Выбрать главу

Muito perto dali, um animal noturno inconsciente do perigo fez um barulho e a raposa imediatamente ergueu as orelhas. Deu um passo cauteloso. Mas antes de prosseguir na caçada levantou a pata traseira e marcou seu território com uma mijada.

Bublanski não tinha por hábito dar telefonemas de trabalho à noite, mas desta vez não resistiu. Tirou o fone do gancho e discou o número de Sonja Modig.

—Desculpe eu te ligar tão tarde. Está acordada?

—Não se preocupe.

—Terminei agora de ler o relatório de 1991.

—Eu também não conseguia parar de ler.

—Sonja... como você interpreta tudo que está acontecendo?

—O Gunnar Björck, um nome bem em evidência na lista dos clientes sexuais, aparentemente mandou internar a Lisbeth Salander num hospício depois que ela tentou proteger a si mesma e à mãe de um assassino de mente perturbada que trabalhava para a Säpo. Para isso, o Björck contou com a ajuda do Peter Teleborian, que fez uma avaliação do estado psíquico da Lisbeth Salander, avaliação essa em que nós, por nossa vez, baseamos boa parte do nosso julgamento.

—Isso muda completamente a imagem dela.

—E explica algumas coisas.

—Sonja, você pode vir me pegar amanhã às oito?

—Claro.

—Vamos para Smädalarö ter uma conversinha com o Gunnar Björck. Mandei tirar informações sobre ele. Está de licença médica.

—Eu vou adorar.

—Acho que vamos precisar rever a nossa avaliação da Lisbeth Salander.

Lars Beckman olhou de esguelha para a mulher. Erika Berger, em pé em frente à janela da sala, contemplava a baía. Estava com o celular na mão e ele sabia que ela esperava uma ligação de Mikael Blomkvist. Parecia tão infeliz que ele se aproximou e pôs o braço em seus ombros.

—O Blomkvist já é bem crescidinho - disse. —Mas se você está tão preocupada, deveria ligar para aquele tira.

—Eu deveria ter feito isso há horas. Mas não é por isso que estou mal.

—É algo que eu deveria saber? - perguntou Lars. Ela meneou a cabeça.

—Fala.

—Tem uma coisa que eu não te contei. Nem para o Mikael. Nem para ninguém da redação.

—O quê?

Ela se virou para o marido e contou que tinha aceitado o cargo de redatora-chefe do Svenska Morgon-Posten. Lars Beckman ergueu as sobrancelhas.

—Não entendo por que não contou nada - disse ele. —É uma super-notícia para você. Meus parabéns.

—Acho que é porque eu simplesmente tenho a sensação de estar cometendo uma traição.

—O Mikael vai entender. Chega uma hora em que cada um tem que traçar seu próprio caminho. Essa hora chegou para você.

—Eu sei.

—Você está mesmo decidida?

—Estou. Já resolvi. Mas ainda não tive coragem de contar a ninguém. E tenho a sensação de estar abandonando o navio no meio do caos.

Ele estreitou a mulher nos braços.

Dragan Armanskij esfregou os olhos e fitou a escuridão para além das janelas do centro de reabilitação de Ersta.

—Seria melhor chamar o Bublanski - disse.

—Não - disse Holger Palmgren. —Nem Bublanski, nem autoridade nenhuma nunca levantou um dedo para defender a Lisbeth. Agora deixe ela fazer o que tem que fazer.

Armanskij olhou para o antigo tutor de Lisbeth Salander. Continuava espantado com a evidente melhora do estado de saúde de Palmgren desde sua última visita, no Natal. Palmgren ainda gaguejava, mas estava com uma nova vitalidade no olhar. E também com uma raiva que ele nunca havia visto. Naquele entardecer, Palmgren tinha lhe contado a história que Mikael Blomkvist descobrira. Armanskij estava em choque.

—Ela vai tentar matar o pai.

—É possível - disse Palmgren calmamente.

—Ou então o Zalanchenko vai tentar matá-la.

—Também é possível.

—E a gente vai ficar aqui esperando?

—Dragan... você é um cara legal. Mas o que a Lisbeth Salander faz ou deixa de fazer, se ela vai morrer ou sobreviver, não é responsabilidade sua.

Palmgren fez um gesto amplo com o braço. Estava de repente com uma capacidade de coordenação que há muito não tinha. Parecia que o drama das últimas semanas tinha afiado seus sentidos deficientes.

—Nunca tive nenhuma simpatia por pessoas que assumem o lugar da lei. Por outro lado, nunca soube de ninguém que tivesse tão bons motivos para isso. Mesmo ao risco de parecer cínico... o que vai acontecer esta noite há de acontecer independentemente do que eu ou você achamos. Está escrito nas estrelas desde o nascimento da Lisbeth. E só o que nos resta fazer é decidir qual será a nossa atitude em relação a ela se ela voltar.

Armanskij soltou um suspiro infeliz e olhou furtivamente para o velho advogado.

—E se ela passar os próximos dez anos na prisão, terá sido escolha dela. E eu vou continuar sendo seu amigo.

—Eu não sabia que você tinha essa visão tão libertária do ser humano.

—Nem eu - disse Holger Palmgren.

Miriam Wu fitou o teto. Tinha deixado a lamparina acesa e o rádio tocando música num volume baixo. O programa da noite tocava “On a slow boat to China”. Ela acordara no hospital no dia anterior, depois de Paolo Roberto levá-la até lá. Tinha dormido e acordado agitada, depois dormira de novo, tudo sem muita lógica. Os médicos diziam que ela estava com uma concussão cerebral. De qualquer forma, precisava de repouso. Estava também com o nariz quebrado, três costelas partidas e ferimentos por todo o corpo. Sua sobrancelha esquerda estava tão inchada que o olho não passava de uma fresta estreita. Sentia dor assim que tentava mudar de posição. Sentia dor quando tentava encher os pulmões de ar. Sua nuca doía, e tinham-lhe posto um colete ortopédico, nunca se sabe. Os médicos garantiam que ela ficaria totalmente boa.

Quando acordara, no final da tarde, Paolo Roberto estava ali. Ele riu e perguntou como ela estava. Tinha curiosidade em saber se sua aparência estava tão ruim quanto a dele.

Ela fizera perguntas e ele tinha explicado tudo. Estranhamente, já não parecia tão improvável ele ser amigo da Lisbeth Salander. Era um garganta. A Lisbeth gostava dos gargantas e detestava os metidos cheios de si. A diferença era muito sutil, mas Paolo Roberto pertencia à primeira categoria.

Ela ouvira a explicação sobre a repentina chegada dele, surgido do nada, ao armazém de Nykvarn. Ficou estupefata com a obstinação de Paolo em seguir a caminhonete. E descobriu, apavorada, que a polícia estava desenterrando três cadáveres no terreno em volta da construção.

—Obrigada - disse ela. —Você salvou a minha vida. Ele balançou a cabeça e ficou um bom tempo calado.

—Tentei explicar para o Blomkvist. Ele não entendeu direito. Acho que você pode entender. Porque você também luta boxe.

Ela sabia o que ele queria dizer. Ninguém que não tivesse estado no armazém de Nykvarn podia entender qual a sensação de lutar com um monstro insensível à dor. Sentira-se totalmente impotente.

Por fim, eles pararam de falar e ela ficara só segurando a mão enfaixada dele. Não havia nada a dizer. Quando voltou a acordar, ele não estava mais lá. Gostaria que Lisbeth Salander desse notícias.

Era ela que o Niedermann estava procurando.

Miriam Wu sentiu medo que ele a encontrasse.

Lisbeth Salander não conseguia respirar. Perdera a noção do tempo, mas sabia que seu corpo tinha sido atingido por balas e percebia - mais por instinto que por dedução racional - que estava enterrada. Seu braço esquerdo estava imprestável. Não conseguia mexer um músculo sequer sem que ondas de dor lhe varassem o ombro, e qualquer pensamento evoluía numa espécie de estado nebuloso. Preciso de ar. A cabeça estava a ponto de explodir com o pulsar de uma dor como ela nunca havia sentido.

A mão direita tinha ido parar sob o seu rosto, e ela instintivamente começou a cavar a fim de tirar a terra da frente do nariz e da boca. Era uma terra arenosa e relativamente seca. Conseguiu abrir uma cavidade do tamanho de um punho diante do rosto.