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Atenciosamente, J. S. M.

—Estou sem ânimo para conversar, e com pressa. Quero ver o seu registro de carros alugados. Quero ver agora. Você tem dez segundos.

Refik Alba tinha quarenta e dois anos. Era curdo, nascido em Diyarbakir, e já tivera sua cota de armas. Ficou paralisado. Então compreendeu que se uma maluca entrava na sua sala segurando uma pistola, não havia muito que discutir.

—Está no computador - disse ele.

—Ligue-o. Ele obedeceu.

—O que tem atrás desta porta? - ela perguntou enquanto o computador era iniciado e a tela começava a brilhar.

—É só um depósito.

—Abra a porta.

Ela avistou uns macacões de trabalho.

—Está bem. Entre tranqüilamente aí dentro, assim não vou precisar te machucar.

Ele obedeceu sem protestar.

—Pegue o seu celular, ponha no chão e empurre para mim. Ele fez o que ela mandou.

—Muito bem. Agora feche a porta.

Era um PC antigo com Windows 95 e um disco rígido de 280 MB. Levou uma eternidade para abrir o documento do Excel com o arquivo das locações. Constatou que o Volvo branco conduzido pelo gigante loiro tinha sido alugado duas vezes. Em janeiro, por duas semanas, e depois a partir de de março. Ainda não fora devolvido. Ele pagava toda semana por um aluguel de longa duração.

O nome dele era Ronald Niedermann.

Ela examinou as pastas da prateleira acima do computador. Na lombada de uma delas, estava caprichadamente escrito DOCUMENTOS DE IDENTIDADE. Ela pegou a pasta e folheou até chegar a Ronald Niedermann. Ao alugar o carro, em janeiro, ele apresentara o passaporte e Refik Alba apenas fizera uma fotocópia. Lisbeth reconheceu de imediato o gigante loiro. De acordo com o passaporte, ele era alemão, tinha trinta e cinco anos e nascera em Hamburgo. O fato de Refik Alba ter feito uma cópia do passaporte indicava que Ronald Niedermann era um cliente comum, e não um conhecido que só tinha tomado o carro emprestado.

Bem embaixo, Refik Alba anotara um número de celular e o endereço de uma caixa postal em Göteborg.

Lisbeth guardou o arquivo no lugar e desligou o computador. Olhou ao redor e viu no chão uma cunha de borracha que servia para manter a porta da frente trancada na posição aberta. Pegou-a, aproximou-se do armário e bateu na porta com o cano da pistola.

—Você aí dentro, está me ouvindo?

—Sim.

—Sabe quem eu sou? Silêncio.

Ele deve ser cego se não me reconheceu.

—Está certo. Você sabe quem eu sou. Está com medo de mim?

—Estou.

—Não precisa ter medo, seu Alba. Não vou lhe fazer nenhum mal. Estou quase acabando. Desculpe o transtorno.

—Hã... Está bem.

—Você tem ar suficiente aí dentro para respirar?

—Sim... a propósito, o que está procurando?

—Queria conferir se uma certa mulher alugou um carro aqui há dois anos - ela mentiu. — Não consegui achar o que eu estava procurando. Mas não é culpa sua. Vou embora daqui a uns minutinhos.

—Certo.

—Vou enfiar esse troço de borracha debaixo da porta para bloqueá-la. A porta é fininha, você vai conseguir arrombar, só que vai levar um tempo. Não precisa chamar a polícia. Não vai me ver nunca mais, pode abrir a loja hoje normalmente e fazer de conta que este incidente não aconteceu.

A probabilidade de ele não chamar a polícia era praticamente zero, mas não custava sugerir que ele pensasse em outra alternativa. Ela deixou a loja e voltou para o seu Toyota Corolla emprestado na esquina da rua, e ali rapidamente se transformou em Irene Nesser.

Estava irritada por não ter achado o verdadeiro endereço do gigante loiro, de preferência na região de Estocolmo, em vez de uma caixa postal do outro lado da Suécia. Mas era a única pista que ela tinha. Bem, então toca para Göteborg.

Rodou até o acesso para a E20 e em Arboga seguiu na direção oeste. Ligou o rádio, mas acabava de perder o noticiário e, caindo numa estação comercial, escutou alguém cantar putting out fire with gasoline. Não sabia que era David Bowie cantando e não conhecia aquela música, mas entendeu que eram palavras proféticas.

30 - QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL

Mikael contemplou a porta do hall de entrada do número 9 da Eiskaregatan, em Mosebacke. O endereço era um dos mais exclusivos c discretos de Estocolmo. Ele enfiou a chave na fechadura e ela entrou perfeitamente. O painel na escada não foi de grande ajuda. Mikael ponderou que a maioria dos apartamentos daquele prédio devia abrigar sedes de empresas, com exceção de alguns poucos moradores comuns. A ausência do nome de Lisbeth Salander no painel não o surpreendia, mas era difícil imaginá-la escondendo-se ali.

Subiu as escadas, lendo as placas das portas andar por andar. Nenhum nome fazia sentido para ele. Até que no último andar leu V. Kulla na porta.

Mikael bateu com a mão na testa. Villa Villerkulla, a casa de Píppi Meia-longa! Sorriu de repente. Em que outro lugar o Super-Blomkvist poderia encontrar Lisbeth Salander? Mas refletiu que aquela escolha podia não ter a ver com ele pessoalmente.

Tocou a campainha e esperou um minuto. Então pegou o molho de chaves e abriu a fechadura de segurança e a fechadura normal junto à maçaneta.

Quando abriu a porta, o alarme começou a uivar.

* * *

O celular de Lisbeth Salander tocou quando ela estava na E20, à altura de Glanshammar, perto de Orebro. Ela freou imediatamente o carro e parou no acostamento de emergência. Apanhou o Palm no bolso e ligou-o ao celular.

Há quinze segundos, alguém tinha aberto a porta de seu apartamento. O alarme não estava conectado a uma empresa de segurança. Servia para avisá-la diretamente sobre qualquer intrusão ou tentativa de arrombamento. Passados trinta segundos, o alarme disparava e o intruso tinha a desagradável surpresa de ser aspergido com o conteúdo de uma lata de tinta instalada sobre o que parecia ser uma tomada de derivação atrás da porta. Ela sorriu, excitada, e contou os segundos.

Mikael contemplou frustrado, o painel de alarme ao lado da porta. Francamente, não lhe passara pela cabeça que o apartamento pudesse ter alarme. Viu um contador digital marcando os segundos. Na Millennium, o alarme disparava quando o código de quatro algarismos não era digitado em trinta segundos; em seguida apareciam os grandalhões de uma empresa de segurança.

Seu primeiro impulso foi fechar a porta e deixar rapidamente o local. Mas ficou como paralisado.

Quatro algarismos. Digitar o código certo ao acaso era totalmente impossível. 25,24,23,22... Caraca, sua Píppi Meia... 19, 18...Que código você foi escolher? 15, 14, 13...Sentiu-se tomado pelo pânico.10, 9, 8... Então ergueu a mão e digitou o único número que lhe vinha à mente. 9277. Os algarismos correspondentes às letras WASP nas teclas do celular.

Para grande surpresa de Mikael, a contagem regressiva parou seis segundos antes do fim. Então a sirene piou uma última vez, o contador voltou ao zero e uma luz verde se acendeu.

Lisbeth arregalou os olhos. Achou que não tinha enxergado direito e até sacudiu o computador de mão, num gesto que ela sabia ser totalmente irracional. A contagem regressiva tinha parado seis segundos antes de a bomba de tinta ser acionada. E um instante depois o contador voltou ao zero.

Impossível.

Ninguém conhecia aquele código. E não havia nenhuma empresa de segurança conectada ao alarme, que pudesse desativá-lo. Como?

Não conseguia entender. A polícia? Não. Zala? Negativo.

Discou um número no celular e esperou que a câmera de segurança se conectasse e enviasse imagens de baixa resolução para o celular. A câmera estava escondida dentro do que parecia ser um detector de fumaça no teto, e captava uma imagem por segundo. Ela repassou toda a seqüência desde o começo - o instante zero em que a porta tinha sido aberta e o alarme ativado. Então um sorriso enviesado se abriu lentamente em seu rosto quando viu Mikael Blomkvist executando, por quase trinta segundos, uma pantomima nervosa, até digitar o código e em seguida se apoiar no vão da porta como quem acaba de escapar de um ataque cardíaco.