—Certo. Por que é que eu não estou surpresa de ver a KGB metida nessa história?
—Não é a KGB. É o GRO. O serviço de informações militares.
—Então é coisa séria. Mikael meneou a cabeça.
—Você está dizendo que foi ele quem matou o Dag e a Mia?
- Não pessoalmente. Mandou alguém matar. Esse Ronald Niedermann que a Malu descobriu.
—Você tem como provar?
—Grosso modo. Ainda restam umas zonas obscuras. Mas o Bjurman foi morto porque pediu ajuda ao Zalachenko para cuidar da Lisbeth.
Mikael contou o que ele tinha visto no filme que Lisbeth guardava na gaveta da escrivaninha.
—Zalachenko é o pai dela. Bjurman trabalhou oficialmente para a Säpo em meados dos anos 1970, foi um dos que acolheram Zalachenko quando ele abandonou o barco. Depois, tornou-se advogado e virador em tempo integral, e prestava serviços para um grupo restrito dentro da Säpo. Aparentemente, existe uma panelinha que se reúne de vez em quando numa sauna para controlar o mundo e manter segredo sobre Zalachenko. Acho que o restante da Säpo nunca ouviu falar nesse canalha. A Lisbeth ameaçava revelar o segredo. Conclusão: foi internada num hospital psiquiátrico infantil.
—Não pode ser.
—Pode - disse Mikael. —Tudo bem, é um caso bastante especial, Lisbeth não era muito fácil de se lidar na época, como também não é hoje em dia... mas desde os doze anos ela representa uma ameaça para a segurança da nação.
Ele fez um apanhado sucinto da história toda.
—É muita coisa para digerir - disse Erika. —E o Dag e a Mia...
—Foram mortos porque o Dag descobriu o elo entre o Bjurman e o Zalachenko.
—E o que vai acontecer agora? A gente não devia contar tudo isso à polícia?
—Algumas partes, sim, mas não tudo. Reuni toda a informação essencial neste CD, por segurança, nunca se sabe. A Lisbeth foi atrás do Zalachenko. Vou tentar encontrada. Nada do que está neste CD pode vazar.
—Mikael... eu não estou gostando nada disso. Agente não pode ocultar informações numa investigação de homicídio.
—Não vamos ocultar nada. Eu pretendo ligar para o Bublanski. Mas acho que a Lisbeth está a caminho de Gosseberga. Ela está sendo procurada por triplo assassinato e, se chamarmos a polícia, eles vão enviar forças de intervenção com armas de alto calibre, e a chance de ela resistir é enorme. Aí, tudo pode acontecer.
Ele parou e sorriu, sem alegria.
—Temos que manter a polícia fora disso, para evitar as forças de intervenção que podem acabar causando mortos e feridos. Tenho que pôr as mãos na Lisbeth antes disso.
Erika Berger estava cética.
—Não pretendo revelar os segredos da Lisbeth. O Bublanski que descubra por si próprio. Quero que você faça um favor para mim. Nessa pasta, está o relatório do Björck de 1991 e uma correspondência entre o Björck e o Teleborian. Queria que você tirasse uma cópia e mandasse, por portador, para o Bublanski ou a Modig. Quanto a mim, estou pegando o trem para Göteborg daqui a vinte minutos.
—Mikael...
—Eu sei. Mas pretendo estar do lado da Lisbeth durante a batalha. Erika Berger apertou os lábios e não disse nada. Depois, meneou a cabeça. Mikael foi em direção à porta.
—Tenha cuidado - disse Erika, mas ele já tinha saído.
Ela achou que deveria ter ido com ele. Era a única coisa decente a ser feita. Mas ainda não tinha contado que ia pedir demissão da Millennium e que estava tudo acabado, o que quer que acontecesse. Pegou a pasta e foi tirar uma cópia dos documentos.
A caixa postal ficava na agência de correios de um centro comercial. Lisbeth não conhecia Göteborg e não sabia muito bem onde estava, mas localizara a agência e sentara-se numa cafeteria de onde podia avistar a caixa postal por uma fresta estreita entre os banners publicitários dos Novos Correios Suecos pendurados por alguns fios.
Irene Nesser estava maquiada com mais discrição do que Lisbeth Slander. Usava um colar ridículo e lia Crime e castigo, encontrado num sebo algumas ruas mais ao norte. Não tinha pressa e virava regularmente as páginas. Começara sua vigilância lá pelo meio-dia e ignorava por completo a que horas a caixa costumava ser aberta, se todos os dias ou se a cada duas semanas, se já tinha sido aberta naquele dia ou se alguém ainda viria. Mas era sua única pista, e ela tomou vários caffè latte enquanto esperava.
Estava quase cochilando, de olhos bem abertos, quando viu de repente que estavam abrindo a caixa. Olhou a hora: 13h45. Uma baita de uma sorte.
Lisbeth se levantou rapidamente, aproximou-se da vidraça e viu do outro lado um homem de jaqueta de couro preta saindo do setor de caixas postais. Alcançou-o já na rua. Era um rapaz magro de uns vinte anos. Virou a esquina e abriu a porta de um Renault estacionado ali. Lisbeth Salander memorizou o número da placa e correu para o Corolla que ela tinha deixado na mesma rua, cem metros adiante. Já estava atrás dele quando ele virou na Linnegatan. Seguiu-o até a Avenyn e depois, quando ele subiu em direção a Nordstan.
Mikael Blomkvist mal teve tempo de pegar o X2000 das 17hl0. Comprou o bilhete dentro do trem com o cartão de crédito, foi sentar-se no vagão-restaurante vazio e pediu o jantar.
Uma angústia lancinante lhe retorcia as entranhas. Temia chegar tarde demais, mas alimentava a esperança de que Lisbeth Salander ligaria para ele, mesmo sabendo que não o faria.
Ela tinha tentado matar Zalachenko em 1991. E agora, anos depois, ele acabava de dar o troco.
Holger Palmgren fizera uma análise acertada de Lisbeth Salander. Ela adquirira uma sólida experiência prática sobre o quão inútil era recorrer às autoridades.
Mikael deu uma olhada na bolsa de seu computador. Pegara o Colt encontrado na gaveta de Lisbeth. Não sabia ao certo por que tinha pegado a arma, mas seu instinto lhe disse para não deixá-la no apartamento. Admitia que não era um raciocínio muito lógico.
O trem passava pela ponte de Ársta quando ele pegou o celular e ligou para Bublanski.
—O que você quer? - perguntou Bublanski, irritado.
—Acabar - disse Mikael.
—Acabar o quê?
—Com essa confusão toda. Você quer saber quem matou o Dag, a Mia e o Bjurman?
—Se você tem alguma informação, eu gostaria de saber.
—O assassino se chama Ronald Niedermann. É o gigante loiro que lutou com o Paolo Roberto. É cidadão alemão, tem trinta e cinco anos e trabalha para um canalha chamado Alexander Zalachenko, também conhecido como Zala.
Bublanski ficou um tempo sem dizer nada. Depois suspirou ruidosamente. Mikael ouviu um ruído de papel e o clique de uma esferográfica.
—Você tem certeza?
—Tenho.
—Muito bem. E onde estão o Niedermann e esse tal Zalachenko?
—Ainda não sei. Mas assim que descobrir eu te falo. Daqui a pouco a Erika Berger vai mandar te entregar um relatório policial com data de 1991. Ela só está tirando uma cópia. Ali você vai achar todo tipo de informação sobre o Zalachenko e a Lisbeth Salander.
—Como assim?
—O Zalachenko é o pai da Lisbeth. É um espião russo dissidente da guerra fria, um assassino.
—Um espião russo! - repetiu Bublanski com a voz cheia de dúvida.
—Foi coberto por uma turminha da Säpo, que ocultou todos os crimes dele.
Mikael ouviu Bublanski pegando uma cadeira para se sentar.
—Acho melhor você passar por aqui e prestar um depoimento formal.
—Lamento, estou sem tempo.
—Como?
—Não estou em Estocolmo. Mas assim que eu encontrar o Zalachenko te dou um toque.
—Blomkvist... Você não precisa provar nada. Eu também tenho dúvidas quanto à culpa da Salander.
—Posso te lembrar que sou um simples investigador particular que não entende nada do trabalho da polícia?