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Mikael estava no meio do pátio quando ouviu um ruído. Virou-se e deixou-se cair de joelhos, arma em riste. Levou alguns segundos para localizar o som, que vinha de um galpão. Parecia alguém gemendo. Avançou rapidamente pela grama e parou em frente ao galpão. Olhando por uma fresta, conseguiu ver que havia uma luz acesa lá dentro.

Ficou à escuta. Alguém se mexia. Ergueu a tranca e abriu a porta, e foi recebido por um par de olhos apavorados em meio a um rosto ensanguentado. Viu o machado no chão.

—CarambaMeuDeus - murmurou.

Então viu a prótese.

Zalachenko.

Lisbeth Salander, definitivamente, tinha passado por ali. Difícil imaginar o que teria acontecido. Fechou a porta depressa e repôs a tranca no lugar.

Com Zalachenko no galpão de lenha e Niedermann amarrado na estrada de Sollebrunn, Mikael atravessou o pátio a passos céleres e dirigiu-se para a casa. A presença de uma terceira pessoa que ele não conhecesse e que pudesse representar um perigo não estava excluída, mas a casa parecia vazia, quase inabitada. Apontou a arma para o chão e, devagar, abriu a porta. Viu-se num hall de entrada escuro e percebeu um retângulo de luz na cozinha. O único som que ouviu foi o tiquetaque de um relógio de parede. Ao transpor a porta da cozinha, avistou de imediato Lisbeth Salander deitada no banco.

Por um breve instante, ficou como petrificado, contemplando o corpo maltratado. Notou que ela segurava uma pistola na mão, que pendia frouxamente. Aproximou-se devagarinho e caiu de joelhos. Lembrou de quando tinha encontrado Dag e Mia e, por um segundo, achou que ela estivesse morta. Então percebeu um leve movimento na caixa torácica e escutou um fraco estertor.

Estendeu a mão e, suavemente, começou a tirar a pistola. Súbito, a mão em volta da coronha se endureceu. Ela abriu os olhos em duas frestas estreitas e fitou-o por longos minutos. Seu olhar estava instável. Então ouviu-a murmurar, com uma voz tão baixa que custou a entender o que ela dizia.

Maldito Super-Blomkvist.

Ela fechou os olhos e soltou a pistola. Ele pôs a arma no chão, pegou o celular e discou o número do SOS-Brigada.

 

STIEG LARSSON

A RAINHA DO CASTELO DE AR

Tradução

Dorothée de Bruchard

I. ENCONTRO NUM CORREDOR  8 A 12 DE ABRIL

Calcula-se em seiscentos o número de mulheres soldados que combateram na Guerra de Secessão. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da história cultural — ou será que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideológico? Os livros de história sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que não respeitam os padrões de gênero, e em nenhuma área essa limitação é tão evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas.

No entanto, da Antigüidade aos tempos modernos a história é fértil em relatos protagonizados por guerreiras — as amazonas. Os exemplos mais conhecidos constam nos livros de história em que essas mulheres têm o estatuto de "rainhas", ou seja, de representantes da classe no poder. Com efeito, a sucessão política regularmente coloca uma mulher no trono, por mais desagradável que essa verdade soe. Sendo as guerras insensíveis ao gênero e ocorrendo até mesmo quando uma mulher dirige o país, o resultado é que os livros de história são obrigados a registrar certo número de rainhas guerreiras levadas, conseqüentemente, a se comportar como qualquer Churchill, Stálin ou Roosevelt. Semíramis de Nínive, fundadora do Império Assírio, e Boadiceia, que liderou uma das mais sangrentas revoltas contra os romanos, são dois exemplos. Esta última, aliás, tem uma estátua à margem do Tâmisa, em frente ao Big Ben. Não deixemos de cumprimentá-la caso estejamos passando por ali.

Em compensação, os livros de história são, em geral, bastante discretos sobre as guerreiras que atuaram como simples soldados, exercitando-se no manejo das armas, integrando os regimentos e participando das batalhas contra exércitos inimigos em condições idênticas às dos homens. Essas mulheres, contudo, sempre existiram. Praticamente nenhuma guerra foi travada sem alguma participação feminina.

1.  SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL

Pouco antes da uma e meia da manhã, o Dr. Anders Jonasson foi acordado pela enfermeira Hanna Nicander.

— O que foi? — Perguntou, meio atordoado.

— Helicóptero chegando. Dois pacientes. Um homem de idade e uma mulher jovem. Ela levou um tiro.

— Estou indo, estou indo — disse Anders Jonasson, cansado.

Ainda não se sentia muito desperto, embora na verdade nem tivesse chegado a dormir; só dera um cochilo de meia hora. Estava de plantão no pronto-socorro do Hospital Sahlgrenska, em Göteborg. O início da noite tinha sido particularmente exaustivo. Às seis horas, quando o plantão começara, o hospital havia recebido quatro vítimas de uma colisão frontal nas proximidades de Lindome. Uma delas estava gravemente ferida e outra fora declarada morta pouco depois de chegar. Ele também tinha tratado da garçonete de um restaurante da Avenyn cujas pernas tinham sido escaldadas na cozinha, e salvara a vida de um menino de quatro anos que dera entrada no hospital com parada respiratória depois de engolir a rodinha de um carrinho de brinquedo. Além disso, tivera tempo de remendar uma adolescente que caíra de bicicleta num buraco. A Secretaria de Obras Públicas, muito esperta, escolhera a saída de uma ciclovia para abrir o buraco e, evidentemente, alguém ainda tinha jogado as barreiras de proteção dentro dele. A garota levara catorze pontos no rosto e ia precisar de dois dentes incisivos novos. Jonasson também costurara a ponta de um polegar que um entusiasmado marceneiro de fim de semana aplainara por inadvertência.

Por volta das onze horas, o número de pacientes da emergência diminuíra. Ele tinha feito sua ronda e conferido o estado dos internados, e então se recolhera a uma sala de descanso para tentar relaxar um pouco. Seu turno ia até as seis da manhã. Ele raramente dormia quando estava de plantão, mesmo que não houvesse novas entradas, mas justo nessa noite adormecera quase de imediato.

Hanna Nicander ofereceu-lhe uma caneca de chá. Ainda não tinha maiores detalhes sobre os novos pacientes.

Anders Jonasson deu uma olhada pela janela e viu relâmpagos enormes riscando o céu acima do mar. Ia ser difícil para o helicóptero. De repente, desabou uma chuva violenta. A tempestade se abateu sobre Göteborg.

Ele ainda estava diante da janela quando ouviu o barulho do motor e avistou o helicóptero que, sacudido pelas rajadas, se aproximava da área de pouso. Prendeu a respiração ao ver que o piloto parecia ter dificuldade para controlar a aproximação. Então o aparelho sumiu de seu campo de visão e ele ouviu a turbina reduzindo a marcha. Tomou um gole e largou a caneca.

Anders Jonasson recebeu os paramédicos na entrada do pronto-socorro. Sua colega de plantão, Katarina Holm, assumiu o primeiro paciente que chegava deitado numa maça, um homem de idade com um ferimento grande no rosto. Coube ao Dr. Jonasson cuidar da mulher que levara um tiro. Uma rápida avaliação mostrou que se tratava de uma adolescente, gravemente ferida e toda suja de terra e sangue. Ele ergueu o cobertor no qual os paramédicos a tinham envolvido e notou que alguém fechara as lesões do quadril e do ombro com uma larga fita adesiva prateada, o que lhe pareceu uma iniciativa particularmente perspicaz. A fita adesiva bloqueava a entrada das bactérias e a saída do sangue. Uma bala a atingira na parte externa do quadril e atravessara o tecido muscular de lado a lado. Ele ergueu o ombro dela e identificou, nas costas, o orifício de entrada da bala. Não havia orifício de saída, o que significava que a bala estava cravada em algum ponto do ombro. Só restava esperar que não tivesse perfurado o pulmão. Como ele não viu sangue na boca da jovem, concluiu que esse devia ser o caso.