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Primeiro sua mãe. Depois Miriam Wu. Lisbeth devia estar louca de ódio. Aqueles caras tinham esticado a sua corda. E agora ela estava atrás deles.

Por volta do meio-dia, Dragan Armanskij recebeu uma ligação do centro de reeducação de Ersta. Vinha esperando um telefonema de Holger Palmgren fazia algum tempo, e até evitara entrar em contato com ele. Temia ser obrigado a admitir que Lisbeth Salander era culpada. Agora pelo menos tinha a possibilidade de dizer que existiam dúvidas pertinentes quanto a essa culpa.

—Como andam as coisas? - perguntou Palmgren, pulando as palavras de cortesia.

—Que coisas? - disse Armanskij.

—Sua investigação sobre a Salander.

—E o que o leva a crer que estou fazendo uma investigação desse tipo?

—Não desperdice o meu tempo. Armanskij suspirou.

—Tem razão - disse.

—Quero que venha me ver - disse Palmgren.

—Está bem. Posso passar aí neste fim de semana.

—Não serve. Quero que você venha hoje no final do dia. Temos muito que conversar.

Mikael tinha feito café e preparado sanduíches na cozinha de Lisbeth. Uma parte dele esperava ouvir, de repente, o barulho das chaves dela na fechadura. Mas, claro, era uma esperança vã. O disco rígido vazio do Power-Book mostrava que ela tinha saído da toca de vez. Descobrira seu endereço tarde demais.

Às duas e meia, ainda estava sentado à mesa de trabalho de Lisbeth.

Tinha lido três vezes o relatório do simulacro de investigação de Björck, redigido em forma de memorando para um superior anônimo. A recomendação era simples: que encontrassem um psiquiatra cooperativo que conseguisse internar Salander na psiquiatria infantil por alguns anos. De qualquer modo, a menina era mesmo perturbada, seu comportamento o indicava claramente.

Mikael pretendia debruçar-se mais detidamente sobre Björck e Teleborian num futuro próximo. Essa idéia o deixou satisfeito. Seu celular pôs-se a tocar e atrapalhou o rumo de seus pensamentos.

—Oi de novo. Ê a Malu. Tenho impressão que achei alguma coisa.

—O quê?

—Não existe nenhum Ronald Niedermann no registro civil sueco. Ele não consta na lista telefônica nem no cadastro de contribuintes, de placas de automóveis, em lugar nenhum.

—Percebo.

—Mas escute esta. Em 1998, foi criada uma sociedade anônima, para cujo nome foi feito um registro de marca. Chama-se KAB Import S. A. e o endereço é uma caixa postal em Göteborg. A empresa atua em importação de material eletrônico. O presidente se chama Karl Axel Bodin, ou seja, KAB, e nasceu em 1941.

—Isso não me diz absolutamente nada.

—Nem para mim. O restante da diretoria é composto de um auditor fiscal que atua em algumas dezenas de empresas, para as quais ele faz a contabilidade. Parece ser um desses contadores que trabalham para várias empresas pequenas ao mesmo tempo. Essa, porém, permaneceu inativa praticamente desde o começo.

—Percebo.

—O terceiro membro da diretoria é um tal de R. Niedermann. Consta uma data de nascimento, mas nenhum número de identidade. O que significa que ele não tem registro na Suécia. Nasceu em 18 de janeiro de 1970, e é citado como representante da empresa no mercado alemão.

—Legal, Malu. Legal. Tem algum outro endereço além da caixa postal?

—Não, mas descobri o Karl Axel Bodin. Ele mora no Oeste da Suécia e seu endereço é a caixa postal n- 612 de Gosseberga. Eu verifiquei, parece ser uma fazenda perto de Nossebro, a nordeste de Göteborg.

—O que se sabe sobre ele?

—Há dois anos, ele declarou uma renda de duzentas e sessenta mil coroas. Não tem ficha criminal, segundo aquele nosso amigo da polícia. Possui porte de armas para uma carabina de caça ao alce e uma espingarda de chumbo. Tem dois carros, um Ford e um Saab, ambos modelo antigo. Nada consta na Receita. É solteiro e se declara agricultor.

—Um anônimo sem nenhum caso na Justiça.

Mikael refletiu alguns segundos. Precisava fazer uma escolha.

—Outra coisa. O Dragan Armanskij, da Milton Security, ligou várias vezes para você durante o dia.

—Está bem. Obrigado, Malu. Vou ligar para ele.

—Mikael... Está tudo bem?

—Não, não está tudo bem. Te ligo depois.

Sabia que não estava se comportando como deveria. Como bom cidadão, deveria pegar o telefone e ligar imediatamente para Bublanski. Se fizesse isso, porém, seria obrigado a contar a verdade sobre Lisbeth Salander, ou ficaria numa situação enrolada entre meias-mentiras e partes omitidas. Mas o problema ainda não era esse.

Lisbeth Salander tinha ido atrás de Niedermann e Zalachenko. Mikael não sabia onde ela estava, mas se Malu tinha conseguido achar a caixa postal 612 em Gosseberga, Lisbeth Salander também podia ter conseguido. Era grande, portanto, a possibilidade de ela estar a caminho de Gosseberga. Seria a próxima etapa natural.

Se Mikael ligasse para a polícia e revelasse onde Niedermann estava entocado, seria obrigado a contar que Lisbeth Salander estava provavelmente indo para lá naquele momento. Ela estava sendo procurada por três assassinatos e uso de arma em Stallarholmen. Isso significava que a força de intervenção nacional, ou sabe Deus lá que comando do gênero, seria despachada para prendê-la.

E era provável que Lisbeth Salander resistisse violentamente. Mikael pegou um papel e uma caneta, e fez uma lista do que ele não podia ou não queria contar à polícia. Para começar, escreveu o endereço.

Lisbeth tivera o maior cuidado em constituir um endereço secreto. Ah estavam sua vida e seus segredos. Ele não tinha a intenção de traí-la. Depois, escreveu Bjurman, seguido de um ponto de interrogação.

De relance, olhou para o CD em cima da mesa à sua frente. Bjurman tinha estuprado Lisbeth. Por pouco não a matara, e se aproveitara vergonhosamente de sua condição de tutor. Não havia a menor dúvida sobre isso. Ele tinha de ser denunciado como o canalha que era. Só que nesse ponto surgia um problema ético. Lisbeth não prestara queixa contra ele. Será que iria querer ser jogada à mídia através de uma investigação policial cujos detalhes mais íntimos vazariam em poucas horas? Ela jamais o perdoaria. O CD constituía uma prova, e alguns trechos causariam um belo impacto nos tabloides.

Ponderou alguns instantes e concluiu que, afinal, cabia a Lisbeth decidir como queria agir. Mas, se ele tinha encontrado o apartamento, mais cedo ou mais tarde a polícia conseguiria fazer o mesmo. Guardou o CD num envelope e o enfiou em sua sacola.

Escreveu, em seguida, O relatório de Björck. O relatório de 1991 era considerado segredo de Estado. Esclarecia tudo o que se passara. Citava o nome de Zalachenko, explicava o papel de Björck e, com a lista dos clientes sexuais do computador de Dag Svensson, Björck iria passar momentos difíceis com Bublanski. Graças à correspondência, Peter Teleborian também se veria em maus lençóis.

O arquivo iria direcionar a polícia para Gosseberga... mas pelo menos Mikael teria algumas horas de vantagem.

Por fim, abriu o Word e escreveu, item por item, todos os fatos importantes que havia descoberto nas últimas vinte e quatro horas graças às conversas com Björck e Palmgren e aos documentos encontrados na casa de Lisbeth. A tarefa tomou-lhe uma hora. Gravou o documento num CD, junto com sua própria investigação.

Perguntou-se se deveria dar notícias a Dragan Armanskij, mas resolveu deixar para lá. Já tinha coisas demais para cuidar.

Mikael passou na redação da Millennium e se trancou na sala com Erika Berger.

—Ele se chama Zalachenko - disse Mikael sem nem cumprimentá-la. —É um antigo assassino soviético do serviço de informações. Desertou em 1976 e ganhou um visto de permanência na Suécia, além de um salário pago pela Säpo. Depois do fim da União Soviética, virou gângster em tempo integral, como tantos outros, e opera com tráfico de mulheres, armas e drogas. Erika Berger largou a caneta.