Esse danado do Super-Blomkvist tinha achado!
Ele estava com as chaves que ela tinha perdido na Lundagatan. Era esperto o bastante para lembrar que Wasp era o seu pseudônimo na internet. E se ele tinha achado o apartamento, talvez também tivesse descoberto que era propriedade da Wasp Enterprises. Então ela viu que ele se deslocava, nervoso, pelo hall e desaparecia rapidamente do campo da objetiva.
Droga. Como é que eu posso ter sido tão previsível? E por que deixei... agora todos os meus segredos estão bem diante dos olhos futriqueiros do Super-Blomkvist.
Depois de um breve instante de reflexão, concluiu que aquilo não tinha mais importância. Ela apagara o disco rígido. Isso é que importava. Talvez até fosse uma vantagem ter sido justamente Mikael Blomkvist a encontrar seu esconderijo. Ele já sabia mais sobre seus segredos do que qualquer outro ser humano. O primeiro aluno da classe faria o que precisava ser feito. Não ia entregá-la, ela pensou. Engatou a primeira e continuou pensativa, seu trajeto para Göteborg.
Malu Eriksson topou com Paolo Roberto na escada da redação da Millennium quando chegou ao trabalho às oito e meia da manhã. Reconheceu-o imediatamente, apresentou-se e o convidou a entrar na redação. Ele estava mancando para valer. Ela sentiu cheiro de café e concluiu que Erika Berger já tinha chegado.
—Olá, Berger. Obrigado por me receber assim de improviso - disse Paolo.
Impressionada, Erika examinou sua coleção de hematomas e gaios no rosto antes de se inclinar e lhe dar um beijo no rosto.
—Você está mesmo com uma cara péssima - disse ela.
—Não é a primeira vez que eu quebro o nariz. O que você fez com o Blomkvist?
—Ele foi para algum lugar brincar de detetive. Como sempre, está incomunicável. A não ser por um e-mail estranho que ele me mandou ontem à noite, estou sem notícias dele desde ontem de manhã. Obrigada por ter... enfim, obrigada.
Ela apontou para o rosto dele. Paolo Roberto riu.
—Quer um café? Você disse que tinha uma coisa para me contar. Malu, você vem com a gente?
Sentaram-se nas confortáveis poltronas da sala de Erika.
—É o idiota do grandalhão loiro com quem eu briguei. Eu disse ao Mikael que o boxe dele não vale nada. Mas o estranho é que ele ficava o tempo todo com os punhos na posição de defesa e se movia em círculos como se fosse um boxeador. Deu-me a impressão de que ele já tinha tido algum tipo de treinamento.
—O Mikael me disse isso ontem ao telefone - observou Malu.
—Eu não conseguia tirar essa imagem da cabeça e, ontem à tarde, quando voltei para casa, sentei no computador e mandei uns e-mails para vários clubes de boxe da Europa. Contei o que tinha acontecido e passei uma descrição detalhada do cara.
—Certo.
—Acho que funcionou.
Pôs diante de Erika e Malu uma foto transmitida por fax. Parecia ter sido tirada durante um treino numa sala de boxe. Dois boxeadores escutavam as instruções de um homem gordo, já não tão jovem, que usava um abrigo de moletom e um chapéu de couro de aba estreita. Em volta do ringue, havia umas seis pessoas escutando. Ao fundo, um homem alto, segurando uma caixa de papelão. Lembrava um skinhead, com a cabeça raspada. Alguém circulara sua imagem com caneta.
—A foto é de dezessete anos atrás. O cara ali no fundo se chama Ronald Niedermann. Tinha dezoito anos nesta foto, de modo que hoje deve estar beirando os trinta e cinco. Bate com o gigante que sequestrou a Miriam Wu. Não posso afirmar que é ele com cem por cento de certeza. A foto é meio antiga e a qualidade está bem ruim. Mas posso dizer que a semelhança é impressionante.
—De onde saiu essa foto?
—Recebi uma resposta do Dynamic, de Hamburgo. De um velho treinador chamado Hans Münster.
—Sim?
—Ronald Niedermann lutou boxe durante um ano nesse clube, no fim da década de 1980. Ou melhor, tentou lutar. Recebi o e-mail hoje de manhã e liguei para o Münster antes de vir para cá. Resumindo o que diz o Münster: Ronald Niedermann é natural de Hamburgo, andava com uma turma de skins nos anos 1980. Tinha um irmão um pouco mais velho, um boxeador realmente talentoso, e foi através desse irmão que ele entrou no clube. O Niedermann tinha uma força colossal e um físico único. Diz o Münster que nunca, nem entre os melhores, tinha visto alguém bater com tanta força. Um dia, mediram o golpe dele e, por assim dizer, ele rebentou o dinamômetro.
—Ao que parece, ele podia ter feito carreira no boxe - disse Erika. Paolo Roberto balançou a cabeça.
—De acordo com o Münster, era impossível mantê-lo dentro de um ringue. Por vários motivos. Primeiro, ele não conseguia aprender a lutar boxe. Ficava parado no lugar, mandando ver swings de amador. Era incrivelmente desajeitado, o que bate com o cara de Nykvarn. Mas o pior é que ele não controlava a própria força. De vez em quando, conseguia acertar um golpe que causava o maior estrago nos coitados dos sparring-partners. Resultado: narizes quebrados e maxilares detonados, ferimentos desnecessários o tempo todo. Eles simplesmente não podiam mantê-lo.
—Ele sabia lutar, sem saber - disse Malu.
—Isso mesmo. Mas o verdadeiro motivo de ele parar de lutar boxe foi um motivo médico.
—Como assim?
—O cara parecia praticamente invulnerável. Podiam chover golpes em cima dele, ele só se sacudia e continuava lutando. Descobriram que ele tinha uma doença extremamente rara, chamada analgesia congênita.
—O quê? Repita...
—Analgesia congênita. Procurei na internet. É uma falha genética que faz com que a transmissão no que eles chamam de fibras C não funcione como deveria. Resumindo, ele não sente dor.
—Nossa! Mas não é esse o sonho de todo boxeador?... Paolo Roberto balançou a cabeça.
—Pelo contrário. É uma doença que põe a vida da pessoa em risco. A maioria dos pacientes morre bastante jovem, lá pelos vinte, vinte e cinco anos. A dor é um sistema de alarme que avisa o cérebro de que algo não vai bem. Se você põe a mão numa chapa incandescente, dói e você tira a mão rapidinho. Quem tem essa doença não se dá conta de nada até sentir cheiro de carne queimada.
Malu e Erika trocaram um olhar.
—Você está falando sério? - perguntou Erika.
—Seriíssimo. O Ronald Niedermann não pode sentir nada, é como se ele estivesse sob poderosa anestesia local vinte e quatro horas por dia. Ele se safou porque tem sorte de ter outra particularidade genética para compensar. É dono de uma constituição física extraordinária, com uma ossatura extremamente forte, que o torna quase invulnerável. A força natural dele é, a bem dizer, única. E ele também deve cicatrizar com facilidade.
—Estou começando a perceber como essa luta que você travou com ele deve ter sido interessante.
—Foi sim. Mas não gostaria de repetir a dose. A única coisa que causou um esboço de reação nele foi quando a Miriam Wu lhe enfiou um pontapé no saco. Ele caiu de joelhos por um segundo... deve haver algum tipo de motricidade ligado a esse tipo de golpe, já que dor ele não deve ter sentido. E pode acreditar, eu, pessoalmente, morria se levasse um golpe desses.
—Mas então como se explica você ter vencido a luta?
—As pessoas que têm essa doença ficam feridas, claro, do mesmíssimo jeito que as pessoas comuns. Tudo bem o Niedermann ter um esqueleto de aço. Mas quando eu bati com a tábua, ele desabou. Concussão cerebral, provavelmente.