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Sabia que estava sendo pueril, mas cortou a conversa sem mais formalidades. Em seguida, ligou para Annika Giannini.

—Oi, mana.

—Oi. Alguma novidade?

—Dá para dizer que sim. Provavelmente vou precisar de um bom advogado amanhã.

Ela suspirou.

—O que você aprontou?

—Por enquanto, nada sério, mas pode ser que eu seja detido por obstrução de investigação policial, ou algo assim. Mas não é por isso que estou ligando. Você não vai poder me representar.

—E por que não?

—Porque quero que você se encarregue da defesa da Lisbeth Salander, e você não pode defender os dois.

Mikael contou resumidamente do que se tratava. Annika Giannini permaneceu num silêncio fúnebre.

—E você tem documentos para se basear... - disse finalmente.

—Tenho.

—Vou ter que pensar. A Lisbeth precisa de um advogado criminalístico...

—Você será perfeita.

—Mikael...

—Escuta mana, não é você que estava sentida porque eu não pedi ajuda quando precisei?

Finda a conversa, Mikael ficou um tempo refletindo. Então pegou o telefone e ligou para Holger Palmgren. Não tinha nenhum motivo especial para isso, mas achava que afinal o senhor idoso, lá no seu centro de reabilitação, tinha de ser informado sobre as pistas que Mikael estava seguindo e sobre sua esperança de que o caso se encerrasse nas próximas horas.

O problema, evidentemente, era que Lisbeth Salander também estava seguindo suas pistas.

Lisbeth Salander se abaixou para pegar uma maçã na mochila, sem tirar os olhos da granja. Estava deitada na orla de um matinho, em cima do tapete do Corolla como proteção. Tinha trocado de roupa e usava uma calça verde de algodão pesado com bolsos nas pernas, um pulôver grosso e uma jaqueta curta forrada e bem quente.

O lugarejo de Gosseberga situava-se a cerca de quatrocentos metros da estrada departamental e compunha-se de dois grupos de edifícios. O principal estava a uns cento e vinte metros à sua frente. Era um sobrado de madeira comum, pintado de branco. Havia um galpão e um estábulo setenta metros adiante. O portão do estábulo emoldurava a frente de um carro branco. Ela podia apostar que era um Volvo, mas estava longe demais para ter certeza.

À direita, entre ela e a casa, um campo de pouco mais de duzentos metros se estendia até um açude. A trilha de acesso cortava o campo ao meio e desaparecia numa área arborizada em direção à estrada.

Na entrada da propriedade havia outra construção, com todo o jeito de sítio abandonado; as janelas estavam tapadas com tecidos claros. Ao norte dessa construção, uma área arborizada servia de cortina para o lado do vizinho mais próximo, um grupo de casas a cerca de seiscentos metros dali. O sítio à sua frente era, portanto, relativamente isolado.

Estava nas proximidades do lago Anten, numa paisagem de vales com campos cortados por pequenas aldeias e áreas de mata densa. O mapa rodoviário não dava nenhuma informação detalhada da região, mas ela seguira o Renault preto de Göteborg pela E20, dobrando para oeste em Alingsâs, na direção de Sollebrun. Mais ou menos quarenta e cinco minutos depois, o carro entrara de repente num caminho florestal, onde uma placa indicava Gosseberga. Ela estacionara atrás de uma granja, num matinho a uns cem metros ao norte da bifurcação e refizera o caminho a pé.

Nunca tinha ouvido falar em Gosseberga, mas, até onde podia perceber, o nome se aplicava a casa e ao estábulo diante dela. Passara na frente da caixa de correspondência colocada na beira da estrada. A placa indicava 612 - K. A. Bodin. O nome não lhe dizia nada.

Descrevera um semicírculo em volta da construção a fim de escolher com cuidado seu ponto de observação. Estava com o sol da tarde nas costas. Desde que chegara, por volta das três e meia, praticamente só uma coisa acontecera: as quatro, o motorista do Renault tinha saído da casa. Na soleira da porta, trocara algumas palavras com uma pessoa que ela não conseguiu ver. Depois, fora embora dirigindo o carro e não tinha voltado. No mais, nenhum movimento na granja. Esperou pacientemente e observou a construção com um pequeno binóculo Minolta com grau oito de aumento.

Irritado, Mikael Blomkvist tamborilou com os dedos na mesa do vagão-restaurante. O X2000 estava preso em Katrineholm. O trem já estava parado havia quase uma hora em função de um misterioso problema técnico que precisava ser solucionado - era o que diziam os alto-falantes. A companhia se desculpava pelo atraso.

Ele deu um suspiro frustrado e foi buscar mais um café. Só quinze minutos depois o trem partiu, com uma sacudidela. Olhou o relógio. Oito da noite.

Deveria ter ido de avião ou alugado um carro.

A sensação de que estava chegando tarde demais só fez aumentar.

Por volta das seis horas, acenderam a luz no térreo e, pouco depois, uma lâmpada externa foi acesa acima dos degraus da porta. Lisbeth vislumbrou algumas sombras no que ela imaginou ser a cozinha, à direita da porta de entrada, mas não conseguiu distinguir nenhum rosto.

De repente, a porta se abriu e o gigante loiro chamado Ronald Niedermann saiu. Usava uma calça escura e uma blusa de gola alta colante que destacava seus músculos. Lisbeth meneou a cabeça consigo mesma. Enfim uma confirmação de que estava no lugar certo. Constatou mais uma vez que Niedermann era de fato corpulento. Mas era feito de carne e osso como qualquer ser humano, o que quer que Paolo Roberto e Miriam Wu tivessem passado com ele. Niedermann deu a volta na casa e sumiu alguns minutos na direção do carro no estábulo. Voltou com uma sacola pequena na mão e tornou a entrar na casa.

Minutos depois, saiu de novo, desta vez acompanhado de um homem de certa idade, baixo e magro, que mancava e se apoiava numa bengala. Estava escuro demais para que Lisbeth conseguisse distinguir as feições de seu rosto, mas sentiu um frio glacial na nuca.

Daaaddyy, I am heeeeree...

Observou Zalachenko e Niedermann caminharem pela trilha de acesso. Eles pararam um pouco no galpão, onde Niedermann pegou algumas toras de lenha. Depois voltaram para a casa e fecharam a porta.

Lisbeth Salander permaneceu imóvel vários minutos depois que eles entraram. Então baixou o binóculo e recuou cerca de dez metros, até ficar totalmente dissimulada pelas árvores. Abriu a mochila, pegou uma garrafa térmica, serviu-se de café preto e pôs na boca um torrão de açúcar, que começou a chupar. Comeu um sanduíche de queijo embalado em plástico que havia comprado num posto de gasolina da estrada de Göteborg. E refletiu.

Terminado o lanche, tirou da mochila a P-83 Wanad de Benny Nieminen. Tirou o carregador e conferiu que não havia nada bloqueando o orifício ou o cano. Fez de conta que atirava. No carregador havia seis balas Makarov calibre nove milímetros. Devia ser suficiente. Reposicionou o carregador e engatou uma bala. Acionou a trava de segurança e guardou a arma no bolso direito da jaqueta.

Lisbeth começou a ofensiva em direção à construção com um movimento circular através da mata. Tinha percorrido cerca de trezentos metros quando estacou de repente, no meio de uma passada.

Na margem de seu exemplar do Aritmética, Pierre de Fermat havia rabiscado: Descobri uma demonstração maravilhosa. Não cabe na estreiteza desta margem.

O quadrado tinha se transformado em cubo (x3 + y3 = z3), e os matemáticos haviam passado séculos tentando resolver o enigma de Fermat. Para enfim solucioná-lo, no final do século xx, Andrew Wiles tinha batalhado dez anos, usando os programas mais avançados do mundo.

E, súbito, ela entendeu. A resposta era de uma simplicidade absolutamente desarmante. Um jogo com algarismos se alinhando e de repente se encaixando no lugar, numa fórmula simples que tinha de ser vista, antes de mais nada, como uma charada.

Fermat não dispunha de um computador, e a solução de Andrew Wiles fundamentava-se numa matemática que ainda não tinha sido inventada quando Fermat formulou seu teorema. Fermat não poderia ter produzido a prova que Andrew Wiles tinha apresentado. A solução de Fermat era, evidentemente, bem distinta.