O sorriso de Lisbeth cresceu. Súbito, exibiu uma expressão malévola.
—Deixa eu te mostrar uma coisa, paizinho.
Ela enfiou lentamente a mão no bolso da perna esquerda e tirou um eto quadrado. Ronald Niedermann espreitava o menor de seus gestos.
— Cada palavra que você pronunciou nesta última hora foi divulgada internet.
Ela brandiu seu PDA Palm Tungsten T3.
Uma ruga rasgou a testa de Zalachenko no lugar onde deveriam estar as sombrancelhas.
—Me mostra isso aí - disse ele, estendendo a mão ilesa. Lisbeth jogou-lhe o PDA. Ele o pegou no ar.
—Balela - disse Zalachenko. —É só um Palm comum.
Quando Ronald Niedermann se inclinou para ver o PDA, Lisbeth Salander jogou-lhe um punhado de areia direto nos olhos. Ele ficou cego na hora, mas disparou maquinalmente a pistola provida de silencioso. Lisbeth já tinha dado dois passos para o lado, e a bala atingiu o vazio. Ela apanhou a pá e bateu com a lâmina na mão que segurava a arma. Atingiu com toda a força as juntas dos dedos e viu sua Sig Sauer fazer uma ampla curva no ar e ir cair no meio de uns arbustos. Viu jorrar sangue de um corte profundo na falange do indicador.
Era para ele estar urrando de dor.
Niedermann tateou o ar com a mão ferida enquanto com a outra esfregava os olhos, desesperado. A única chance de Lisbeth vencer o combate era causar rapidamente estragos consideráveis; se houvesse um corpo a corpo, ela estaria perdida. Precisava de uma trégua de cinco segundos para sumir dentro da mata. Puxou a pá para trás e tornou a balançada com toda a força. Tentou virar o cabo para atingido com o gume, mas estava mal posicionada. Foi o dorso da pá que bateu no rosto de Niedermann.
Ele resmungou quando seu nariz se quebrou pela segunda vez em poucos dias. Continuava cegado pela areia, mas fez um movimento largo com o braço direito e conseguiu empurrar Salander. Ela foi para trás e seu pé pisou numa raiz. Caiu por um segundo no chão, levantando-se logo de um salto. Niedermann estava fora do páreo por enquanto. Eu vou conseguir.
Deu dois passos em direção ao mato, quando, com o rabo do olho - clique -, viu Alexander Zalachenko levantar o braço.
Esse velho cretino também está com uma pistola.
A descoberta estalou feito uma chicotada em sua cabeça.
Mudou de direção no exato momento em que ele atirou. A bala raspou seu quadril e a fez vacilar e perder o equilíbrio.
Ela não sentiu dor.
A segunda bala atingiu-lhe as costas e parou junto a escapula esquerda. Uma dor aguda e paralisante atravessou seu corpo.
Caiu de joelhos. Durante alguns segundos, não foi capaz de se mexer. Tinha consciência de que Zalachenko estava atrás dela, a uns cinco, seis metros. Num derradeiro esforço, levantou-se e deu um passo titubeante em direção ao escudo protetor dos arbustos.
Zalachenko teve tempo de sobra para mirar.
A terceira bala atingiu-a cerca de dois centímetros acima da orelha esquerda. Perfurou o osso da cabeça, causando uma rede de fissuras irradiantes no crânio. A bala de chumbo penetrou em sua cabeça, alojando-se na massa cinzenta, quatro centímetros abaixo da crosta cerebral.
Para Lisbeth Salander, a descrição médica da situação não passava de jargão científico. Em termos práticos, a bala resultou num traumatismo amplo e imediato. Sua última percepção foi a de um choque vermelho se transformando em luz branca.
Em seguida, escuridão.
Clique.
Zalachenko tentou apertar mais uma vez o gatilho, mas suas mãos tremiam tanto que não conseguia mirar. Por pouco ela não se safa. Por fim, percebeu que ela já estava morta e abaixou a arma, tremendo, enquanto a adrenalina afluía por todo o seu corpo. Olhou para a arma. Chegara a pensar em deixar a pistola em casa, mas acabara enfiando-a no bolso, como se precisasse de um mascote. Aquela garota era um monstro. Estavam ali dois homens adultos, sendo um deles Ronald Niedermann, e ainda por cima armado com uma Sig Sauer. E essa puta nojenta por pouco não se safa.
Deu uma olhada no corpo da filha. À luz da lanterna, parecia uma boneca de pano ensanguentada. Acionou a trava de segurança e enfiou a pistola no bolso, depois acercou-se de Ronald Niedermann. Ele estava completamente desamparado, lágrimas nos olhos e sangue escorrendo da mão e do nariz. O nariz ainda não tinha sarado desde a luta decisiva contra Paolo Roberto, e o dorso da pá fizera novamente estragos consideráveis.
—Acho que quebrei o nariz de novo - disse ele.
—Imbecil - disse Zalachenko. —Por pouco ela não se safa mais uma vez.
Niedermann continuou a esfregar os olhos. Não sentia dor, mas as lágrimas escorriam e ele estava quase totalmente cego.
—Endireite-se, porra! - Zalachenko balançou a cabeça com desprezo. —Puta merda, o que seria de você sem mim?
Niedermann piscou desesperadamente. Zalachenko manquejou até o corpo da filha e agarrou sua jaqueta pelo alto das costas. Ergueu-a e puxou-a na direção do túmulo, que não passava de um buraco no chão, pequeno demais para ela poder descansar deitada. Suspendeu o corpo de modo que os pés ficassem acima do buraco, e então deixou-a cair feito um saco de batatas. Lisbeth caiu em posição fetal, para a frente, com os joelhos dobrados sob o corpo.
—Tape isso aí, para a gente poder ir para casa - ordenou Zalachenko. Ronald Niedermann, ainda meio cego, precisou de algum tempo para pôr a terra no buraco. Jogou a sobra pelo terreno em volta com pazadas vigorosas.
Zalachenko fumou um cigarro enquanto contemplava o trabalho de Niedermann. Continuava tremendo, mas a adrenalina começava a refluir. Sentiu de repente um alívio por ela ter sido eliminada. Ainda lembrava de seus olhos no instante em que jogara a bomba incendiária, tantos anos atrás.
Eram nove da noite quando Zalachenko olhou ao redor e meneou a cabeça. Conseguiram achar a Sig Sauer de Niedermann no meio dos arbustos. Então, voltaram para casa. Zalanchenko se sentia extremamente satisfeito. Dedicou um tempo a cuidar da mão de Niedermann. O golpe com a pá deixara um corte fundo, e ele precisou pegar linha e agulha para costurá-lo - uma coisa que aprendera a fazer na escola militar de Novossibirsk quando tinha quinze anos. Pelo menos não precisava de anestesia. Em compensação, a ferida podia ser séria a ponto de obrigar Niedermann a ir para o hospital. Fez um curativo com tala.
Quando terminou, abriu uma cerveja para si, enquanto Niedermann enxaguava os olhos no banheiro.
32 - QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL
Mikael Blomkvist chegou à estação central de Göteborg pouco depois das nove da noite. O X2000 recuperara parte do atraso, mas não totalmente. Mikael passara a última hora da viagem ligando para autolocadoras. Primeiro tentou conseguir um carro em Alingsâs, pensando em descer do trem ali, as isso revelou-se impossível àquela hora da noite. Acabou desistindo e coseguindo um Volkswagen através de uma reserva de hotel em Göteborg. O carro estaria disponível em Jãrntorget. Deixou para lá o complexo transporte coletivo de Göteborg, com seu incompreensível sistema de bilhetes que só um engenheiro espacial seria capaz de entender. Pegou um táxi.
Quando finalmente pegou o carro, descobriu que não havia um mapa rodoviário no porta-luvas. Foi até um posto de gasolina vinte e quatro horas e fez umas provisões. Comprou, além do mapa, uma lanterna, uma garrafa de água mineral e um café para viagem que ele acomodou no painel, no espaço previsto para essa finalidade. Já eram mais de dez e meia da noite quando passou por Partille, saindo de Göteborg em direção ao norte. Pegou a estrada para Alingsâs.
Às nove e meia, uma raposa macho passou junto ao túmulo de Lisbeth Salander. Parou e olhou em volta, preocupada. Sabia, por instinto, que havia algo enterrado ali, mas achou que a presa estava difícil demais de alcançar e que não valia a pena cavar. Podia encontrar presas mais fáceis.