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— Radiografia — disse à enfermeira que o assistia. Bastava como instrução.

Por fim, cortou o curativo que os paramédicos tinham usado na cabeça da jovem. Estremeceu ao apalpar o orifício de entrada com a ponta dos dedos. Ela tinha sido alvejada na cabeça. Ali também não havia orifício de saída.

Anders Jonasson deteve-se por um segundo e contemplou a jovem. De repente, sentiu-se invadido pelo pessimismo. Por várias vezes já tinha comparado seu trabalho com o de um goleiro. Todos os dias chegavam a seu local de trabalho, pessoas nas mais diversas condições, e todas com uma única intenção — conseguir ajuda. Entre elas, aquela senhora de setenta e quatro anos que tivera uma parada cardíaca e desabara na galeria comercial de Nordstan, o menino de catorze anos com o pulmão perfurado por uma chave de fenda e a menina de dezesseis que consumira ecstasy e dançara dezoito horas seguidas para então desabar, com o rosto todo azul. Elas eram vítimas de acidentes de trabalho ou de maus-tratos. Eram crianças pequenas atacadas por pitbulls na Praça Vasa e homens de mãos habilidosas cuja intenção fora apenas cortar umas tábuas com uma serra tico-tico e que acabaram talhando o pulso até o osso.

Anders Jonasson era o goleiro posicionado entre os pacientes e a agência funerária. Seu trabalho consistia em decidir quais eram as providências adequadas. Se tomasse a decisão errada, o paciente morria ou, talvez, acordava com uma invalidez permanente. No mais das vezes, tomava a decisão certa, e isso porque a maioria dos feridos tinha um problema específico e compreensível. Uma facada no pulmão ou uma lesão decorrente de um acidente de carro eram ferimentos inteligíveis e claros. A sobrevida do paciente dependia da natureza do ferimento e da habilidade de Jonasson.

Havia dois tipos de ferimento que Anders Jonasson detestava. De um lado, certas queimaduras, que na maioria dos casos, quaisquer que fossem os recursos utilizados, resultavam numa vida de sofrimentos. De outro, os ferimentos na cabeça.

Aquela jovem diante dele poderia viver com uma bala no quadril e outra no ombro. Mas uma bala num ponto qualquer do cérebro já era um problema de outra dimensão. De repente, percebeu que a enfermeira dizia alguma coisa.

— Como?

— É ela.

— Ela quem?

— Lisbeth Salander. A garota que vem sendo procurada há várias semanas por triplo assassinato em Estocolmo.

Anders Jonasson fitou o rosto da paciente. Hanna estava certa. Era a foto daquela jovem que ele e quase todos os suecos estavam vendo estampada nas bancas de jornais desde a Páscoa. E ali estava a assassina, ferida, o que decerto acabava sendo uma forma impressionante de justiça.

Mas isso não lhe dizia respeito. Seu trabalho era salvar a vida de sua paciente, fosse ela uma tríplice assassina ou uma ganhadora do prêmio Nobel. Ou ambas as coisas.

Em seguida, houve aquela confusão controlada que caracteriza todo serviço de emergência. A equipe que trabalhava com Jonasson era tarimbada e sabia o que fazer. As roupas que Lisbeth Salander ainda vestia foram recortadas. Uma enfermeira informou sua pressão arterial — dez por sete — enquanto ele punha o estetoscópio no peito da paciente e escutava os batimentos cardíacos, que pareciam relativamente regulares; a respiração, nem tanto.

O Dr. Jonasson não hesitou, de saída, em classificar o estado de Lisbeth Salander como crítico. Os ferimentos do ombro e do quadril podiam esperar, aplicando-se compressas ou até deixando ali os pedaços de fita adesiva, já colocados por uma alma inspirada. O mais urgente era a cabeça. Jonasson ordenou que a passassem pelo tomógrafo no qual o hospital investira dinheiro do contribuinte.

Anders Jonasson era um homem loiro de olhos azuis, originário do norte da Suécia, mais precisamente de Umea. Fazia vinte anos que trabalhava nos hospitais Sahlgrenska e Ostra, revezando-se nas funções de pesquisador, patologista e médico do pronto-socorro. Havia nele uma particularidade que perturbava seus colegas e deixava os funcionários orgulhosos de trabalhar com ele: por princípio nenhum paciente deveria morrer nos seus plantões e, de algum modo milagroso, ele conseguira manter seu escore em zero. Alguns pacientes seus tinham falecido, é claro, mas durante cuidados posteriores ou por motivos não relacionados com a sua intervenção.

Algumas vezes Jonasson também tinha uma visão pouco ortodoxa da medicina. Segundo ele, os médicos tendiam a tirar conclusões que depois eram incapazes de justificar, e por isso desistiam com muita facilidade, ou então dedicavam tempo demais tentando definir exatamente o problema para só então prescrever o tratamento adequado. De fato, esse era o método preconizado pelo manual, mas o detalhe é que o paciente corria o risco de morrer enquanto o corpo médico se perdia em ponderações. Na pior das hipóteses, o médico concluía que o caso era desesperador e interrompia o tratamento.

Contudo, era a primeira vez que Anders Jonasson recebia um paciente com uma bala no crânio. Provavelmente um neurocirurgião seria indispensável. Essa não era sua especialidade, mas de repente lhe ocorreu que talvez estivesse com mais sorte do que merecia. Antes de lavar as mãos e vestir a roupa esterilizada, gritou para Hanna Nicander:

— Tem um professor americano, chamado Frank Ellis, que trabalha no Karolinska de Estocolmo, mas está em Göteborg no momento. É um neurologista famoso e, além do mais, um bom amigo meu. Está hospedado no Hotel Radisson, na Avenyn. Tente descobrir o telefone.

Enquanto Anders Jonasson esperava o resultado das tomografias, Hanna Nicander voltou com o número do Hotel Radisson. Anders Jonasson deu uma olhada no relógio — 1h42 — e tirou o fone do gancho. O recepcionista da noite do Radisson mostrou-se bastante avesso à idéia de transferir uma chamada àquela hora, e o médico precisou falar com bastante veemência para explicar a gravidade da situação e ter a ligação completada.

— Oi, Frank — disse Anders Jonasson quando ele finalmente atendeu. — É o Anders. Soube que você estava em Göteborg. Você não daria um pulo aqui no Sahlgrenska para me assistir numa cirurgia de cérebro?

— Are you bullshitting me? — inquiriu uma voz cética do outro lado da linha. Embora morasse na Suécia havia vários anos e falasse fluentemente sueco — com sotaque americano, claro —, ele preferia o inglês. Anders Jonasson falou em sueco e Ellis respondeu em inglês.

— Frank, lamento ter perdido sua conferência, mas achei que você pudesse me dar umas aulas particulares. Estou aqui com uma mulher com uma bala na cabeça. O orifício de entrada é bem acima da orelha esquerda. Eu não te ligaria se não precisasse de uma segunda opinião. E não conheço ninguém mais competente nesse tipo de assunto.

— Não é brincadeira? — perguntou Frank Ellis.

— A moça tem uns vinte e cinco anos.

— E qual o aspecto do ferimento?

— Orifício de entrada, nenhum orifício de saída.

— Mas ela está viva?

— Pulso fraco, porém regular, respiração nem tão regular, pressão dez por sete. Ela também está com uma bala no ombro e um ferimento de bala no quadril. Disso eu posso cuidar.

— Parece bem promissor — disse o professor Ellis.

— Promissor?

— Quando alguém está com uma bala na cabeça e continua vivo, a situação deve ser considerada muito auspiciosa.