Não fazia idéia de quanto tempo já estava naquele túmulo. Mas sabia que sua vida estava em perigo. Por fim, conseguiu formular um pensamento coeso.
Ele me enterrou viva.
Esta certeza a deixou em pânico. Não conseguia respirar. Não conseguia se mexer. Uma tonelada de terra a mantinha prisioneira.
Tentou mexer uma perna, mas não conseguia estender os músculos. Então, cometeu o erro de tentar se levantar. Empurrou a cabeça para o alto e imediatamente a dor a transpassou pelas têmporas feito uma descarga elétrica. Não posso vomitar. Tornou a cair numa vaga inconsciência.
Quando conseguiu pensar novamente, conferiu com cautela que partes do seu corpo ainda podiam ser usadas. O único membro que ela conseguia mexer uns poucos centímetros era a mão direita na frente do rosto. Preciso de ar. O ar estava acima dela, acima do túmulo.
Lisbeth Salander começou a cavoucar. Pressionou o cotovelo e conseguiu criar um pequeno espaço de manobra. Com o dorso da mão, ampliou a cavidade na frente de seu rosto, afastando a terra. Eu tenho que cavar.
Depois de algum tempo, percebeu que, em virtude de sua posição fetal, criara-se um espaço vazio num ponto cego debaixo e entre suas coxas. Ali é que estava boa parte do ar usado que ainda a mantinha viva. Pôs-se a torcer o tórax desesperadamente e sentiu a terra afundando embaixo de si. A pressão sobre o peito cedeu um pouco. De repente conseguiu mexer o braço alguns centímetros.
Minuto a minuto, trabalhou num estado próximo da inconsciência. Foi raspando a terra arenosa do rosto e enfiando-a no espaço oco debaixo de si, punhado por punhado. Por fim, conseguiu soltar o braço o necessário para tirar a terra acima da cabeça. Centímetro por centímetro, foi liberando a cabeça. Sentiu algo duro e de repente se viu segurando na mão uma pequena raiz ou pedaço de galho. Cavou para o alto. A terra ainda estava solta, não muito compacta.
Eram pouco mais de dez horas quando a raposa tornou a passar junto ao túmulo de Lisbeth Salander, ao voltar para sua toca. Tinha comido uma ratazana e sentia-se satisfeita, quando, de súbito, percebeu uma presença. Imobilizou-se e ergueu as orelhas. O focinho e o bigode estremeceram.
Súbito, os dedos de Lisbeth Salander emergiram da terra como algo não muito vivo surgindo das trevas. Se um espectador humano estivesse por ali, provavelmente teria tido a mesma reação da raposa. Pernas para que te quero.
Lisbeth sentiu o ar fresco se espalhar pelo braço. Voltava a respirar.
Precisou de mais meia hora para se libertar do túmulo. Não se lembrava muito bem do processo. Achava estranho não poder usar a mão esquerda, mas raspou energicamente a terra e a areia com a direita.
Precisava de uma ferramenta para cavar. Depois de algum tempo, descobriu um jeito. Puxou o braço para dentro do buraco e conseguiu alcançar o bolso interno da jaqueta e pegar a cigarreira que Miriam Wu tinha lhe dado. Abriu-a e usou-a como vertedouro. Foi escoando a terra de grão em grão, jogando-a para fora com um gesto seco do punho. Súbito, conseguiu mexer o ombro direito e pressioná-lo contra a camada de terra. Depois, raspou para tirar à areia e a terra e conseguiu erguer a cabeça. Com isso, ficou com o braço direito e a cabeça fora do túmulo. Depois que conseguiu desprender parte do tórax, foi possível começar a se torcer e ir subindo centímetro por centímetro até que de repente a terra soltasse suas pernas.
Afastou-se do túmulo rastejando, olhos fechados, e só parou quando seu ombro esbarrou num tronco de árvore. Virou o corpo devagar para se recostar na árvore e limpou a sujeira dos olhos com o dorso da mão antes de abrir as pálpebras. Era noite escura e o ar estava gélido. Ela transpirava. Sentiu uma dor surda na cabeça, no ombro esquerdo e no quadril, mas não gastou energia pensando no assunto. Permaneceu imóvel uns dez minutos, respirando. Então se deu conta de que não podia ficar ali.
Foi uma luta conseguir ficar de pé, enquanto o mundo inteiro girava.
Sentiu-se imediatamente enjoada e se inclinou para a frente a fim de vomitar.
Então, começou a andar, sem saber em que direção. Tinha dificuldades para mexer a perna esquerda, tropeçava o tempo todo, caía de joelhos. A cada vez, uma dor intensa lhe varava a cabeça.
Não sabia bem há quanto tempo estava andando, quando repentinamente avistou uma luz com o canto do olho. Mudou de direção e continuou avançando aos tropeções. Só quando chegou ao galpão ao lado do pátio percebeu que tinha voltado direto para a casa de Zalachenko. Deteve-se, cambaleando como uma bêbada.
Células fotoelétricas na trilha de acesso e no arvoredo. Ela tinha vindo pelo outro lado. Eles não teriam notado.
Ficou perturbada. Compreendeu que não estava em condições de travar outra luta com Niedermann e Zalachenko. Contemplou a casa branca.
Clique. Lenha. Clique. Fogo.
Pôs-se a tecer fantasias com um galão de gasolina e um fósforo.
Com muito custo, virou-se para o galpão e cambaleou até uma porta fechada com uma tranca. Conseguiu erguê-la empurrando com o ombro direito. Ouviu o barulho quando a tranca caiu no chão esbarrando na porta. Deu um passo no escuro e olhou em volta.
Era um galpão de lenha. Ali não havia gasolina.
Na mesa da cozinha, Alexander Zalachenko ergueu os olhos ao ouvir o som da tranca se chocando contra a porta do galpão. Afastou a cortina e estreitou os olhos para a escuridão lá fora. Levou alguns segundos até seus olhos se habituarem. O vento estava mais forte. A meteorologia anunciara um fim de semana agitado. Então, viu a porta do galpão entreaberta.
Ele tinha ido, à tarde, buscar lenha com Niedermann. Uma caminhada inútil, cujo principal objetivo fora confirmar para Lisbeth Salander que ela tinha chegado ao endereço certo, e assim atraí-la.
Niedermann teria se esquecido de recolocar a tranca? Como ele podia ser tão negligente? Deu uma olhada para a porta da sala, onde Niedermann adormecera no sofá, mas pensou que podia deixá-lo dormir. Levantou-se da cadeira.
Para achar gasolina, Lisbeth seria obrigada a ir até o estábulo onde estavam guardados os carros. Apoiou-se num cepo e respirou pesadamente. Precisava descansar. Estava sentada havia um minuto apenas, quando escutou os passos arrastados da prótese de Zalachenko na frente do galpão.
Por causa da escuridão, Mikael errou de estrada em Mellby, ao norte de Sollebrunn. Em vez de virar na direção de Nossebro, continuou para o norte e só se deu conta do erro ao chegar a Trõkõrna. Parou e consultou o mapa rodoviário.
Soltou um palavrão, deu meia-volta e retornou para o sul rumo a Nossebro.
Com a mão direita, Lisbeth Salander apanhou um machado que estava em cima do cepo um segundo antes de Alexander Zalachenko entrar no galpão. Como não tivesse forças suficientes para erguê-lo acima da cabeça, segurou-o com uma mão só e traçou uma curva de baixo para cima, jogando o peso sobre o quadril intacto e fazendo um meio giro sobre si mesma.
Zalachenko estava pressionando o interruptor quando a lâmina o golpeou de viés do lado direito do rosto, quebrou-lhe o osso da face e penetrou alguns milímetros em sua testa. Não teve tempo de entender o que estava acontecendo, mas, no instante seguinte, seu cérebro registrou a dor e ele se pôs a urrar feito um demente.
Ronald Niedermann acordou num sobressalto e se sentou atordoado. Ouviu um berro que, de início, julgou não ser humano. Vinha lá de fora. Depois percebeu que quem berrava era Zalachenko. Levantou-se rapidamente.
Lisbeth Salander tomou impulso e jogou o machado mais uma vez, só que seu corpo não obedeceu à ordem. Sua intenção tinha sido erguer o machado e plantá-lo na cabeça do seu pai, mas suas forças haviam se esgotado e o golpe o atingiu bem mais embaixo, logo abaixo do joelho. O peso, porém, fez a lâmina se cravar tão fundo que o machado ficou preso e escapou de sua mão quando Zalachenko caiu de cabeça dentro do galpão. Ele não parava de urrar.