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Erika olhou para Malu.

—Vou ligar para o Mikael agora mesmo - disse Malu.

Mikael escutou o toque do celular, mas estava tão abalado que só respondeu no quinto sinal.

—É a Malu. O Paolo Roberto acha que identificou o gigante loiro.

—Ótimo - disse Mikael distraidamente.

—Onde você está?

—Difícil de explicar.

—Você está esquisito.

—Desculpe. O que você estava dizendo? Malu resumiu a história de Paolo.

—Está bem - disse Mikael. —Continuem vendo isso e descubra se ele está fichado em algum lugar. Acho que é urgente. Me ligue no celular.

Para espanto de Malu, Mikael encerrou a conversa sem nem se despedir.

Naquele momento, Mikael estava diante de uma janela e admirava a vista magnífica que se estendia da cidade velha até bem longe sobre o Saltsjön. Sentia-se entorpecido, quase chocado. Dera uma volta no apartamento de Lisbeth Salander. Havia uma cozinha à direita, no hall de entrada. Depois uma sala, um escritório, um quarto e, por fim, um quartinho de hóspedes que parecia nunca ter sido usado. O colchão continuava embalado no plástico e não tinha lençóis. Todos os móveis eram novos e impecáveis, vindos diretamente da Ikea.

O problema não era esse.

O que perturbava Mikael era Lisbeth Salander ter comprado um dos ex-apartamentos do bilionário Percy Barnevik, avaliado em vinte e cinco milhões de coroas. Ele devia ter, tranqüilamente, uns trezentos e cinquenta metros quadrados.

Mikael passou pelos corredores desertos e fantasmagóricos e por peças imensas com parquete em marchetaria de diferentes madeiras e papéis de parede decorados de Tricia Guild, do tipo que Erika Berger mencionava com um respeitoso deslumbramento. O apartamento se organizava em torno de uma sala magnífica, com uma lareira que Lisbeth parecia não ter utilizado. Havia uma sacada imensa com uma vista fantástica, lavanderia, sauna, sala de ginástica, despensas e um banheiro com banheira king size. Havia até uma adega de vinhos, vazia, a não ser por uma garrafa de porto Quinta do Noval - Nacional! - de 1976. Mikael custava a imaginar Lisbeth Salander com uma taça de vinho do porto na mão. Um cartão de visitas indicava que se tratava de um presente de boas-vindas da imobiliária.

A cozinha era equipada com tudo que se podia imaginar, em torno de um cintilante fogão francês a gás, um Corradi Château 120 de que Mikael nunca tinha ouvido falar e no qual Lisbeth só fervera água para o chá.

Em compensação, sentiu enorme respeito pela máquina de café expresso que tronava à parte, uma Jura Impressa modelo X7 com resfriador de leite incorporado. A máquina tampouco parecia ter sido usada, já devia estar no apartamento quando Lisbeth o comprara. Mikael sabia que uma Jura era a Rolls-Royce do mundo dos espressos - um aparelho profissional para uso doméstico que custava em torno de setenta mil coroas. Ele próprio possuía uma máquina bem mais modesta, comprada na John Wall, que já custava quase três mil e quinhentas coroas - uma das raras extravagâncias com que se permitira equipar sua cozinha.

Dentro da geladeira havia uma caixa aberta de leite, queijo, manteiga, pasta de peixe e um vidro de pepinos em conserva pela metade. No armário, achou quatro frascos semiconsumidos de vitaminas, saquinhos de chá, café para uma cafeteira absolutamente comum que estava na bancada, dois pães e um pacote de torradas. Na mesa da cozinha, um cesto com maçãs. O congelador abrigava um gratinado de peixe e três tortas de bacon. No lixo, sob a bancada, ao lado do fogão de luxo, encontrou várias caixas vazias de Billys Pan Pizza.

Era tudo absolutamente fora de proporção. Lisbeth tinha surrupiado alguns bilhões e comprara um apartamento onde poderia hospedar a corte real inteirinha. Mas só usava os quatro cômodos que havia mobiliado. Os outros dezoito estavam totalmente vazios.

Mikael encerrou sua turnê pelo escritório. Não havia, em todo o apartamento, uma única planta. Nenhum quadro nas paredes, nem mesmo pôsteres. Não havia tapetes ou guardanapos. Em lugar nenhum viu alguma saladeira decorativa, um castiçal ou um bibelô tipo suvenir que acrescentasse algum calor humano ao ambiente ou que ela pudesse ter guardado por razões sentimentais.

Mikael sentiu seu coração se apertar. Queria a todo custo encontrar Lisbeth Salander e abraçá-la.

No mínimo, ela iria mordê-lo, se ele tentasse. Canalha do Zalachenko!

Depois se sentou à mesa de trabalho e abriu a pasta com o relatório de Björck de 1991. Não leu tudo, só percorreu as páginas tentando resumir.

Abriu o Powerbook com tela de dezessete polegadas, disco rígido de 200 GB e 1000 MB de memória RAM. Vazio. Ela tinha feito uma limpeza. Não era um bom presságio.

Abriu as gavetas e deparou imediatamente com um Colt 1911 Government single action de nove milímetros e um carregador cheio com sete cartuchos. Era o revólver que Lisbeth Salander pegara do jornalista Per-Âke Sandström, mas isso Mikael ignorava. Ainda não tinha chegado na letra S da sua lista de clientes sexuais.

Depois, achou o CD marcado “Bjurman”.

Enfiou-o no iBook e, horrorizado, descobriu o conteúdo do filme. Ficou parado, chocado ao ver Lisbeth Salander sendo maltratada, estuprada e quase assassinada. O filme fora obviamente rodado com uma câmera oculta. Não o assistiu inteiro, mas foi passando, de uma para outra, as seqüências que iam se superando num horror crescente.

Bjurman.

O tutor de Lisbeth Salander a tinha estuprado e ela possuía um testemunho do fato nos mínimos detalhes. Uma data digital revelava que o filme datava de dois anos. Antes de eles se conhecerem. Várias peças do quebra-cabeça se encaixaram no lugar.

Björck e Bjurman com Zalachenko nos anos 1970.

Zalachenko e Lisbeth Salander e um coquetel Molotov artesanal numa caixa de leite no início dos anos 1990.

Então, Bjurman novamente, agora seu tutor depois de Holger Palmgren. O círculo se fechava. O sujeito tinha violentado a sua tutelada. Vira nela uma doente mental indefesa, mas Lisbeth Salander não era indefesa. Era a menina que aos doze anos comprara uma briga com um matador profissional aposentado do GRO e o transformara num inválido.

Lisbeth Salander era a mulher que odiava os homens que não gostavam de mulheres.

Recordou a época em que aprendera a conhecê-la, em Hedestad. Devia ter sido poucos meses depois do estupro. Não lembrava de ela ter dito uma palavra sequer sugerindo o fato. No total, não revelara muita coisa sobre si mesma. Mikael não conseguia nem imaginar o que ela tinha feito com Bjurman - mas, estranhamente, não o tinha matado. Pois nesse caso Bjurman teria morrido dois anos mais cedo. Ela provavelmente tinha bolado um jeito de mantê-lo sob controle, com um objetivo que ele nem imaginava. Então Mikael se deu conta de que estava com o instrumento de controle bem diante de si, sobre a mesa. O CD. Enquanto ela estivesse de posse do CD, Bjurman seria seu escravo impotente. E Bjurman tinha se voltado para o homem que ele julgava ser um aliado. Zalachenko. O pior inimigo de Lisbeth. Seu pai.

Depois disso, um encadeamento de fatos. Bjurman assassinado, e também Dag e Mia.

Mas como...? O que poderia ter transformado Dag Svensson numa ameaça?

E, súbito, Mikael compreendeu o que com toda a certeza tinha acontecido em Enskede.

Logo em seguida, Mikael viu o pedaço de papel, no chão, junto à janela. Lisbeth imprimira uma página, amassara e jogara no chão. Desamassou o papel. Era uma edição on-line do Aftonbladet sobre o sequestro de Miriam Wu.

Mikael não sabia qual o papel de Miriam Wu naquele drama - se é que ela tinha algum papel -, mas ela fora uma das raras amigas de Lisbeth. Talvez a única. Lisbeth lhe dera seu antigo apartamento. E agora ela estava gravemente ferida no hospital. Niedermann e Zalachenko.