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Verificou o arquivo dos funcionários e escolheu Marcus Hedin, que acabava de sair de férias por quinze dias. Deixara o número de telefone de um hotel nas Ilhas Canárias. Ela alterou o nome do hotel e inverteu os algarismos do telefone de contato. Depois, inseriu uma observação dizendo que a última medida de Hedin antes de sair de férias fora levar um dos carros para o conserto, mencionando uma embreagem encrencada. Escolheu um Toyota Corolla automático que ela já tinha usado uma vez e alertou que o carro estaria de volta em uma semana.

Por fim, entrou no sistema e desprogramou as câmeras de vigilância nos locais onde teria de passar. Entre quatro e meia e cinco horas, elas retransmitiriam o filme da meia hora anterior, só que com o horário atualizado.

Pouco antes das quatro, sua mochila estava pronta. Continha duas mudas de roupa, duas bombas lacrimogêneas e o cacetete elétrico carregado. Olhou as duas armas que tinha angariado. Deixou de lado a Colt 1991 Government de Sandström e escolheu a P-83 Wanad polonesa de Benny Nieminen, com uma bala a menos no carregador. Era mais fina e se adaptava melhor à sua mão. Enfiou-a no bolso da jaqueta.

Lisbeth desligou o Powerbook, mas deixou-o no mesmo lugar em cima da mesa. Tinha transferido o conteúdo do disco rígido para um backup criptografado na internet, apagando em seguida todo o disco rígido com um programa criado por ela que tornava impossível a reconstituição do conteúdo. Achava que não ia precisar do PowerBook, que só iria atrapalhá-la. Em vez disso, levou seu Palm Tungsten de bolso.

Olhou ao redor. Teve a sensação de que nunca mais voltaria ao apartamento da Fiskaregatan e se deu conta de que estava deixando atrás de si segredos que talvez fosse melhor destruir. Então consultou o relógio e viu que não lhe restava muito tempo. Deu uma última olhada e apagou a luz do escritório.

Foi a pé até a Milton Security, entrou pela garagem e pegou o elevador para chegar aos escritórios. Não cruzou com ninguém nos corredores vazios e não foi difícil pegar a chave do carro no armário da recepção, que não estava trancado.

Trinta segundos depois, estava de volta à garagem, abrindo o Corolla com o controle remoto. Jogou a mochila no banco do passageiro e ajustou a posição do banco do motorista e do retrovisor. Usou sua antiga chave mestra para abrir a porta da garagem.

Um pouco antes das quatro e meia, deixou Söder Málarstrand pela ponte de Vãsterbron. O dia começava a raiar.

Mikael Blomkvist acordou às seis e meia. Não tinha ligado o despertador e só dormira três horas. Levantou-se, ligou o iBook e abriu a pasta [LISBETH SALANDER]. Viu imediatamente a breve resposta dela.

[Obrigada por ter sido meu amigo.]

Mikael sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas. Não era a resposta que ele esperava. Mais parecia uma despedida. Lisbeth Salander sozinha contra o resto do mundo. Foi até a cozinha ligar a cafeteira, depois ao banheiro. Vestiu um jeans enxovalhado e se deu conta de que não tinha tido tempo de lavar roupa nas últimas semanas - não lhe restava uma só camisa limpa. Vestiu um moletom por baixo do paletó cinza.

Enquanto preparava sanduíches na cozinha, vislumbrou de repente um reflexo metálico na bancada, entre o microondas e a parede. Franziu o cenho e usou um garfo para puxar um molho de chaves.

As chaves de Lisbeth Salander, que ele encontrara depois da agressão na Lundagatan e colocara em cima do micro-ondas, junto com a bolsa. Deviam ter caído. Com isso, tinha deixado de entregá-las com a bolsa para Sonja Modig.

Fitou o molho de chaves. Três chaves grandes e três pequenas. As maiores correspondiam à entrada de um prédio e de um apartamento com duas fechaduras. O apartamento dela. Não correspondiam às fechaduras da Lundagatan. Droga, onde é que ela estava morando?

Olhou mais de perto as três chaves menores. Uma delas devia ser da Kawasaki. A outra era uma típica chave de armário ou roupeiro. Ergueu a terceira. Havia o número 24914 gravado em cima. A informação o pegou de chofre.

Uma caixa postal. Lisbeth Salander tem uma caixa postal.

Passou em revista, na lista telefônica, as agências de correio do bairro de Södermalm. Ela tinha morado na Lundagatan. A agência de Ringen não ficava muito longe. Quem sabe a da Hornsgatan. Ou a da Roseralundsgatan.

Desligou a cafeteira, deixou o café da manhã para lá, pegou a BMW de Erika Berger e foi direto para a Rosenlundsgatan. A chave não entrou. Seguiu até a agência de correio da Hornsgatan. A chave encaixou perfeitamente na caixa postal n°- 24914. Abriu-a e encontrou vinte e duas cartas, que ele enfiou no bolso externo da maleta do computador.

Continuou rodando pela Hornsgatan, estacionou em frente ao Cine do Bairro e foi tomar café da manhã no Copacabana. Enquanto esperava seu caffè latte, examinou as cartas uma a uma. Eram todas endereçadas à Wasp Enterprises. Nove cartas tinham sido postadas na Suíça, oito nas Ilhas Caimãs, uma nas Ilhas Anglo-Normandas e quatro em Gibraltar. Sem nenhum pudor, abriu os envelopes. Os vinte e um primeiros continham extratos bancários e diversos resumos e avisos de operações. Mikael Blomkvist constatou que Lisbeth Salander estava montada na grana.

A vigésima segunda carta era mais volumosa. O endereço estava escrito a mão. O envelope trazia um logotipo impresso indicando o remetente, um endereço na Buchanan House, Queensway Quay, em Gibraltar. O papel timbrado da carta mostrava que fora enviada por Jeremy S. MacMillan, Solicitor. A letra era caprichada.

Jeremy S. MacMillan Solicitor

Dear Ms Salander,

This is to confirm that the final payment of your property has been concluded as of january 20. As agreed, I’m enclosing copies of all documentation but will keep the original set. I trust this will be to your satisfaction.

Let me add that I hope everything is well with you, my dear. I very much enjoyed the surprise visit you made last summer and, must say, I found your presence refreshing. I’m looking forward to, if needed, be of additional service. Yours faithfully,

J. S. M.*

A carta datava de 24 de janeiro. Lisbeth Salander, aparentemente, não verificava sua caixa postal com muita freqüência. Mikael deu uma olhada nos documentos anexos. Era o contrato de venda de um apartamento na Fiskaregatan, número 9, em Mosebacke.

Em seguida, por pouco não engasgou com o café. O custo da aquisição era de vinte e cinco milhões de coroas, pagas em duas prestações com um ano de intervalo.

Lisbeth Salander viu um homem moreno e forte abrir a porta lateral da Auto-Expert em Eskilstuna. Tratava-se de uma garagem de estacionamento e oficina de reparos, mas também de uma autolocadora. Uma dessas empresas comuns que se vê em qualquer lugar. Faltavam dez para as sete e, de acordo com uma placa na porta principal, a loja só abria às sete e meia. Ela atravessou a rua, abriu a porta lateral e seguiu o homem dentro da loja. Ele a ouviu e se virou.

—Refik Alba? - ela perguntou.

—Sim. Quem é você? Ainda não está aberto.

Ela ergueu a P-83 Wanad de Benny Nieminen e a apontou para o rosto dele, segurando a pistola com as duas mãos.

* Jeremy S. MacMillan Advogado.

Prezada Srta. Salander,

Escrevo-lhe para confirmar que a quitação final da sua propriedade foi concluída em 20 de janeiro. Conforme combinado, envio em anexo cópia de toda a documentação, os originais ficam conosco. Espero que fique satisfeita.

Permita-me acrescentar, minha cara, que desejo que esta a encontre bem. Apreciei muitíssimo a visita surpresa que nos fez no último verão e, devo dizer, achei sua presença muito agradável. Será um prazer, caso necessário, poder servi-la no futuro.