanas.

—Você fez um bom trabalho, Steve. Falei com o Bublanski. Ele chegou a lamentar estar te perdendo, mas não teve escolha, por causa do Eriksson.

—Tudo bem. Eu me dei conta de que estou bem melhor aqui do que em Kungsholmen.

—Você pode nos dar um resumo da situação?

—Bem, se o objetivo era achar Lisbeth Salander, fracassamos lamentavelmente. Foi uma investigação caótica, com conflitos no nível da direção, e Bublanski talvez não tenha tido controle absoluto das averiguações.

—Hans Faste...

—O Hans Faste é um canalha. Mas o problema não é só o Faste e uma investigação caótica. O Bublanski fez questão de que todas as possibilidades fossem examinadas com o maior cuidado. O fato é que a Salander tem mesmo talento para apagar as pistas atrás de si.

—Mas a sua tarefa não era só pegar a Salander - interrompeu Armanskij.

—Não, e ainda bem que não informaram o Niklas Eriksson da minha segunda tarefa quando começamos. De fato, eu também assumi ser seu informante e espião, e cuidar para que a Salander não viesse a ser enforcada caso fosse inocente.

—E qual é, hoje, a sua opinião?

—Quando a gente começou, eu tinha certeza de que ela era culpada. Hoje já não sei mais. Surgiram tantas contradições...

—Sim?

—...que já não a considero a principal suspeita. Estou mais inclinado a concordar com o Mikael Blomkvist.

—Isso significa que precisamos achar culpados alternativos. Vamos repassar toda a investigação desde o começo - disse Armanskij, e serviu café para os participantes da reunião.

Lisbeth Salander vivia uma das piores noites de sua vida. Lembrou-se do momento em que jogara a bomba incendiaria pelo vidro do carro de Zalachenko. A partir daquele momento, seus pesadelos tinham cessado e ela experimentara uma verdadeira paz interior. Com o passar dos anos, outros problemas haviam surgido, mas eles sempre diziam respeito a ela mesma, e Lisbeth soubera administrá-los. Agora, porém, tratava-se de Mimmi.

Mimmi estava no hospital de Söder com o corpo todo quebrado. Mimmi era inocente. Não tinha nada a ver com essa história. Seu único crime era conhecer Lisbeth Salander.

Lisbeth se amaldiçoou. Era culpa sua. Deixou-se tomar pelo sentimento de culpa. Tinha mantido em segredo seu próprio endereço e pensara cuidadosamente em se proteger de todas as maneiras possíveis. E depois instalara Mimmi no endereço que todo mundo conhecia. Como pudera ser inconsciente a esse ponto? Era como se ela própria a tivesse moído de pancadas. Sentia-se tão infeliz que seus olhos se encheram de lágrimas. Lisbeth Salander não chora nunca. Enxugou as lágrimas.

Por volta das dez e meia, estava tão febril que não conseguia mais ficar no apartamento. Vestiu o casaco e se esgueirou noite adentro. Andou por ruas secundárias até chegar à Ringvágen, onde ficou parada em frente ao acesso do hospital de Söder. Tinha vontade de ir até o quarto de Mimmi, acordá-la e dizer que tudo ia acabar bem. Então avistou a luz azul de uma viatura para os lados de Zinken e entrou numa rua transversal antes que a vissem.

Voltou para casa pouco depois da meia-noite. Estava com frio, despiu-se e foi para a cama. Não conseguia dormir. À uma da manhã, levantou-se e, nua, atravessou o apartamento mergulhado no escuro. Entrou no quarto de hóspedes, no qual instalara uma cama e uma cômoda e onde nunca mais pusera os pés. Sentou-se no chão, encostada na parede, e fitou a escuridão. Lisbeth Salander com um quarto de hóspedes. Isso é uma piada? Ficou ali até as duas horas, tremendo de frio. Então se pôs a chorar. Não se lembrava de já ter chorado algum dia.

* * *

Às duas e meia, Lisbeth Salander tinha tomado um banho e se vestido. Ligou a cafeteira, preparou uns sanduíches e foi para o computador. Entrou no disco rígido de Mikael Blomkvist. Estava intrigada por ele não ter atualizado seu diário da investigação, mas não tinha tido energia para pensar no assunto durante a noite.

O diário continuava sem abrir, e ela foi dar uma olhada na pasta [LISBETH SALANDER]. Descobriu em seguida um documento novo intitulado [LISBETH-IMPORTANTE]. Verificou as propriedades do documento. Tinha sido criado à 00h52. Clicou duas vezes e leu a mensagem.

[Lisbeth, entre imediatamente em contato comigo. Esta história é pior do que tudo que eu podia imaginar. Estou sabendo quem é Zalachenko e acho que sei o que aconteceu. Conversei com Holger Palmgren. Entendi qual o papel de Teleborian e por que era importante trancar você na psiquiatria infantil. Acho que sei quem matou o Dag e a Mia. Acho que sei por que, mas estão me faltando umas peças essenciais deste quebra-cabeça. Não entendo qual o papel do Bjurman. ME LIGUE IMEDIATAMENTE, PODEMOS SOLUCIONAR ISSO TUDO. Mikael]

Lisbeth leu duas vezes o documento. O Super-Blomkvist tinha se esforçado. Primeiro da classe. Um danado de um primeiro da classe. Ele ainda acreditava que era possível resolver o que quer que fosse.

Ele queria o bem. Queria ajudar.

Não entendia que, o que quer que viesse a acontecer, para ela a vida estava acabada.

Sua vida tinha acabado antes de ela completar treze anos. Não existia solução nenhuma.

Abriu um novo documento e tentou redigir uma resposta para Mikael Blomkvist, mas os pensamentos rodopiavam dentro de sua cabeça... havia tantas coisas que ela queria dizer.

Lisbeth Salander estava apaixonada. Era de morrer de rir.

Ele jamais saberia. Ela jamais lhe daria o gostinho de achar graça no que ela sentia por ele.

Arrastou o documento para a lixeira e fitou a tela vazia. Mas ele também não merecia um silêncio completo de sua parte. Ele permanecera fiel no seu canto do ringue, feito um valente soldadinho. Ela criou um novo documento e escreveu uma linha só.

[Obrigada por ter sido meu amigo.]

Antes de mais nada, ela tinha que tomar algumas decisões logísticas. Precisava de um meio de transporte. Usar o Honda cor de vinho estacionado na Lundagatan era tentador, mas estava descartado. Nada no laptop do procurador Ekström indicava que alguém da investigação descobrira que ela havia comprado um carro, na certa porque a compra era tão recente que ela nem tivera tempo de mandar os papéis de emplacamento e do seguro. Mas Mimmi talvez tivesse dado com a língua nos dentes ao ser interrogada pelos tiras. Lisbeth não podia apostar no silêncio dela e sabia que a Lundagatan estava sob vigilância.

A polícia sabia que ela tinha uma moto, e a moto era ainda mais complicada de pegar na Lundagatan. Além disso, depois de alguns dias de um calor quase estivai, estava previsto um tempo instável com chuva, e ela não tinha muita vontade de sair de moto por estradas escorregadias.

Claro, ela poderia alugar um carro em nome de Irene Nesser, mas isso implicava algum risco. Sempre havia a possibilidade de alguém reconhecê-la, e o nome de Irene Nesser ficar queimado. O que seria uma catástrofe, já que representava sua única possibilidade de deixar o país.

Então sua boca exibiu uma contração que pretendia ser um sorriso. Havia, evidentemente, outra possibilidade. Ligou o computador e entrou na rede da Milton Security, navegou até a frota de veículos administrada por uma secretária na recepção da empresa. A Milton Security dispunha de noventa e cinco veículos, a maioria carros de vigilância com o logotipo da empresa. A maior parte ficava em diferentes estacionamentos da cidade. Mas também havia alguns carros à paisana que podiam ser utilizados, quando necessário, para deslocamentos de trabalho. Esses carros ficavam na garagem da sede da Milton, do lado Slussen. Praticamente na esquina da rua.